Eva Marie UZCATEGUI / AFP
Eva Marie UZCATEGUI / AFP

Cubanos relatam apagão da internet após protestos: 'Acesso só por VPN'

Muitos cubanos acreditam que estão vivendo um 'apagão cibernético' em razão dos protestos do domingo contra a crise econômica e a falta de vacinas contra a covid-19

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 18h06

“Não há internet nos celulares. Só conseguimos acessar por meio de um serviço de VPN nas casas ou em alguns parques com Wi-Fi e isso não é em todos os lugares. Meus primos na região oriental (do país) não têm internet de jeito nenhum”. O cubano Rafael A.B. Moreno mora em Vedado, região central de Havana, e não é único a ter dificuldades com a comunicação nesta terça-feira, 13. Na verdade, muitos cubanos acreditam que estão vivendo um “apagão” em razão dos protestos do domingo contra o governo de Miguel Diaz-Canel. Na ocasião, cubanos foram às ruas protestar contra a crise econômica e a pandemia. Houve registro de saques e repressão. 

Segundo Doug Madory, diretor de análise de internet na Kentikinc, que monitora o acesso à rede na web, no domingo pela tarde - dia das manifestações que surpreenderam o governo - a conexão de e para Cuba foi interrompida por 30 minutos e na segunda-feira ficou instável durante toda a tarde. 

Em Havana Velha, bairro histórico da capital, a comunicação está mais difícil do que na segunda-feira, mas ainda é possível. “Meu pai conseguiu falar comigo de lá, disse que as ruas ali estavam calmas, sem muita presença militar, mas que não conseguia saber o que estava ocorrendo em outras partes do país”, diz Salomé García Bacallao, cubana que vive há três anos na Espanha. 

Fontes próximas ao governo cubano afirmam que a ilha sofre com problemas de corte de energia e não realiza bloqueios ao serviço de internet. 

“O governo vai tentar controlar redes sociais, pode ser uma tática para conter as manifestações, afinal o provedor é estatal, mas é um tiro pela culatra, afinal é possível usar um provedor por satélite ou superpotente dentro de sua casa”, explica o coordenador de Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP), Moisés Marques. 

Resposta online do governo

Ao mesmo tempo em que a internet é considerada uma ameaça ao governo por permitir que convocações de protestos se espalhem rapidamente pela ilha, as redes sociais têm sido usadas pelo governo cubano para divulgar o que está ocorrendo e como está contornando a atual crise. “A Revolução Cubana não vai dar a outra face a quem lhe ataca nos espaços virtuais e reais. Evitaremos a violência revolucionária, mas vamos reprimir a violência contra-revolucionária. Quem ataca os agentes da ordem, ataca o país”, escreveu o presidente Miguel Díaz-Canel em sua página no Twitter na segunda-feira. Nesta terça, ainda não foram feitas postagens.

Segundo Rafael Moreno, engenheiro eletrônico, os cortes de internet na ilha desde domingo não são apenas ocasionais. “Para eles, o consumo de internet é um negócio. A internet pode falhar, mas não em quase toda a ilha e por mais de 24 horas. A Etecsa, que é responsável pelo serviço de internet aqui, não fala nada.”

Se em 2015, acessar a internet em Havana ainda era uma coisa difícil, que dependia da compra de um cartão da Etecsa, após enfrentar longas filas, atualmente a situação é outra. A maioria dos jovens na capital tem celular e acessa o serviço em praças com Wi-Fi ou mesmo por meio de VPN.

“Em Cuba estamos cada vez menos conectados. Pouco a pouco, a Segurança do Estado foi detectando nossas VPN e, assim, estamos perdendo a chance de transmitir a verdade sobre o que está acontecendo aqui. Hoje, o fluxo de informações pelas redes é muito menor do que foi ontem (segunda)”, escreveu uma cubana que mora em Havana em sua página do Facebook.

Para Marques, é impossível dizer agora qual será a extensão dos protestos e seu resultado político, mas o acesso a redes sociais é inevitável. “Existe uma geração jovem com acesso à internet, muitos andam com celular, têm acesso ao conteúdo de blogueiros, não é à toa que a música que faz sucesso hoje é de gente com conexão em Miami. Agora, esses jovens têm acesso a tudo isso, mas não tem como escoar”, afirma.

Segurança nas ruas

Com a impossibilidade de confirmar as informações, fica difícil comprovar como está a situação nas ruas nesta terça-feira. Cubanos afirmam que há policiamento, mas nada fora do comum. “Vivo em uma região central da ilha e o policiamento está normal, mas o que vemos de reforço são policiais vestidos de civis”, diz Moreno. 

Artistas cubanos falam em desaparecimentos de colegas de trabalho desde domingo, mas as informações não são confirmadas. “Falam muito de policiais infiltrados nas manifestações, vestidos de civis. Mas não temos como saber o que é verdade nesse momento”, diz o professor Marques.

O governo cubano afirma que o policiamento que está nas ruas tem a intenção de proteger os cidadãos e prevenir a destruição de estabelecimentos. 

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