Efe e Afp, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2010 | 00h00

Ex-presos políticos cubanos, soltos como parte de um acordo entre a Igreja, Espanha e Cuba, divulgaram ontem um comunicado, em Madri, no qual pedem que a União Europeia (UE) não flexibilize sua posição a respeito do regime dos Castros. Um dos libertados, Julio César Gálvez, disse se sentir "enganado" pelo governo espanhol e reclamou da falta de assistência.

As queixas e o comunicado complicam os esforços da Espanha para que a UE reveja a política de posição comum para Cuba, que desde 1996 condiciona a aproximação com a ilha à abertura e mudanças no regime comunista. Madri defende que a aproximação incondicional é a melhor forma de obter reformas em Cuba e pretendia usar as libertações como uma prova de que a ilha está disposta a mudar.

"O governo cubano não deu passos que evidenciem uma clara decisão de avançar na democracia. As libertações não devem ser consideradas um gesto de boa vontade, mas uma ação desesperada do regime na busca urgente de créditos de todo tipo", diz a carta assinada por 10 dos 11 dissidentes libertados, e lida por Ricardo González, que contraria a versão de Madri.

Segundo Gálvez, os ex-presos políticos deixaram de receber assessoria legal das autoridades espanholas e continuam a não ter claro seu futuro. Os dissidentes foram alojados com suas famílias no Hotel Welcome, em uma zona industrial de Madri, que oferece quartos a partir de 13,90. O grupo é formado por 70 pessoas. "Firmamos diante de um funcionário da Embaixada da Espanha em Havana alguns compromissos", disse Gálvez. "A assessoria legal foi a primeira que deixamos de receber."

O chanceler espanhol, Miguel Ángel Moratinos, pediu compreensão aos ex-presos políticos. "Não peço gratidão, mas um pouco de compreensão por parte dos que receberam o compromisso deste governo e da sociedade espanhola de ajudá-los nessa nova etapa", disse Moratinos.

Segundo o governo espanhol, mais oito presos políticos deveriam tomar o avião para Madri ainda ontem com suas famílias. Entre os dissidentes soltos ontem pelo menos um deles irá para o Chile depois de chegar a Madri. Na Espanha, há alguns ex-presos que querem se mudar para os EUA, onde têm parentes. Em Havana, autoridades americanas reuniram-se com parentes dos presos que ainda não decidiram se querem se exilar e com os que pretendem ficar na ilha.

Três organizações sociais estão se encarregando do alojamento e busca de trabalho dos dissidentes até que sua situação legal seja resolvida na Espanha. A princípio, o governo espanhol havia prometido conceder aos dissidentes permissão de trabalho e residência, mas não status de refugiados.

Os 11 ex-presos políticos exilados fazem parte de um grupo de 52 dissidentes que o presidente cubano, Raúl Castro, se comprometeu a libertar até outubro em um encontro com Moratinos e com o cardeal de Havana, Jaime Ortega. Eles foram presos em 2003, na chamada Primavera Negra, juntamente com outros 23 dissidentes já soltos por motivos de saúde.

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