Cubanos temem que abertura na economia aumente criminalidade

Cubanos temem que abertura na economia aumente criminalidade

Moradores de um dos países mais seguros da América Latina, creem que mudança na relação com EUA afetará sua tranquilidade

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL / HAVANA, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2014 | 02h03

Aos 65 anos, a professora de matemática Lizette Sobrino, moradora de Havana, não conhece uma só pessoa que tenha sido assaltada, muito menos assassinada. Se precisa sair de casa de madrugada, não toma precaução. Desde o anúncio de que EUA e Cuba retomarão relações diplomáticas, na quarta-feira, ela e milhões de cubanos estão preocupados em perder o que citam com orgulho entre inúmeras privações, a segurança.

"Em 48 anos de magistério, nunca vi droga. Não sei a que se parece", diz Lizette. Ontem, ela demonstrava espanto com o caso de um policial que matou um menino que tinha uma arma de brinquedo "em um país qualquer". "Não entendemos como isso ocorre em outros lugares. As pessoas perderam o cérebro. Tenho muito medo que acabe a nossa tranquilidade e comece aqui o que só conhecemos na TV", diz.

Dados gerais sobre criminalidade urbana em Cuba são segredo de Estado. Mas o indicador mais usado, o de homicídios, é um exemplo de que o país é seguro. Segundo relatório do Escritório da ONU sobre Drogas e Crimes de 2013. Cuba tem 4,2 homicídios por 100 mil habitantes. É o segundo mais seguro da América Latina depois do Chile (3,1) e antes da Argentina (5,5). O Brasil tem 25,2.

Praticamente sem crimes contra a vida para combater, a polícia se ocupa de reprimir pequenos furtos e o assédio a turistas dos chamados "jineteros", que aplicam pequenos golpes. Um dos mais comuns é levar quem busca charutos a lojas clandestinas em cortiços. Em uma promoção que invariavelmente está "no último dia", uma caixa da marca Cohiba com 25 unidades é vendida por US$ 40, enquanto nas lojas estatais chega a custar US$ 300. O governo alega que são falsos e os vendedores dizem que são desviados das fábricas com aval dos administradores.

O jinetero Esteban Rodríguez, de 38 anos, está animado com o provável aumento de turistas americanos - um dos itens anunciados pelo presidente Barack Obama. Embora a Flórida fique a 250 quilômetros de Cuba, os americanos se acostumaram a fazer triangulações em outros países para visitar a ilha, sob ameaça de multa na volta. "Ou faço isso para trazer algum dinheiro para casa, ou não como", justifica-se Rodríguez. Para cada caixa vendida, ele ganha uma cesta básica de comissão. Mesmo quem trabalha à margem da lei, como ele, celebra a baixa criminalidade. "Nunca fui assaltado e não conheço quem tenha sido. Minha mulher anda à noite por qualquer lugar e não me preocupo", afirma.

Para a dissidência, o aumento da criminalidade é uma tendência, mas não pela abertura em curso. "A pobreza está aumentando e isso eleva a criminalidade. A causa é o fracasso do modelo totalitário de governo. A pobreza não vai diminuir com a entrada de mais capital no país, pois esse dinheiro vai para o regime. A tendência, pelo contrário, é que aumente a desigualdade e isso agrave a violência", opina Elizardo Sánchez, presidente da Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional e favorável à reaproximação com os EUA.

Além de policiais uniformizados, as ruas de Havana têm segurança invisível. Em cada quadra há um Comitê de Defesa da Revolução (CDR), onde os problemas da região são debatidos e levados ao regime. Nos anos 90, quando o narcotráfico tentou entrar na ilha, informantes dos CDR o inibiram. Hoje, eles são uma versão das câmeras de segurança.

Miguel Doris, de 63 anos, instalou uma em frente à casa em que nasceu e na qual aluga quartos em Havana Vieja, centro histórico. Comprou o equipamento na única viagem ao exterior, feita ao Equador em agosto. "Ninguém vai roubar minha casa, mas dá uma tranquilidade maior aos turistas", explica.

A aposentada María Gutiérrez, de 61 anos, vizinha de Lizette, fala de outras razões para a baixa criminalidade. "É difícil haver um roubo porque o porte de arma é proibido. Além disso, o crime é limitado pelo fato geográfico, estamos numa ilha. Se alguém rouba algo em Havana e foge para Santiago, sabe que cairá no mar se seguir fugindo."

Mais conteúdo sobre:
Cuba Raúl Castro EUA Barack Obama

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.