Adem Altan/AFP_30/11/2011
Adem Altan/AFP_30/11/2011

Cúpula das Forças Armadas da Turquia renuncia

Desavença entre generais e o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan é reflexo da crise entre civis e militares, que buscam mais espaço no governo

AP, AFP e Reuters, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2011 | 00h00

A alta cúpula militar da Turquia renunciou ontem em meio à tensão causada pela prisão de oficiais acusados de planejar um golpe contra o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan. A primeira renúncia em massa na história das Forças Armadas turcas reflete a profunda divisão entre civis e militares no país.

A razão da renúncia de Isik Kosaner, mais importante chefe militar da Turquia, e dos comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica não foi totalmente esclarecida. Em Ancara, no entanto, acredita-se que o motivo é uma divergência entre o governo e os militares sobre a promoção de oficiais.

A cúpula das Forças Armadas pressionava Erdogan e exigia a promoção de alguns generais envolvidos em uma tentativa de golpe contra o premiê, em 2003, em uma operação batizada de "Marreta". Os militares pretendiam explodir duas mesquitas em Istambul durante as preces de sexta-feira e fazer a Grécia abater um avião turco no Mar Egeu. A ideia era provocar um caos que justificasse o golpe.

Os planos foram descobertos e o complô foi cancelado. Ao longo de 2010, a polícia deteve mais de 150 suspeitos, a maioria militares. Quase todos foram soltos, mas 28 acabaram formalmente acusados - entre eles generais e oficiais cujo julgamento começaria na próxima semana.

Erdogan queria que os militares envolvidos passassem para a reserva, em vez de serem promovidos. Nos últimos dias, o premiê se reuniu seguidas vezes com Kosaner, mas, aparentemente, não houve acordo.

A queda de braço entre civis e militares é antiga na Turquia. As Forças Armadas consideram-se as protetoras da nação laica que herdaram de Mustafá Kemal Ataturk, o fundador do Estado turco moderno, e realizaram quatro golpes de Estado no passado recente, em 1969, 1971, 1980 e 1997.

O problema é agravado pela grave crise por que passa a oposição secular. O Partido Popular Republicano (CHP), de centro-esquerda, e o Partido do Movimento Nacionalista (MHP), de extrema direita, encolheram por causa da popularidade de Erdogan, líder do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), de raiz islâmica.

Sob pressão da União Europeia, bloco no qual a Turquia deseja ingressar, o AKP reduziu o poder dos militares e reforçou as instituições democráticas. Os generais, que estavam acostumados a dar a última palavra em todos os assuntos de Estado - da ocupação de Chipre à repressão aos curdos - torceram o nariz.

Em 2007, a situação voltou a se deteriorar quando Abdullah Gul, também do AKP, tornou-se o primeiro político com passado islâmico a ocupar a presidência da Turquia. Os militares ameaçaram com um golpe e a tensão voltou ao país. Gul, que tem a prerrogativa constitucional de comandar as Forças Armadas, nomeou o general Necdet Ozel para o lugar de Kosaner, que havia assumido o cargo no ano passado.

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