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Culto a Fidel, algo que ele tanto recusou, se tornou inevitável em Cuba

Paradoxalmente, imagem dos tempos de Cuba ainda sob o comando de Fidel Castro é um dos fatores que mais atrai os turistas hoje em dia; líder da Revolução Cubana de 1959 completa 90 anos neste sábado, 13

O Estado de S. Paulo

12 Agosto 2016 | 18h23

HAVANA - Foi uma de suas primeiras proibições após o triunfo da Revolução Cubana: não haveria estátuas, nem ruas, com o seu nome. Hoje, prestes a completar 90 anos, Fidel Castro, já fora do poder, é, paradoxalmente, a imagem da Cuba rebelde que atrai o turismo. Apenas outro ícone da gestão revolucionária, Ernesto "Che" Guevara, executado há 48 anos na Bolívia, compete com a imagem do comandante.

Aposentado há 10 anos, Fidel Castro é praticamente inacessível. Só recebe visitas esporádicas de personalidades em sua casa em Havana - que poucos conseguem localizar - e ainda mais escassas são suas aparições públicas ou fotos tiradas recentemente.

Uma presença discreta que contrasta com as cinco décadas em que esteve à frente da ilha socialista, exercendo uma liderança onipresente antes de ficar doente e ceder o poder a seu irmão Raúl Castro. 

Gerações de cubanos cresceram com a imagem e presença próxima de Fidel, o mesmo que pregou sua rejeição ao "culto à personalidade". "Sou hostil com tudo o que possa parecer um culto a pessoas e não há uma só escola, fábrica, hospital ou edifício que leve meu nome. Não há estátuas, nem praticamente retratos meus", disse Fidel ao jornalista francês Ignacio Ramonet em um livro de conversas publicado em 2006.

Mas o líder da revolução não pôde evitar que sua imagem lhe escapasse das mãos. "Fidel é um paradigma que sempre continuará vivo para todos os cubanos", assinala sem dramatização Celia Gómez, uma psicóloga de 27 anos.

Gómez falou na praça da revolução de Sancti Spíritus, 350km ao leste de Havana, diante de um cartaz com três fotos do comandante: o jovem impetuoso, o estadista sereno de meia-idade e o idoso.

Em Cuba há um Fidel para todos. Inclusive nas semanas que antecedem o seu aniversário de 90 anos, os meios tradicionais da ilha, sob o poder do Estado, estimulam a campanha "Fidel entre nós", uma mostra de artigos, fotos, documentários e entrevistas relacionadas ao ex-presidente.

O aniversário serviu até para que uma universidade da província de Santa Clara anunciasse, em 17 de julho, o lançamento de um aplicativo com o mesmo lema com dados biográficos, frases e anedotas, apesar do estrito acesso à internet na ilha.

Após Fidel. Em Cuba existem 285 museus, e nenhum deles é dedicado a Fidel Castro, mas sua presença está em dezenas deles. No museu da revolução, em Havana, pode-se ver algo semelhante a um busto do nonagenário líder: uma pequena escultura que o mostra junto a "Che" e Camilo Cienfuegos, o outro herói da revolução de 1959 que morreu nesse mesmo ano em um acidente de avião.

Nos museus também é possível explorar passagens de sua vida em sua casa em Birán, na província de Holguín; no antigo quartel Moncada, em Santiago de Cuba, no apartamento de O e 25, em Havana, onde preparou o frustrado ataque contra o destacamento militar.

No museu de Praia Girón, mantém-se armas, uniformes e fotos da invasão da Baía dos Porcos, onde Fidel Castro derrotou pouco mais de um milhão de exilados cubanos armados pelos Estados Unidos, que invadiram a ilha em 1961.

Com o desfecho diplomático entre Havana e Washington, em 2015, a história da revolução - indissociável da de Fidel - interessa aos americanos que visitam Cuba. "Por muitos anos nós ouvimos sobre Cuba e a Revolução e queríamos ver com nossos próprios olhos como era a realidade", disse a professora aposentada americana, Jacqueline Rubio, de 72 anos.

Rubio foi uma das quase 2 mil visitantes que conheceu o complexo diário de Ernesto "Che" Guevara em Santa Clara, centro da ilha. No primeiro semestre 185.853 estrangeiros, incluindo 9.835 americanos, visitaram o local onde estão os restos do companheiro de Fidel, segundo a diretora do local, Maira Romero. Os números representam um aumento de 100.000 visitantes estrangeiros em relação ao mesmo período de 2015.

Em sua primeira viagem a Cuba, Diego Ceboy, de 32 anos, e Lobrien González, de 31 anos, um casal de engenheiros espanhóis da Galícia, fizeram uma turnê pelos pontos emblemáticos da Revolução: Havana, Cienfuegos, Trinidad e Santa Clara. / AFP

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