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Moisés Naím
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Cúpula das mentiras

Encerra-se hoje no Panamá uma cúpula de chefes de Estado das Américas. Ali, ocorreram uma celebração e um confronto. Também se disseram muitas mentiras. A celebração se deve à normalização das relações entre Estados Unidos e Cuba. Barack Obama e Raúl Castro apertam as mãos, selando assim o início de uma nova fase entre seus países. Essa foto ficará para a história. Mas não será a única. Também veremos a foto (ou muitas fotos) do presidente Nicolás Maduro e seus aliados denunciando a sanção imposta pelos Estados Unidos à Venezuela.

Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2015 | 02h02

Enquanto a foto de Obama e Raúl reflete o que deveria ser o futuro do hemisfério, a ópera-bufa que será encenada pelo governo da Venezuela refletirá seu passado. Um passado no qual os governantes utilizaram a mentira e a manipulação para confundir incautos e enganar seus povos com o objetivo de continuar no poder. Maduro e seu grupo de aliados regionais (Argentina, Nicarágua, Equador, etc.) nos recordam de que esse passado ainda não foi superado. E Cuba, com a extraordinária sagacidade midiática que a caracteriza, aparecerá de ambos os lados: reconciliando-se com seu inimigo histórico e abrindo um futuro menos marcado por divisões e, ao mesmo tempo, ao lado dos países que se nutrem de divisões e culpam Washington por todos os males de que padecem.

O governo da Venezuela é um aluno aplicado nas manipulações midiáticas que Cuba utiliza com tanto êxito. Nesse caso, a manipulação consiste, para dar um exemplo apenas, em obrigar centenas de milhares de funcionários e estudantes venezuelanos a assinar cartas pedindo a Obama que não intervenha na Venezuela. Persuadir o mundo - e, sobretudo, os próprios cidadãos - de que a catástrofe econômica e social da Venezuela é culpa dos EUA é muito importante para Maduro.

Para consegui-lo, ele não hesita em usar todas as táticas e artimanhas comumente empregadas por Cuba e outras tiranias. Por exemplo, a doutora Raiza Aular, diretora de saúde do distrito da capital, Caracas, enviou essa circular a seus funcionários: "Mobilizar trezentas (300) pessoas de cada um dos centros hospitalares, todos os médicos devem comparecer com seus jalecos brancos e o restante dos trabalhadores vestidos de branco e vermelho com seus respectivos cartazes".

Ordens parecidas receberam professores primários e demais professores, funcionários públicos, militares e empresas que dependem do governo para sobreviver. Soma-se a isso uma campanha incessante de rádio e televisão que alerta o país de que o "império do norte declarou que a Venezuela constitui uma ameaça a seus interesses e, portanto, se prepara para intervir até mesmo militarmente." Assim, na Venezuela, muitos creem que uma intervenção armada dos Estados Unidos é possível.

Como toda boa manipulação, essa campanha utiliza certas verdades para tornar suas mentiras críveis. É fato que os Estados Unidos impuseram uma sanção à Venezuela e no texto justificativo dessa sanção indicaram que a Venezuela é uma ameaça a seus interesses nacionais.

A verdade, no entanto, é que essa sanção não foi contra o povo da Venezuela. Nem mesmo foi contra seu governo ou sua economia - os EUA continuam sendo o principal parceiro econômico da Venezuela e um dos poucos clientes que pagam pelo petróleo que compram. As sanções são contra sete indivíduos cuidadosamente selecionados que, de acordo com o governo americano, são responsáveis por brutais violações dos direitos humanos. Nenhum dos mandatários latino-americanos que pronunciaram discursos ardentes no Panamá enaltecendo a justiça e a democracia fez algo de concreto para proteger os dissidentes venezuelanos dos abusos ferozes do governo. Barack Obama é a única exceção. Mas no Panamá ele será denunciado e Raúl Castro, aplaudido.

A declaração dos EUA de que a Venezuela ameaça seus interesses deve-se a um requisito legal e não a um cálculo estratégico da Casa Branca. Há um dispositivo que obriga que os países sancionados sejam declarados uma ameaça nacional.

Os funcionários americanos explicaram esse detalhe e insistiram que o único objetivo da sanção à Venezuela era a defesa de direitos humanos e não havia nenhuma reclassificação da ameaça que a Venezuela representa. Mas essas verdades desapareceram enterradas embaixo da torrente de mentiras que saem de Caracas e foram repetidas na 7.ª Cúpula das Américas, a cúpula das mentiras. / Tradução de Celso Paciornik

* É ex-diretor executivo do banco Mundial e membro do Carnegie Endowment for International Peace

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