Cubanos questionam reforma econômica

Regime cobrará em setembro taxa sobre importações informais para setor privado

VICTORIA BURNETT, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2012 | 03h08

Quase dois anos após o início da reforma econômica que pretendia reduzir a folha de pagamentos do funcionalismo público e promover a iniciativa privada, as mudanças desaceleraram tanto que empreendedores e intelectuais de Cuba questionam a capacidade - ou a disposição - dos velhos líderes do país de reformular um dos últimos sistemas comunistas do mundo e transferir quase metade da produção da ilha para mãos particulares.

"Aqueles que esperam medidas para criar mais oportunidades para a iniciativa privada receberam o oposto semana passada, com a notícia de cobrança de altas tarifas sobre as importações informais, vindas de Miami e outros lugares, que constituem o sangue que anima muitas jovens empresas", disse o presidente do Havana Consulting Group de Miami, Emilio Morales, segundo o qual as lojas estatais estariam perdendo fregueses para vendedores de rua. "O Estado não está pronto para concorrer com o setor privado."

Depois que o governo cubano começou a permitir que as pessoas abrissem negócios, no fim de 2010, quase 250 mil delas optaram por trabalhar por conta própria, abrindo restaurantes, lanchonetes e lojas improvisadas, dirigindo táxis e consertando celulares. No total, 387 mil dos 11 milhões de cubanos são agora autônomos e estão também comprando e vendendo lares e carros pela primeira vez em 50 anos.

O crescimento do setor privado foi acompanhado por artigos levados em massa a Cuba em malas e mochilas, vindos especialmente de Panamá, Equador, EUA e Espanha. Sem acesso ao mercado atacadista, os cubanos usam amigos, parentes e as chamadas mulas conseguir desde alimentos e quinquilharias até iPhones. Esse comércio paralelo chegou a movimentar mais de US$ 1 bilhão por ano, estima Morales, desde que o governo Obama começou a relaxar as restrições às viagens e às remessas de dinheiro em 2009.

A vendedora Yunilka Barrios, que oferece óculos de sol, faixas para o cabelo, esmalte e elásticos com glitter para sutiãs diante de uma porta suja e estreita, ficou alarmada com a perspectiva de um imposto às importações informais que passará a vigorar em setembro - quem chegar à ilha mais de uma vez por ano com produtos importados terá de pagar US$ 10 por quilo. Por enquanto, Yunilka está satisfeita, lucrando entre US$ 10 e US$ 15 num bom dia, depois de pagar US$ 2 ao vizinho com quem compartilha a entrada.

Economistas, empresários e diplomatas acreditam que o presidente Raúl Castro é cauteloso em razão da resistência de funcionários de escalão médio, que relutam em perder alguns privilégios, e de outros preocupados com os impactos políticos e sociais da ampliação dos direitos econômicos.

O ritmo das mudanças tem sido lento demais para pessoas como Yelena López de la Paz, que faliu em consequência da concorrência, falta de experiência e baixa margem de lucro. Ela abriu uma lanchonete há um ano, obtendo no primeiro mês lucro de US$ 100 vendendo pizzas, sucos feitos com as mangas cultivadas pela mãe e chicletes enviados pela avó, de Miami. Três lanchonetes foram abertas na mesma região e, ao fechar seu estabelecimento, em novembro, Yelena ganhava 1 US$ por dia.

A promessa do governo em abril de transferir aproximadamente 40% da produção do país para o setor não estatal em 5 anos parece difícil de ser cumprida. Atualmente, o setor responde por 5% do PIB. O governo pretende cortar 170 mil funcionários da folha pública de pagamentos e acrescentar 240 mil vagas no setor privado, meta também considerada difícil, já que somente 24 mil cubanos solicitaram licenças de autonomia nos primeiros cinco meses do ano.

Mercado negro. Em entrevistas, 12 empreendedores cubanos disseram estar ganhando muito mais do que quando trabalhavam para o governo. Como os artigos das lojas varejistas do governo são caros e pouco confiáveis, recorrem ao mercado negro. O dono de uma lanchonete, que pediu para não ser identificado, disse comprar pão de hambúrguer na porta dos fundos de uma padaria estatal, obtendo a carne com um amigo que surrupiava carne moída do empregador. Um vendedor de ferramentas afirmou que a maior parte das peças vinha de "Roberto", gíria cubana para mercadorias roubadas.

Para a estudante de contabilidade Amarilis Albite Cabezas, 23 anos, que administra uma movimentada lanchonete em seu próprio lar, num subúrbio de Havana, as restrições emanam de uma contínua desconfiança em relação à riqueza individual. Ela desistiu de solicitar um empréstimo bancário para comprar uma geladeira de US$ 700 porque precisaria indicar dois fiadores. "Eles abriram todas essas empresas para que as pessoas pudessem sobreviver, mas também para garantir a sobrevivência do próprio governo", acrescentou. "Mas não acho que ninguém esteja enriquecendo. Isso seria... Não sei, seria o capitalismo."

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