''Cúpula deve marcar estreia do Lula estadista''

Para analista, Trinidad e Tobago é a primeira reunião latina na qual o papel do Brasil irá além das questões regionais

Entrevista com

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

16 de abril de 2009 | 00h00

O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, estreia na sexta-feira, na Cúpula das Américas, seu novo status de "estadista internacional" em um fórum latino-americano, diz Moisés Naím, editor-chefe da revista Foreign Policy e influente analista da região. Segundo Naím, o "eixo de Lula" e o "eixo de Hugo" (do presidente venezuelano, Hugo Chávez) vão se encontrar na cúpula em meio a uma grande reorientação geopolítica. Abaixo, trechos da entrevista concedida ao Estado por telefone:Como Obama cumprirá sua promessa de mudar a mensagem para a região?Podemos olhar para o que Obama fez na Turquia, onde ele admitiu que os EUA têm sido uma nação arrogante, que não atuava no mundo da forma mais construtiva. Ele pode seguir a mesma linha para a América Latina, admitindo que a região não tem sido prioridade para os EUA. Na Turquia, ele disse que os EUA não estão nem nunca estiveram em guerra contra o Islã. Em Trinidad e Tobago, ele pode dizer que os EUA não estão em guerra contra ninguém, e se limitam a querer países democráticos na região. Não queremos dominá-los, não queremos impor nossas opiniões e vamos respeitar seus processos eleitorais, desde que seus líderes sejam eleitos de forma democrática, ele poderia dizer.Nesse contexto, o sr. acha que Obama tentará uma aproximação com Chávez durante a cúpula?Uma das grandes perguntas é que tipo de espetáculo para a mídia Chávez montará. Chávez e seus colegas do mesmo eixo vão se encontrar em Caracas e irão juntos para a cúpula - Daniel Ortega da Nicarágua, Rafael Correa do Equador, Evo Morales da Bolívia, talvez Fernando Lugo do Paraguai e os presidentes de Honduras e da República Dominicana. Chávez não se pode dar o luxo de ir à cúpula e não ser o centro das atenções. Na ONU, ele falou sobre George W. Bush e o cheiro de enxofre, depois houve o bate-boca com o rei da Espanha, em toda reunião ele faz algo.Mas não será mais difícil fazer isso com um presidente americano menos polarizador?Será difícil confrontar Obama pessoalmente, mas ele pode confrontar o império. Recentemente, Chávez esteve no Irã e censurou a presidente chilena, Michelle Bachelet, por ter convidado (o vice-presidente americano) Joe Biden e (o premiê britânico) Gordon Brown para a cúpula dos governos progressistas. Ele provavelmente não se referiráa Obama, mas criticará o imperialismo.Há espaço para que Lula seja um mediador entre Obama e Chávez?Agora o Brasil joga em outro escalão, tem um papel global, está na mesa de negociações mundiais e tem uma voz importante nas discussões centrais da humanidade, como mudança climática, crise econômica, luta contra pobreza e até proliferação nuclear. Lula assumiu esse papel recentemente e está mais confiante. Agora que o país está indo bem, ele assumiu mais o papel de estadista internacional.Essa seria a primeira cúpula da região em que o Brasil desempenharia um papel global?Sim. E é importante lembrar que o eixo de Lula não tem uma relação de confronto com Chávez. Eles deixam Chávez fazer o que quer, mas não prestam muita atenção. Todas as iniciativas que Chávez propôs, Lula apoiou entusiasticamente e não executou nenhuma. Eles assinam acordos, se abraçam, sorriem, e nada acontece. O Brasil apoiou todos os planos grandiosos do Chávez - Oleoduto Transcontinental, Banco do Sul -, mas nenhum saiu do papel. Enquanto Lula deixa que Chávez lide com Nicarágua, Paraguai e outros, ele se reúne com China, Índia, África do Sul, criando uma poderosa coalizão global.O que uma mudança na política americana para Cuba significaria para a região?Eu acho que é uma tragédia, mas a cúpula pode ser distorcida pelo excesso de atenção a Cuba ou para os Castros. Cuba é simbolicamente importante, mas estrategicamente é irrelevante. Para a vida de 99,9% dos latino-americanos, mudanças na política de envio de recursos e visitas a Cuba são irrelevantes. Muito mais importante é garantir que um país como o Brasil continue estável, que os mercados de crédito sejam abertos, que o Banco Interamericano de Desenvolvimento tenha recursos para a região. Essas são questões importantes.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.