Cubanos invadem embaixada do México para pedir asilo

Cerca de 20 cubanos desejosos de emigrar investiram com um ônibus contra as portas da embaixada do México e entraram no edifício, onde posteriormente mais de 10 deles apareceram no telhado gritando lemas contra o presidente Fidel Castro e ameaçaram atirar-se ao solo caso a polícia tentasse desalojá-los. O grupo seqüestrou o ônibus antes de invadir nesta quarta-feira à noite a embaixada, disse o governo cubano. Na madrugada desta quinta-feira, as autoridades cubanas acusaram a emissora governamental americana Radio Martí de provocar a ocupação da embaixada, ao retransmitir repetidamente declarações do chanceler mexicano, Jorge Castañeda. As autoridades cubanas disseram que essas palavras foram interpretadas como "um convite aberto à ocupação da embaixada do México em Cuba". No México, Castañeda disse à Radio Red que "esses elementos radicais sem dúvida quiseram utilizar, deturpando seu sentido, minhas declarações sobre o Instituto Cultural do México em Miami... e sobre a política mexicana tradicional para lançar o que podemos chamar de uma pequena provocação?. "Mas - acrescentou - temos a impressão de que as coisas estão se resolvendo". O chanceler cubano, Felipe Pérez Roque, disse que Castañeda pediu às autoridades de Havana o envio de um forte contingente policial para a zona e reconheceu que "a situação parece ter melhorado" depois que forças de segurança cercaram a embaixada. E prosseguiu: "O comandante (Fidel) Castro se dirigiu na mesma noite à embaixada. Pedimos às autoridades cubanas que enviem um grande reforço da força pública para evitar que isto se repita, para que não haja mais caminhões nem mais pessoas tentando entrar à força. Não vamos permitir isso".Castañeda, que visitou Miami esta semana, foi citado pela imprensa local dizendo que "as portas da embaixada do México na ilha estão abertas a todos os cidadãos cubanos". No entanto, Castañeda disse à Radio Red que os repórteres de Miami confundiram duas de suas declarações feitas em separado ao inaugurar o Centro Cultural Mexicano naquela cidade da Flórida. Segundo o chanceler mexicano, o que ele quis dizer foi que as portas do centro "estão abertas à totalidade da comunidade latina de Miami". Castañeda acrescentou que o México está aberto aos ativistas cubanos dos direitos humanos e à democracia. "Muitos deles estiveram no México no passado", ressaltou. Nesta quinta-feira de manhã, continuava havendo confusão entre os residentes de Havana, especialmente entre os reduzidos grupos de pessoas que continuavam tentando entrar na sede diplomática mexicana. Margarita González, de 52 anos, chegou nesta quinta-feira com um vizinho e imediatamente perguntou a um policial que vigiava a rua de acesso à embaixada se era verdade "que o México está aprovando as saídas, porque quero ir embora". Ela explicou que tem netos, sobrinhos, sobrinhas e irmãos nos EUA. E insistiu em que a declaração do governo cubano - destinada a acabar com a crise - dava a entender que o México estava aceitando gente que desejava abandonar o país. O mesmo pensavam outras pessoas presentes no local, como a dona de casa Antonia Silva Ruiz, para quem os invasores da embaixada querem abandonar o país. No entanto, ainda durante a madrugada, pôde-se observar que vários caminhões cheios de trabalhadores cubanos pró-regime, alguns erguendo pedaços de madeira ou canos de metal, estacionaram nas proximidades da embaixada. Muitos detalhes do incidente na embaixada não foram esclarecidos, porque a polícia exigiu que os jornalistas deixassem o local. Dois deles, da agência Reuters, sofreram agressões dos policiais, e a câmara de televisão de um deles foi roubada, informou a agência noticiosa britânica. Fidel Castro, acompanhado do chanceler Pérez Roque e do vice-presidente Carlos Lage, chegou à embaixada pouco depois da meia-noite, em uma comitiva de três jipes do Exército, e foi saudado com gritos de júbilo por mais de 100 transeuntes.O incidente fez lembrar os episódios de 1980, quando os cubanos investiram com um ônibus contra as portas da embaixada peruana e solicitaram asilo. Cuba retirou logo suas sentinelas, e cerca de 10.000 cubanos entraram no recinto diplomático. Fidel Castro abriu logo depois o porto de Mariel, e 125.000 cubanos - entre eles os refugiados da embaixada peruana - fugiram para os EUA em um caótico êxodo marítimo.Funcionários cubanos que não quiseram identificar-se disseram nesta quarta-feira à noite que só podiam informar que ao menos uma das pessoas que entraram na enbaixada havia sofrido lesões e fora levada para um hospital. Nos quarteirões que rodeiam a embaixada, pelo menos dois homens foram detidos. Diante do edifício, ainda podia ser visto o ônibus Mercedes Benz azul e branco que se espatifou contra o portão da embaixada. Mais tarde, disseram funcionários, o ônibus foi removido do local. Do telhado, um homem gritava: "Podemos ficar aqui 4 anos, 10 anos, mas não sairemos! Abaixo Fidel!".

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.