Cuidado, política explodindo

O que fascina em Trump é que ele está implodindo seu partido com uma proposta totalmente nova de hibridismo político

Thomas L. Friedman, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2016 | 09h04

Quando as Forças Armadas dos EUA treinam pilotos de caça, usam um conceito chamado OODA loop. A sigla significa observar, orientar, decidir, agir. A ideia é que se você, num combate aéreo a 10 mil metros, observar, orientar, decidir e agir mais depressa que o outro piloto, derrubará o avião dele.

Se o OODA loop do adversário for mais rápido que o seu, quem cai é você. No momento, parece que o OODA loop dos EUA está rateando – e isso não poderia ocorrer em pior hora.

Nosso OODA loop falha exatamente quando as três maiores forças do planeta – tecnologia, globalização e mudanças climáticas – estão em aceleração não linear simultânea.

As mudanças climáticas se intensificam. A tecnologia deixa tudo mais rápido e amplifica cada voz. E a globalização vem fazendo o mundo mais interdependente que nunca, o que nos leva a sofrer mais que nunca os impactos provocados pelos outros.

Essas acelerações elevam de grau todos os requisitos para o sonho americano. Aumentam as exigências para formação e competência que conduzem aos bons empregos. Elevam o padrão de governança e a velocidade com que os governos precisam tomar decisões. Tornam mais necessárias soluções híbridas que produzam tanto redes de segurança mais fortes quanto mais empreendedorismo para aumentar a oferta de boas colocações. Elevam ainda os critérios de liderança, com dirigentes capazes de enfrentar a nova complexidade e criar um país mais flexível.

Meu ponto de vista é que essas três acelerações começaram sacudindo países fracos – do Oriente Médio e África – e avançam para atingir a política dos fortes. Pode-se ver isso nos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Europa. Os desafios trazidos por elas, e o que será necessário para produzir cidadãos e comunidades mais adaptáveis, vêm cobrando uma política que é mais um híbrido de esquerda e direita.

É o tipo de política já praticada em bem-sucedidas comunidades e cidades americanas – lugares como Minneapolis; Austin, Texas; Louisville, Kentucky; Chattanooga, Tennessee; e Portland, Oregon – onde a comunidade de negócios, educadores e governos locais formam coalizões para encontrar soluções híbridas que melhorem a competitividade e capacidade de adaptação. Mas não chegaremos lá em nível nacional com um dos nossos dois maiores partidos enlouquecendo e a paralisia rondando a política.

Sem concessões. O Partido Republicano caiu nas garras de uma coalizão de mídia de extrema direita e gente rica que incentiva o mau comportamento e não faz concessões ao hibridismo: nega as mudanças climáticas, despreza a reforma da imigração, paralisa o Congresso, bloqueia o Obamacare (mesmo que este se baseie numa ideia inicialmente implementada por um governador republicano).

Siga essa linha e será recompensado pela Fox TV e com o dinheiro da máquina republicana. Afaste-se dela e será expurgado.

O expurgo eventualmente produziu uma coleção de candidatos presidenciais republicanos que, ao se reunirem no palco para o primeiro debate, lembravam nada menos que a cena de bar de Guerra nas Estrelas, na cantina Mos Eisley, no remoto planeta de Tatooine – um conjunto de alienígenas cada um mais bizarro que outro, de uma “galáxia muito, muito distante”.

Ao mesmo tempo, em nível nacional, como assinala o cientista político Gidi Grinstein, devido ao modo como os distritos congressionais são influenciados pelos dois partidos para produzir tanto democratas mais liberais quanto republicanos mais conservadores, mudamos para um sistema que incentiva nacionalmente polarizações e impede soluções híbridas.

Os Estados Unidos, argumenta Grinstein, estão se tornando “polarizados estruturalmente em nível nacional e, consequentemente, coletivamente estúpidos”.

Temos grandes problemas que o Congresso precisa resolver pela via política e, em caso de falha, sairemos machucados: como equilibrar privacidade e segurança?

Como expandir o livre comércio protegendo ao mesmo tempo nossos trabalhadores dos efeitos? Como fazer os acertos no Obamacare de modo a torná-lo mais sustentável? São coisas que vão exigir compromissos híbridos, não dogmatismo.

O cara que realmente entende isso é o presidente Barack Obama. Ele nunca foi forte em empreendedorismo como gostaríamos, mas também não é o esquerdista radical que o Partido Republicano inventou.

Seu instinto tornou-se híbrido – para apoiar ao mesmo tempo o livre comércio e a imigração; para implementar um núcleo comum elevando o padrão da educação; para proporcionar atendimento de saúde permitindo mais mobilidade aos trabalhadores; para aumentar o financiamento de modo a que mais estudantes possam fazer faculdade; para investir em tecnologia limpa; para fazer mudanças nos impostos, diminuindo a desigualdade de renda – tudo para tornar o país mais flexível. Poderíamos ter feito muito mais sob sua presidência.

O que fascina em Donald Trump é que ele está implodindo o Partido Republicano com uma proposta totalmente nova de hibridismo político. Sob esse aspecto, é pioneiro – socialmente liberal em algumas coisas, isolacionista em outras. Trump é quase democrata na abordagem da previdência social; ao mesmo tempo, é anti-imigração, preconceituoso e alarmista.

E é positivamente irresponsável em suas propostas orçamentárias. Seu hibridismo é uma mistura incoerente, pensado mais para atrair as bases republicanas que para governar. No entanto, se Trump usá-lo para explodir seu Partido Republicano e abrir caminho a uma versão nova, madura, de centro-direita híbrida, terá feito o trabalho de Deus.

Mas Deus, por favor, deixe-o longe da Casa Branca. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

THOMAS L. FRIEDMAN É COLUNISTA

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