Suk Young Kim/Arquivo pessoal
Suk Young Kim/Arquivo pessoal

'Cultura do k-pop é muito participativa e fãs sabem que têm poder', diz pesquisadora

Para a diretora do Centro de Estudos de Performance da UCLA, Suk-Young Kim, comunidade corporifica uma grande dimensão de ativismo social

Entrevista com

Suk-Young Kim

Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2020 | 04h30

O envolvimento de fãs de k-pop em recentes eventos políticos nos EUA não deveria ser uma surpresa – é o que acredita a professora de Estudos Críticos e Diretora do Centro de Estudos de Performance da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), Suk-Young Kim. Em entrevista ao Estadão, a autora do livro K-pop Live: Fans, Idols, and Multimedia Performance (K-pop Ao Vivo: Fãs, Ídolos e Performance Multimídia, Stanford University Press, sem tradução no Brasil) afirmou que a comunidade reunida em torno do gênero musical é consciente e se preocupa em gerar impacto social. “Há uma grande dimensão de ativismo corporificada na base de fãs do k-pop”, disse. 

Embora muitos fãs estejam orgulhosos de ações como o esvaziamento do comício de Trump, a sabotagem de hashtags de extrema-direita e a derrubada de um aplicativo de vigilância da polícia de Dallas, Suk-Young afirma que há uma espécie de sentimentos mistos em relação ao envolvimento político. “Alguns estão preocupados porque não querem ser relacionados à política americana e sofrer algum tipo de represália, até por toda essa ameaça de banimentos de aplicativos como o TikTok que Trump anda fazendo”, explica. 

Confira a entrevista completa: 

O que se sabe sobre os fãs de k-pop, na Internet e fora dela, em termos demográficos?

É um pouco difícil de saber, mas existem algumas formas de se ter uma ideia. Se você analisar visualizações do YouTube, é possível saber onde estão os espectadores. Antes do BTS, a grande maioria deles estava localizada na Ásia, especialmente no Japão e no sudeste asiático, e a atividade online ainda era restrita na China, mas fãs chineses existiam. Com a ascensão de grupos como o BTS, os padrões se tornaram mais diversos ao redor do mundo. De repente, havia muitos fãs na América do Sul, no México, na África, na Austrália, na América do Norte...em resumo, hoje o k-pop está realmente em todos os lugares, ele é global.

É possível determinar o momento em que o k-pop ‘dominou’ a internet e as mídias sociais no Ocidente?

Se olharmos apenas para a internet, eu acredito que isso tenha acontecido entre os anos de 2011 e 2012. Em 2012, houve uma grande expansão de visualizações no YouTube, principalmente por causa de Gangnam Style, do Psy, que alcançou uma popularidade global (o vídeo se tornou o primeiro a ultrapassar 1 bilhão de visualizações no Youtube) – embora eu não concorde que Psy é k-pop, o que ele faz naquele vídeo é uma paródia do k-pop. Por causa do interesse nele, as pessoas estavam olhando mais para a música coreana, então eu acredito que foi nesse momento que ela se tornou global. Em termos de shows ao vivo, isso aconteceu mais ou menos na mesma época. Em 2011, a Super Junior fez sua primeira tour mundial, com ingressos esgotados, e acho que foi a primeira vez que uma banda de k-pop se apresentou fora da Ásia.

A forma como os fãs de k-pop consomem conteúdo na internet é muito diferente se comparada a outros grupos de fãs?

Sim. Muito. Os fãs de k-pop, mesmo antes de bagunçar com o comício do Trump em Tulsa, reservando tickets e não aparecendo, já usavam as mídias sociais para participar e moldar as carreiras dos seus ídolos, comprando, dando streamings...porque a indústria do k-pop é desenhada de um modo que os ídolos não podem fazer sucesso, nem crescer, se não houver participação dos fãs. Quando  os grupos lançam novos álbuns, os fãs se mobilizam para gerar os conteúdos mais retuítados, e quando os músicos lançam um novo clipe, os fãs estão constantemente dando streamings. Eles assistem sem parar para inflar as estatísticas, de modo que as músicas consigam entrar nas paradas musicais. Então é como se fosse uma organização política ou religiosa em que eles estão completamente mobilizados para dar apoio aos seus ídolos. Eles realmente enxergam isso como uma cultura participativa e sabem que têm poder, então é bem diferente de, por exemplo, fãs de Taylor Swift usando as mídias sociais. Porque os fãs de k-pop sabem que o destino dos seus ídolos literalmente depende deles.

Então essa mobilização online não te surpreendeu?

Não, de jeito nenhum. Honestamente, me deixou orgulhosa. Geralmente o k-pop é "varrido para lá" como esse tipo de música de entretenimento boba e adolescente. Norte-americanos realmente têm uma resistência em relação ao gênero. Eles acham que é um tipo de música fake, que são robôs dançando...mas na verdade há uma grande dimensão de ativismo social corporificada na base de fãs do k-pop. Geralmente, o que eles fazem é realmente pensar sobre o impacto social  que podem gerar. Quando os ídolos fazem shows em uma cidade, por exemplo, geralmente os fãs doam dinheiro para a caridade local. Eles são muito conscientes em relação a gerar bom impacto social, então isso não me surpreende de forma nenhuma. 

Essas mobilizações recentes, como o caso do comício de Trump e a sabotagem do aplicativo da polícia de Dallas, empoderaram politicamente a comunidade de fãs de k-pop?

É interessante. Eu acho que os fãs que participaram estão muito orgulhosos disso. Eu venho seguindo algumas contas no Twitter para ver o que eles realmente dizem sobre. Eu acho que eles estão muito orgulhosos disso porque se veem como parte do movimento Black Lives Matter. E uma coisa notável sobre fãs de k-pop, principalmente nos Estados Unidos, é que muitos são afro-americanos. Porque a influência do k-pop é forte em fãs que pertencem a minorias, em pessoas que sentem que não se encaixam na cultura de Hollywood, na cultura da Billboard, eles se veem como uma extensão do Black Lives Matter e se orgulham disso.

No entanto, alguns fãs de k-pop na Coreia estão preocupados, porque eles não querem ser relacionados à política americana e potencialmente sofrer algum tipo de represália, até por toda essa ameaça de banimentos que Trump anda fazendo, como no caso do TikTok. Então eles se preocupam com esse tipo de reação do governo dos EUA. Mas isso ainda não aconteceu, então...de certa forma, eu acho que há uma espécie de sentimentos mistos em relação a isso.

Qual é a posição dos ídolos e da indústria, nesse sentido?

É uma resposta clara: os ídolos não são encorajados a participar da arena política de forma nenhuma. Eles são treinados para não se envolver em política, porque, da perspectiva das empresas que gerenciam suas carreiras, o objetivo é que eles sejam populares de forma geral, para todos os grupos. Então eles realmente não são encorajados a se envolver ou a falar sobre. Quando eles fazem algo nesse sentido, há sempre alguma espécie de represália. Sim, algumas vezes ídolos voluntária ou involuntariamente acabaram se envolvendo, e o resultado foi uma péssima reação a isso.

Mas o BTS doou US$ 1 milhão para o movimento Black Lives Matter. Foi uma exceção, um caso isolado?

Não foi um caso isolado, mas apareceu na mídia porque eles são muito conhecidos e populares. Não é uma exceção porque outros ídolos doaram para outras causas sociais, como por exemplo quando o Japão sofreu aquele terremoto terrível em 2014. Mas o BTS é realmente um pouco diferente do resto porque eles tendem a ser um pouco mais abertos em relação a algumas visões políticas, como no caso do Black Lives Matter. No discurso que deram na ONU, como embaixadores para a campanha Love Myself (Amar a mim mesmo, em tradução livre), a base é que você devia amar a si mesmo independentemente da sua raça, gênero ou orientação sexual, então eles mencionaram a comunidade de fãs LGBT como parte do que eles apoiam e de quem eles amam. Então nesse sentido, eles caminham por terrenos mais delicados, mas eles fizeram isso de um jeito muito cuidadoso. Eles são tipo mestres em mandar mensagens positivas, em serem um pouco mais politicamente abertos do que outros grupos de k-pop.

Você acredita que essas recentes mobilizações possam de alguma forma afetar o cenário das eleições de novembro, ou as próximas, ou outros eventos políticos no mundo?

Eu acho que elas terão impacto nas eleições na extensão em que você está ‘pregando para o coro’, pregando para a sua base. A base de fãs de k-pop...a maioria dela é formada por minorias, afro-americanos, ao menos nos Estados Unidos. Mas também acho que isso pode alienar uma parte dos fãs porque...quando eu sigo grupos no Twitter e outros aplicativos, ocasionalmente há fãs de k-pop que são republicanos fervorosos e apoiadores de Trump. E eles sentem que o k-pop não deveria estar se envolvendo em política...mas eles são minoria. A maioria dos fãs de k-pop são geração Z, millennials, que estão muito descontentes com o governo atual, então acho que isso terá um impacto na medida em que solidifica uma espécie de base de fãs democratas. Eu não acho que isso vá criar um novo movimento, mas reafirmar e solidificar o que já vem acontecendo na base de fãs.

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