Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

'Cubanos não querem fim do embargo agora'

Analista diz que governo não busca a normalização total das relações econômicas imediatamente, evitando a ‘compra da ilha’ por investidores estrangeiros

Entrevista com

Walter Russel Mead

Renata Tranches , O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2015 | 03h00

A reaproximação entre os Estados Unidos e Cuba marca o fim de uma era de temor, em Washington, de a esquerda na América Latina e de o comunismo se espalharem pela região. A avaliação é do analista Walter Russel Mead, professor de política externa americana da Yale University, editor da revista The American Interest e cofundador do centro de estudos New America Foundation. Segundo Mead, apesar da retomada do diálogo, o embargo americano contra Cuba ainda deve durar por algum tempo, não apenas porque a maioria republicana do Congresso se opõe a ele, mas porque os irmãos Raúl e Fidel Castro não querem vê-lo levantado. 

“Se as relações comerciais fossem normalizadas e se a economia cubana se abrisse para investimentos estrangeiros, os cubano-americanos poderiam simplesmente comprar toda a ilha de volta. E isso não é o que os Castros querem deixar como legado”, disse Mead, em entrevista ao Estado. Ex-integrante do Council on Foreign Relations , Mead ministra, a partir de amanhã, uma série de palestras na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), em São Paulo. 

Na sua avaliação, qual será o legado do presidente Obama na política externa americana?

Muito vai depender de como se desdobrará o acordo iraniano, que não sabemos como será. Se o acordo tiver sucesso, se as relações entre EUA e Irã melhorarem, se Teerã não fabricar uma bomba e, pelo contrário, se tornar um país mais pacífico no Oriente Médio, as pessoas darão muito crédito para ele (Obama). Por outro lado, se não der certo desse jeito, o legado não vai ser positivo. 

Mas e se o Congresso bloquear o acordo?

É provável que ele bloqueie, mas o presidente Obama tem o poder de vetar isso. O Congresso precisará de uma maioria de dois terços em ambas as Casas para derrubar o veto do presidente. Provavelmente, o que vai acontecer é que o Congresso vai votar contra o acordo, Obama vai vetar essa resolução e os congressistas não terão votos suficientes para revertê-la. O acordo entrará em vigor, mas não com o apoio do Congresso.

Esse cenário está garantido, já que alguns democratas disseram que não apoiarão o pacto? 

Bem, Obama precisa de 34, 35 votos democratas, se você incluir o senador (Bernie) Sanders, que é socialista, mas vota com os democratas. De qualquer maneira, o presidente pode perder um certo número de senadores democratas e ainda ter os votos de que precisa.

Alguns críticos dizem que o governo de Obama não prestou muita atenção à América Latina. O senhor concorda? O que muda com a reaproximação com Cuba?

Na verdade, o interessante sobre isso é que o presidente (Bill) Clinton ficaria feliz de fazer esse mesmo arranjo com Cuba, assim como o presidente (Jimmy) Carter. Na verdade, tenho escutado de algumas pessoas que participaram do governo de (Richard) Nixon que eles também tentaram, essencialmente, organizar uma solução muito parecida com essa que temos visto, mas Cuba não estava interessada. Então, para mim, parece que houve menos mudança do lado dos EUA, e mais na posição cubana. Além disso, João Paulo II teria ficado muito feliz de ter desempenhado o papel que o papa Francisco está tendo. Ele até tentou. 

Por que houve essa mudança agora? 

O que houve é que, com o colapso da Venezuela, Cuba tem medo de, mais uma vez, perder sua maior fonte de apoio econômico, como aconteceu com a União Soviética. E acho que eles não podem se dar ao luxo de passar por isso de novo. Acho que os cubanos decidiram que é melhor abrir cautelosamente para os Estados Unidos. No entanto, a relação econômica será limitada, porque a maioria das sanções contra Cuba e o embargo econômico, a Lei Helms-Burton, ainda têm de ser derrubados pelo Congresso, mas isso não vai acontecer pelo menos por enquanto.

Somente uma nova maioria democrata o reverteria?

Talvez os próprios republicanos o façam dentro de algum tempo, mas minha impressão é que os cubanos não querem o fim do embargo e uma relação comercial econômica completa com os EUA agora. Se as relações comerciais fossem normalizadas e se a economia cubana se abrisse para investimentos estrangeiros, os cubano-americanos poderiam simplesmente comprar toda a ilha de volta. E isso não é o que os irmãos Castros querem deixar como legado. 

Como essa aproximação afeta a América Latina?

Desde o fim da Guerra Fria, os EUA vêm, gradualmente, perdendo seu medo da esquerda na América Latina. Durante a Guerra Fria, havia sempre o temor de que o comunismo se espalhasse pela atmosfera. Na verdade, voltando à 2ª Guerra, os EUA se preocupavam que algum país na América Latina pudesse se alinhar com as potências inimigas, especialmente a Argentina. Havia, no âmbito da Segurança Nacional, preocupações com relação à América Latina. 

Com o fim da Guerra Fria, essa preocupação começou a se desfazer. Os EUA passaram a olhar para Equador, Venezuela, Bolívia sem ficar particularmente preocupados. De certa forma, podemos dizer que é a mesma coisa com relação a Cuba. Provavelmente, há um consenso em Washington de que a Venezuela está fazendo um trabalho excelente em demonstrar a fatalidade do socialismo na América Latina. Os EUA não precisam interferir com esse processo. 

Haverá um diálogo entre Venezuela e EUA? 

A situação na Venezuela está se deteriorando tão rapidamente e a situação política é tão complicada que é difícil dizer como o governo venezuelano vai se comportar daqui a seis meses. É possível também que, se o governo tiver medo de perder as eleições, isso possa resultar em um método não democrático para permanecer no poder. 

É interessante ver como tantas pessoas na esquerda costumavam dizer o socialismo de Cuba funcionaria se a ilha não tivesse um embargo dos EUA e produzisse petróleo. Assim, o socialismo funcionaria brilhantemente em Cuba. Venezuela é uma refutação dessa ideia. Lá, não há um embargo dos EUA e o país é um dos maiores produtores de petróleo do mundo e, mesmo assim, não se pode comprar comida ou remédios, ou viver uma vida normal sob o socialismo. Isso é um estudo de caso muito instrutivo para todos nós. 

Como será o debate sobre política externa nas eleições de 2016?

Será muito interessante ver, por exemplo, se a ex-secretária Hillary Clinton competirá como uma continuidade do presidente Obama em política externa ou se ela tentará se diferenciar dele. Se você olhar as pesquisas, menos de 40% aprovam o jeito que o presidente Obama está conduzindo a política externa. E sua taxa de aprovação nessa área é, na verdade, menor do que em todas as outras avaliadas. 

Meu palpite é que os republicanos vão atacar a política externa de Obama e vincular Hillary a essa política. Claro, ela foi sua secretária de Estado, mas se você ler o livro de memórias dela, na verdade, pode identificar duas questões nas quais ela discorda do presidente Obama. Uma é a Rússia, sobre a qual ela diz ser muito mais cética, e a outra é Síria, na qual ela achava que a administração deveria ter sido mais ativa. Não acho que ela se projetará como o terceiro mandato de Obama. Acho que ela desenvolverá uma estratégia diferente, dizendo ter suas próprias ideias. 

Ela teve problemas por ter utilizado sua conta pessoal de e-mail para assuntos de trabalho quando era secretária de Estado. Quão prejudicial será essa questão para ela? 

Não sabemos sobre a situação dos e-mails, e agora que o FBI (polícia federal) se envolveu, é um tipo de questão legal. Assim como deve ser no Brasil, quando o sistema tradicional se envolve, tudo se torna muito imprevisível. Ninguém sabe o que acontece lá. 

Em um de seus textos, o sr. cita o ‘populismo niilista’ de Donald Trump. Quem vai ser Trump nas eleições de 2016? 

Os eleitores vão se cansar dele até novembro de 2016. Ele é mais um entretenimento do que uma opção séria de política. Esse tipo de candidato tende a falhar. Mas, se ele decidir competir por um terceiro partido, ele prejudicará muito mais republicanos do que democratas. Não acho que conseguirá a nomeação republicana. Mas, como ele está tão bem nas pesquisas, ele pensa que, mesmo se perder a indicação republicana, pode tentar concorrer como um candidato independente. 

Ainda sobre a política externa do presidente, com relação ao Estado Islâmico, havia algo que Obama poderia ter feito diferente?

Certamente. Na minha opinião, a administração deveria ter feito na Síria o que fez na Líbia, e na Líbia o que fez na Síria. Quer dizer, se no começo, quando a Primavera Árabe ainda estava acontecendo, a administração tivesse providenciado o tipo de poder aéreo que forneceu à Líbia, talvez tivéssemos visto a queda do governo (Bashar) Assad antes de a oposição ter se radicalizado tanto e antes do Estado Islâmico ter tomado conta do país. A Síria, provavelmente, ainda teria algum período difícil à frente, mas tudo teria ocorrido de uma forma melhor. 

E na Líbia?

Diferentemente da Líbia, onde ninguém foi realmente capaz de obter alguma estabilidade após a queda de Kadafi, a Síria é estrategicamente importante para um número de países suficiente, como Europa, EUA e Turquia, para investir em seu futuro e ajudar a população síria a construir um novo governo. Se tivéssemos feito isso, provavelmente a um custo muito baixo, poderíamos ter prevenido não apenas o crescimento do Estado Islâmico, mas a terrível catástrofe humanitária e os crimes horríveis do governo de Assad. Esse foi um desastre que poderia ter sido evitado. 

Isso teve a ver com a política de poder brando? 

É interessante. O poder branco (softpower) do presidente funciona em alguns lugares, mas em outros, não. É muito efetivo na Europa, assim como na América Latina. Não apenas para a popularidade de Obama, mas as pessoas se sentem melhor sobre os Estados Unidos do que quando (George W.) Bush estava no governo. Mas o softpower do presidente Obama não funciona muito bem no mundo árabe sunita.

A maioria dos países árabes sunitas está amarga com relação ao presidente Obama. Mas acho, de novo, que nenhum presidente pode agradar todo mundo. Bush era muito impopular na Europa, mas muito popular na Índia. Eles amavam o presidente Bush na Índia. Na África, ele foi muito popular também. Softpower é uma coisa engraçada, não funciona do mesmo jeito em todo lugar.

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