REUTERS/Jonathan Ernst
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Cúpula com Kim é teste para Trump, dizem analistas

Assessores temem que presidente faça concessões demais para saber se a estratégia com Coreia do Norte está dando resultado

Beatriz Bulla, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2019 | 05h00

O segundo encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, marcado para terça-feira, no Vietnã, é visto como teste do esforço diplomático e da habilidade de negociação do americano, segundo analistas consultados pelo Estado

Consultores que acompanham as movimentações consideram que a busca por uma desnuclearização da Península Coreana pode acabar prejudicada se Trump ceder além do aconselhado por sua equipe de segurança. O temor é que ele avance o sinal em busca da confirmação de que sua estratégia para obter um acordo de paz tem funcionado.

Trump e Kim tiveram o primeiro e histórico encontro entre líderes dos dois países em junho, em Cingapura. Agora, eles se reunirão novamente nos dias 26 e 27 em Hanói, no Vietnã. Como pano de fundo está a tentativa das autoridades americanas de conter uma ameaça nuclear de Pyongyang. 

Ao mesmo tempo, Trump disse, na terça-feira, não ter pressa, ao se referir à desnuclearização, e destacou que não há registro de testes nucleares ou de mísseis recentemente por parte da Coreia do Norte.

Apesar de o americano considerar que, desde o início das conversas com Kim Jong-un não houve mais atividade nuclear na Coreia do Norte, agências americanas notaram sinais de construção de novos mísseis. 

Do lado de Pyongyang, Kim Jong-un pressiona pela suspensão das sanções econômicas impostas por Washington e exige a declaração de um fim oficial da Guerra da Coreia, em um tratado de paz. O conflito, de 1950 a 1953, terminou com um armistício, mas sem um texto formal de paz, o que tecnicamente deixa as duas Coreias em guerra até hoje.

O ex-embaixador dos EUA na Coreia do Norte Mark Lippert afirmou em debate no Centro para Estratégia e Estudos Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), em Washington, que os encontros entre os dois líderes podem significar um grande passo, mas será preciso traduzir isso em medidas concretas. 

“Eu tendo a pensar que líderes em uma sala realmente importam. A questão é como tirar isso da conversa de líder para líder”, afirmou. Segundo ele, os detalhes de implementação de acordos negociados entre Trump e Kim podem ser críticos. “É preciso estabelecer um processo nisso”, afirmou. 

Há receio de que a ânsia de conseguir um tratado de paz faça Trump ceder a imposições de Kim Jong-un, como a retirada por completo de militares e o fim dos exercícios conjuntos com a Coreia do Sul. 

“Não há apoio suficiente no governo americano para retirar as tropas da Coreia do Sul. Acho que isso é um bom sinal, mas não acredito que Trump será capaz de fazer o que quiser sem ouvir seus conselheiros”, afirma Sue Mi Terry, analista de Coreia do CSIS e ex-integrante do Conselho de Segurança Nacional. Trump já disse que não vê motivos para gastar recursos com exercícios militares neste momento. 

Autoridades americanas têm informado que, durante o encontro, os dois países buscarão um consenso. Além disso, a Casa Branca tem reduzido as expectativas sobre a reunião, sugerindo que a desnuclearização será um objetivo de longo prazo. 

Nobel da Paz 

No ano passado, os americanos afirmaram que seria necessário ter um plano claro de desnuclearização capaz de ser fiscalizado. As negociações entre diplomatas dos dois países se intensificaram recentemente em Hanói, antes de cúpula. A equipe de Trump tenta obter um acordo que possa ser assinado pelos dois líderes.

A primeira reunião entre Trump e Kim foi propagandeada, por cada um dos lados, como uma demonstração de força. Mais de uma vez, Trump disse que, se não fosse por ele, o mundo estaria vivendo uma guerra. “Se eu não fosse eleito, estaríamos em guerra”, repete Trump ao falar sobre o assunto, desde o encontro do ano passado. O americano também gosta de dizer que as negociações com a Coreia do Norte fizeram com que o premiê do Japão, Shinzo Abe, o indicasse para o prêmio Nobel da Paz.

Em uma tentativa de seduzir Kim, a Casa Branca deixou claro que, se a Coreia do Norte seguir o comprometimento de completar a desnuclearização, os EUA garantirão “opções de desenvolvimento econômico”. A dificuldade, segundo especialistas, é que Trump e Kim estabeleçam o que significa uma desnuclearização de maneira concreta.

“Em uma declaração de paz será preciso deixar claros os termos. É perigoso deixar aberto para interpretações. Gostaria de ver algo muito concreto e sincero, sem espaço para interpretação”, afirma Sue. Segundo ela, quando os países concordaram em trabalhar pela desnuclearização, no encontro de junho, em Cingapura, não ficou estabelecido o que isso significa em termos práticos para Kim Jong-un.

 

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