Enrique de La Osa/Reuters
Enrique de La Osa/Reuters

Cubanos penam para montar empresa

Falta de dinheiro em circulação e de acesso a divisas estrangeiras impedem que abertura econômica de Raúl tenha melhor resultado

Associated Press,

11 de janeiro de 2014 | 21h41

 As fôrmas de pizza estão guardadas, assim como o antigo liquidificador que não funcionava. Ficou para trás o aroma de massa assada que entrava no apartamento de Julio César Hidalgo, em Havana, quando ele e sua noiva tocavam seu pequeno negócio de venda de pizzas.

Dois anos depois de iniciadas as reformas no trabalho autônomo realizadas pelo governo, Hidalgo está falido, desempregado e sujeito a uma possível multa. “Sinto-me frustrado e decepcionado. O negócio não funcionou como eu imaginei”, afirmou.

A Associated Press voltou a procurar nove pequenos empresários entrevistados pela primeira vez em 2011, quando, esperançosos, abriram pequenos comércios após o anúncio do presidente Raúl Castro de que permitiria a livre iniciativa até certo nível.

Das seis iniciativas que dependiam da clientela cubana, quatro fracassaram e seus proprietários estão em situação pior do que quando iniciaram o negócio. As três direcionadas para estrangeiros ou cubanos empregados em empresas de fora do país, continuam abertas e algumas até prosperaram.

Embora seja uma amostra pequena, o resultado é o que muitos especialistas econômicos sobre Cuba observaram desde o começo: com um salário médio de US$ 20 mensais, não há no país dinheiro suficiente para manter um setor privado.

“Evidentemente existe um ambiente macroeconômico que não favorece e não beneficia a expansão da demanda que é necessária para o setor privado”, afirmou Pavel Vidal, ex-economista do Banco Central de Cuba.

Depois do entusiasmo inicial, o número de cubanos com empresas próprias estagnou nos últimos dois anos em cerca de 444 mil – 9% da mão de obra.

“Não existe dinheiro suficiente em circulação na economia nas mãos das pessoas comuns”, diz Ted Henken, professor de estudos latino-americanos no Baruch College de Nova York.

Alguns economistas têm criticado o governo cubano pela proibição de atividades consideradas ilegais, como cinemas 3D em salas privadas, por impor tarifas sobre importações de produtos trazidos na bagagem de viajantes ou proibir a venda de roupa importada.

“Não ignoramos que aqueles que nos pressionam para acelerarmos o passo, nos empurram para o fracasso”, afirmou, em dezembro, Raúl Castro.

Ted Henken e Pavel Vidal afirmam que Cuba deve encontrar alguma maneira de melhorar os salários dos funcionários públicos, ampliar o microcrédito e criar um mercado atacadista viável que possa suprir as novas empresas. 

Contudo, nem todo empresário novo está em dificuldades. Bares modernos e restaurantes atraentes proliferaram em Havana, onde os turistas degustam desde lagosta até filé mignon a US$ 20 o prato. Um estrangeiro pode se hospedar numa casa particular pagando entre US$ 25 e US$ 100 por noite, menos do que na maior parte dos hotéis. 

Javier Acosta, chef e proprietário, investiu mais de US$ 30 mil no Parthenon, restaurante direcionado para turistas e diplomatas. No começo as coisas não correram tão bem, mas agora está expandindo seu estabelecimento e começou a investir em publicidade, pagando US$ 300 por ano pelos anúncios em uma revista de turismo.

“Ainda não recuperamos o que investimos aqui. Talvez daqui a dois ou três anos”, diz o empresário, de 40 anos. 

Estabelecimentos mais humildes também podem prosperar. Uma mulher que aluga quartos para estrangeiros por US$ 25 a noite na região de Vedado diz que a atividade fornece uma renda estável, que lhe permite não só se manter, mas também ajudar seu filho e sua neta.

Duas mulheres que vendem comida no almoço por US$ 1,25 na parte mais antiga de Havana, onde estão escritórios de empresas internacional e os consulados, continuam seu negócio. “Ficou difícil. Mas seguimos em frente porque sempre entra algum dinheiro”, diz Odalis Lozano, de 48 anos.

Para quem não tem acesso a divisas, os resultados foram sombrios. Além da pizzaria, também faliram o vendedor de DVDs, a costureira e o proprietário de um café. Somente duas empresas orientadas para uma clientela cubana prosperaram e ambas são academias. 

No caso de Hidalgo, contudo, sua experiência com a empresa privada foi amarga. Perdeu entre US$ 800 e US$ 1 mil e está recorrendo de uma multa de US$ 520 imposta pelo governo.

Recentemente a noiva de Hidalgo, Gisselle de Noval, de 25 anos, conseguiu uma licença para trabalhar como manicure no espaço em que antes funcionava a pizzaria. “Não sinto falta da pizzaria. Lamento que não tenha tido sucesso, mas agora estou dedicada a isso e espero continuar.”

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