EFE/ORLANDO BARRIA
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Cultivo de coca volta a crescer na Colômbia

Fim da pulverização de plantações com herbicida resulta em aumento da produção

Mick Miroff, THE WASHINGTON POST

12 de novembro de 2015 | 02h00

TIERRADENTRO, COLÔMBIA - Apenas dois anos depois de deixar de ser a maior produtora mundial, ficando atrás dos peruanos, a Colômbia agora produz mais coca ilegal do que Peru e Bolívia, que está em terceiro, juntos. Em 2014, o último ano para o qual existem estatísticas, os colombianos plantaram 44% mais coca do que em 2013 e, segundo os agentes de combate à droga dos EUA, a safra deste ano provavelmente será ainda maior.

O aumento ocorre num momento particularmente sensível para o governo colombiano, que está nas fases finais das negociações de paz com os rebeldes das Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia (Farc), que lucraram durante muito tempo com o comércio ilegal da droga. No mês passado, o governo decidiu proibir a pulverização aérea das plantações, alegando sua preocupação com a possibilidade de os herbicidas usados causarem câncer. Este programa foi um dos elementos mais importantes do Plano Colômbia, no qual os EUA forneceram ao governo colombiano mais de US$ 9 bilhões desde 2000.

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, um aliado fundamental dos EUA, disse que seu governo está disposto a empreender uma maciça campanha de substituição de culturas se for concluído um acordo com as Farc e as áreas sob controle dos rebeldes se tornarem suficientemente seguras para os trabalhadores. 

Os guerrilheiros e o governo já concordaram em princípio com um novo plano de desenvolvimento na zona rural empobrecida da Colômbia, e as Farc prometeram ajudar a convencer os produtores a remover a coca e substituí-la por produtos que não infringem a lei. Para as autoridades americanas e colombianas, a principal razão da atual colheita recorde é o fato de as Farc, juntamente com outros grupos armados, encorajarem os produtores a plantar mais coca antecipando-se ao acordo de paz e à nova ajuda do governo.

Numa entrevista ao Washington Post, Santos disse que o seu governo buscará o apoio dos EUA para um grande programa de substituição de culturas. Com a saída das Farc, esse programa poderá ter sucesso onde as iniciativas passadas fracassaram. “Temos uma oportunidade de ouro”, disse Santos. “Mas se não oferecermos aos produtores uma alternativa, eles continuarão plantando coca.”

Nos últimos dez anos, o consumo de cocaína caiu nos EUA enquanto o de metanfetaminas e heroína subiu vertiginosamente. Mas o excesso de produtos baratos poderá provocar uma nova corrida à droga. Também poderá desencadear novos ciclos de violência nas rotas do tráfico, até a América Central e o México.

As Farc, cujos grupos guerrilheiros inicialmente “taxavam” a produção de coca dos produtores rurais e passaram a dominar o tráfico nas áreas controladas por eles, com a conclusão de um acordo de paz, prometeram deixar o comércio da droga. Por outro lado, outros grupos armados da Colômbia - como o ELN (Exército de Libertação Nacional), as gangues paramilitares e os bandos que atuam na zona rural - tratarão de se fortalecer no negócio.

A pulverização aérea financiada pelos EUA teve um papel importante na redução da cultura da coca no país, de estimados de 161 mil hectares, em 2000, para menos de 48.500 hectares, em 2012. Entretanto, a tática provocou grande revolta nas comunidades rurais, por reduzir os lucros para os produtores que se viram obrigados a mudar suas culturas para parques nacionais, reservas indígenas, áreas de fronteira outros locais onde a pulverização não poderia penetrar.

Dois terços dos cerca de 69 mil hectares de campos de coca agora se encontram nestas áreas, diz o governo.

Segundo Jorgan Andrews, diretor da Seção Internacional de Assuntos Antinarcóticos do Departamento de Estado da embaixada americana de Bogotá, o aumento da produção de coca aparentemente é uma decorrência das conversações de paz com as Farc e das expectativas criadas pelo programa de substituição que poderá ser implementado a seguir.

“Os programas do governo serão aplicados em áreas onde há coca, portanto, segundo uma interpretação, os que plantarem mais coca receberão mais benefícios do governo’, ele disse. “E se o processo de paz com as Farc fracassar, eles já disporão de um volume maior de coca.”

Andrews acrescentou que a produção de coca da Colômbia em 2015 deverá aumentar. Grande parte da coca plantada no ano passado amadureceu, “portanto, vocês verão um enorme pico da produção de cocaína quando estas plantas passarem a produzir normalmente”.

Arrancadas da planta, as folhas de coca são mergulhadas em solventes como o querosene, para provocar a lixiviação natural dos alcaloides, depois elas são processadas com ácido sulfúrico, amônia e outras substâncias químicas para fabricar a pasta de coca e, no final, o pó branco.

Como as plantas maduras produzem mais folhas usadas para fazer hidrocloreto de cocaína, a versão da droga comprada na rua, segundo as projeções, se traduzirá num aumento de 52% para este ano de cocaína, de acordo com estimativas americanas.

Cerca de um milhão dos 50 milhões de colombianos estão ligados ao negócio da coca direta ou indiretamente, segundo estimativas.

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