REUTERS/Marco Bello
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Cúpula da PDVSA recebia presentes de luxo

E-mails obtidos pelo Departamento de Justiça dos EUA mostram que empresários bancavam férias de diretores da estatal em ilhas paradisíacas

Jamil Chade  ENVIADO ESPECIAL / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2018 | 05h30

Em meio à crise na Venezuela, a partir de 2011, e da queda dos preços do petróleo, funcionários do alto escalão da PDVSA receberam presentes de luxo e viagens a hotéis cinco estrelas. Em troca, segundo o Departamento de Justiça dos EUA, que investiga a empresa, eles garantiam contratos milionários com a estatal venezuelana. 

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A acusação revela que cinco membros da cúpula do regime chavista teriam transferido milhões de dólares para contas na Suíça. Quatro dos implicados – Luis Carlos León Pérez, Nervis Villalobos Cárdenas, César Rincón Godoy e Rafael Reiter Muñoz – foram presos na Espanha, em outubro, e extraditados para os EUA. Um quinto indiciado, Alejandro Istúriz Chiesa, segue foragido. 

Os cinco envolvidos no esquema eram pessoas com influência dentro do regime venezuelano ou na direção da PDVSA. Três deles – Villalobos, León e Istúriz – faziam parte do que os promotores americanos batizaram de “equipe de administração da estatal”. Villalobos, por exemplo, era homem de confiança de Hugo Chávez e ocupou o cargo de vice-ministro de Energia. 

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No entanto, além das propinas, o esquema envolvia também pagamentos constantes sob a forma de presentes para os que tomavam as decisões no setor petrolífero, pilar da economia venezuelana. No dia 30 de novembro de 2011, por exemplo, Istúriz recebeu por e-mail a confirmação de sua reserva em uma ilha do Caribe, paga por um empresário estrangeiro. 

Ele se hospedou em uma casa de praia de Parrot Cay, nas Ilhas Turks e Caicos, conhecida pelas areias brancas, mar transparente e exclusividade total. Istúriz era um dos gerentes da Bariven, a subsidiária da PDVSA responsável pela compra de máquinas usadas na extração de petróleo. Além dele, outros frequentadores da ilha são bilionários e celebridades, como o ator Bruce Willis e o guitarrista Keith Richards. 

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Em outro caso, no dia 6 de junho de 2013, um hotel de luxo de Aruba recebeu o pagamento por duas reservas para César Rincón e Rafael Reiter, ambos do alto escalão da PDVSA. No mesmo ano, Reiter ganhou dois carros de luxo blindados, cada um avaliado em US$ 107 mil, pagos por uma empresa do Texas. 

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Até cursos de inglês viraram propina. Em 2014, dois pagamentos – de US$ 16 mil e de US$ 8,7 mil – foram feitos para uma escola onde filhos de funcionários estavam matriculados. Segundo o indiciamento, os presentes incluíam relógios finos, vinhos caros e a conta de jantares em restaurantes sofisticados.

As mensagens também revelam brincadeiras entre os funcionários da estatal e os empresários. Em e-mail de 10 de outubro de 2011, o empresário Abraham Shiera alertava para um pagamento que teria sido feito pela estatal para quitar uma dívida que a PDVSA tinha com ele. Istúriz, responsável pelo pagamento, ironizou. “Relaxa, deixe eu te mimar.” Como resposta, Shiera apenas escreveu: “Estou precisando de amor $$$ hahaha”. Sete dias depois, a PDVSA mandou US$ 6,9 milhões para a empresa de Shiera. 

A vida de luxo da cúpula do governo venezuelano já havia sido revelada no ano passado, quando o jornal El País descobriu que funcionários da estatal gastaram milhões de dólares em joalherias e viagens. Os novos documentos, porém, mostram como esse luxo era bancado, muitas vezes, diretamente por empresários que buscavam acordos com a PDVSA.

 

 

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