Cúpula africana pressiona Mugabe a negociar com oposição

Líderes africanospressionaram na segunda-feira o presidente do Zimbábue, RobertMugabe, a abrir negociações com a oposição após ter sidoreeleito em uma votação na qual figurou como candidato único eque foi considerada violenta e injusta por observadores docontinente. Mugabe, 84, participou de uma cúpula da União Africana (UA)realizada no Egito pouco depois de ter tomado posse paracumprir um novo mandato presidencial, estendendo suapermanência no poder, ao qual subiu depois de o Zimbábue ter setornado independente da Grã-Bretanha, em 1980. Enquanto Mugabe chegava ao Egito para a reunião,observadores da UA diziam que a eleição de sexta-feira passadanão havia cumprido os padrões mínimos --a UA é o terceiro grupoa condenar a votação. A cúpula parecia ser contrária aos esforços realizados porpaíses do Ocidente junto à Organização das Nações Unidas (ONU)para impor sanções contra o governo de Mugabe. Ao contrário, osafricanos caminhavam rumo a defender negociações capazes decolocar fim à crise naquele arruinado país. A África do Sul pediu que o partido Zanu-PF, de Mugabe, e oMovimento para a Mudança Democrática (MDC), do oposicionistaMorgan Tsvangirai, discutam a criação de um governo detransição. Tsvangirai retirou-se da disputa por causa de ataquesrealizados contra seus simpatizantes. O governo sul-africano é o mediador designado para oZimbábue, mas o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, vemsendo criticado por adotar uma postura leniente demais comMugabe. O comunicado representava a primeira vez em que a África doSul pedia a criação de um governo de coalizão e parecia indicaro rumo a ser seguido nas negociações travadas na UA. Qualquer medida mais rígida deve ser bloqueada devido àsdesavenças existentes dentro do órgão. Os EUA escreveram um projeto de resolução para o Conselhode Segurança da ONU proibindo a venda de armas ao Zimbábue econgelando os bens de Mugabe e de seu círculo mais próximo deassessores. "Vamos pressionar para que a ONU adote medidas duras, mastambém podemos agir de forma unilateral", disse Dana Perino,porta-voz da Casa Branca. No entanto, a África do Sul, a China e a Rússia parecemprontas a bloquear a resolução já que se opõem à adoção dequalquer medida drástica contra Mugabe. A crise política e econômica do Zimbábue arruinou um paísantes próspero, fazendo nascer ali a pior hiperinflação domundo atual e indispondo-o com seus vizinhos, em especial aÁfrica do Sul, para onde fugiram milhões de pessoas até agora. O presidente da Zâmbia, Levy Mwanawasa, maior crítico deMugabe no sul da África, foi levado às pressas para um hospitalegípcio, pouco antes da cúpula, depois de sofrer um derrame. O primeiro-ministro do Quênia, Raila Odinga, outroadversário do líder zimbabuano, pediu a suspensão dele da UAaté que sejam realizadas eleições livres e justas. Mas o presidente queniano, Mwai Kibaki, disse à Reuters quea criação de um governo de coalizão representava a únicasolução possível. Questionado sobre se Mugabe aceitaria um acordo negociadopela cúpula, o presidente da República do Congo, DenisSassou-Nguesso, respondeu: "Vamos convencê-lo a aceitar asolução que adotaremos. A respeito disso não há dúvida." Muitos líderes africanos sempre deram sinais de profundorespeito por Mugabe, um herói da libertação de seu país. Mas aatitude dele nas eleições mais recentes fez nascerem críticassem precedentes dentro da África. Observadores da Comunidade para o Desenvolvimento da ÁfricaAustral (SADC) e do Parlamento Pan-Africano disseram que avotação havia sido prejudicada por atos de violência e que nãorefletia a vontade do povo. Tanto Mugabe quanto Tsvangirai afirmaram estar prontos paranegociar sob os auspícios da UA. No entanto, a questão sobrequem lideraria o governo de unidade nacional continua a ser umobstáculo eventualmente insuperável. (Reportagem adicional de Gordon Bell em Joanesburgo,Cynthia Johnston e Dan Wallis em Sharm el-Sheikh, LouisCharbonneau nas Nações Unidas)

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