Marcos Correa/Brazilian Presidency via REUTERS
Marcos Correa/Brazilian Presidency via REUTERS

Cúpula do clima: Biden promete reduzir emissões e Bolsonaro diz que Brasil tem posição de vanguarda

Líderes mundiais como Xi Jinping (China), Vladimir Putin (Rússia) e Angela Merkel (Alemanha) também discursam na manhã desta quinta-feira, 22; evento marca retomada do protagonismo na agenda ambiental pelos EUA

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 08h44
Atualizado 22 de abril de 2021 | 14h06

O presidente americano, Joe Biden, abriu a Cúpula de Líderes sobre o Clima nesta quinta-feira, 22, destacando sobre os aspectos econômicos da luta contra a mudança climática. Em seu discurso, Biden afirmou que fará investimentos em infraestrutura verde para garantir a meta de cortar a emissão de gases do efeito estufa pela metade até o fim da década. O evento tem transmissão ao vivo em espanhol e inglês. "Isso colocará o país no caminho para zero emissões em 2050", afirmou ele.

O presidente Jair Bolsonaro também discursou na abertura da cúpula. Bolsonaro defendeu a adoção de compensação financeira ao Brasil pela conservação dos biomas nacionais. "Da mesma forma (que o mercado de carbono), também é importante haver justa remuneração pelos serviços ambientais prestados por nossos biomas ao planeta, como forma de reconhecer o caráter econômico das atividades de cooperação. Estamos, reitero, abertos à cooperação internacional", disse. O Estadão antecipou que o País voltaria a pedir dinheiro para combater o desmatamento, apesar do governo ter R$ 2,9 bilhões parados no âmbito do programa Fundo Amazônia.

A defesa de um mecanismo de compensação financeira foi feita em um momento do discurso em que o presidente comentava um dos objetivos da Conferência das Nações Unidas sobre mundanças climáticas (COP 26), a adoção plena do mercado de carbono. Bolsonaro disse se tratar de um "importante mecanismo", antes de mencionar a compensação pela preservação dos biomas como um tema a ser tratado. "Neste ano, a comunidade internacional terá oportunidade singular de cooperar com a construção de nosso futuro comum".

Assista à Cúpula de Líderes sobre o Clima (em espanhol)

Assista à Cúpula de Líderes sobre o Clima (em inglês)

A cúpula é apontada por analistas como o momento de retomada de protagonismo pelos Estados Unidos no cenário internacional, além de uma sinalização da importância que a agenda ambiental terá no governo Biden. Tanto o multilateralismo quanto a agenda ambiental foram deixados em segundo plano pelo ex-presidente Donald Trump.

Biden classificou a mudança climática como a crise existencial de nosso tempo. Ele salientou que outros países precisam colaborar com metas ambiciosas também, já que os EUA são responsáveis por cerca de 15% das emissões. "Os cientistas nos dizem que essa é a década decisiva, que precisamos tomar decisões para evitar as piores consequências", disse ele.

A nova meta visa fazer com que as emissões dos EUA caiam de 50% a 52% abaixo dos níveis de 2005 até 2030, disseram funcionários da Casa Branca. Isso é um passo significativo em relação à promessa do governo Obama de uma redução de 25% a 28% até 2025 e tem o objetivo de sinalizar que a decisão de Biden de voltar a aderir ao Acordo de Paris sobre mudança climática é apenas o início de um esforço agressivo que inclui tentar pressionar outras nações para a frente.Veja o que disseram os principais líderes mundiais:

Joe Biden (EUA)

Em seu discurso de abertura, o presidente dos Estados Unidos destacou os aspectos econômicos da luta contra as mudanças climáticas. Biden afirmou que, além da construção de um futuro sustentável e mais saudável, a transformação da matriz energética e nos meios de produção podem gerar empregos e solucionar problemas econômicos.

"Este momento é mais do que falar em preservação do nosso planeta, é também sobre garantir um futuro melhor para todos nós. É por isso que quando as pessoas falam sobre clima, eu penso em empregos. Nossa resposta à questão climática demanda a uma criação de empregos extraordinária", afirmou.

Jair Bolsonaro (BRASIL)

O presidente Jair Bolsonaro abriu seu discurso na cúpula do clima defendendo que o Brasil está na vanguarda da defesa do meio ambiente e do enfrentamento ao aquecimento global. "Historicamente, o Brasil é voz ativa na construção da agenda ambiental global. Renovo hoje essa credencial, respaldado tanto por nossas conquistas até aqui, quanto pelos compromissos que estamos prontos a assumir perante às gerações futuras."

Na sequência do discurso, Bolsonaro afirmou que era necessário lembrar que a queima de combustíveis fósseis ao longo dos últimos dois séculos era a causa maior das mudanças climáticas, apontando que o Brasil tem pouca participação neste processo. "O Brasil participou com menos de 1% das emissões históricas dos gases de efeito estufa, mesmo sendo uma das maiores economias do mundo."

O presidente também vendeu a imagem de um governo preocupado com o desmatamento na Amazônia, uma das maiores cobranças que vem recebendo no âmbito internacional. Ele também afirmou que o Brasil assumiu o compromisso de eliminar o desmatamento ilegal até 2030 e que o País atingiria a neutralidade climática em 2050.

Bolsonaro também voltou a defender uma compensação financeira ao Brasil pela conservação dos biomas nacionais. "Da mesma forma (que o mercado de carbono), também é importante haver justa remuneração pelos serviços ambientais prestados por nossos biomas ao planeta, como forma de reconhecer o caráter econômico das atividades de cooperação. Estamos, reitero, abertos à cooperação internacional", disse. O Estadão antecipou que o País voltaria a pedir dinheiro para combater o desmatamento, apesar do governo ter R$ 2,9 bilhões parados no âmbito do programa Fundo Amazônia.

Kamala Harris (EUA)

A vice-presidente dos EUA, Kamala Harris, cobrou uma ação "rápida e unida" da comunidade internacional sobre o clima na abertura da cúpula. "Como uma comunidade global, é imperativo que ajamos de forma rápida e unida para confrontar essa crise. E isso vai requerer inovação e colaboração ao redor do mundo", disse a vice-presidente.

Kamala também destacou que uma mudança de paradigma vai requerer o uso de energias renováveis e novas tecnologias. "(isso) vai dar as nações a oportunidade de criar comunidades mais saudáveis e economias fortes".

Xi Jinping (CHINA)

O presidente chinês, Xi Jinping, também destacou aspectos econômicos da defesa do meio-ambiente. "Proteger o meio ambiente é proteger a produtividade. Devemos nos comprometer com uma governança sistêmica", afirmou.

O presidente também destacou o anúncio conjunto com o governo americano para cooperação em meio ao aumento. "Há pouco EUA e China emitiram um comunicado conjunto sobre a crise climática. Esperamos trabalhar junto com EUA".

Boris Johnson (REINO UNIDO)

O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, destacou o avanço nas reduções de carbono alcançados. "Fomos o primeiro país ao aprovar uma lei para emissões neutras", disse. E completou: "Chegamos a 50% em emissões neutras. Estamos no ponto mais baixo de emissões desde o século XIX".

Johnson também fez menção à postura que espera dos países durante a COP 26. "Como anfitriões da COP 26, queremos ver ambições parecidas ao redor do mundo e estamos trabalhando em conjunto com todos, dos países menores aos países de maiores emissões, para que se mantenha o limite de aumento em 1,5ºC."

Narendra Modi (ÍNDIA)

O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, afirmou que faltam ações concretas no combate às mudanças climáticas. "Hoje vamos discutir ações globais para o clima e quero deixar uma meta com vocês. A emissão de carbono da Índia já está 60% abaixo do que a média global. Isso tem a ver com nosso estilo de vida, que ainda está baseado em práticas sustentáveis", afirmou Modi.

O líder indiano também defendeu que as nações adotem mudanças no estilo de vida para enfrentar as mudanças climáticas. "Um estilo de vida sustentável e um estilo de vida voltado ao básico precisa ser pilar importante de uma estrategia econômica pós-covid.. "Não vamos parar até que a meta seja atingida".

Yoshihide Suga (JAPÃO)

O primeiro-ministro japonês, Yoshihide Suga, afirmou que o país se compromete a acelerar a descarbonização em mais de 100 regiões do país até 2030. O líder asiático também prometeu trabalhar em conjunto com os EUA. "A aliança climática Japão e EUA vai trabalhar em conjunto para promover a descarbonização em nível mundial."

"Faremos aportes de até 3 milhões de dólares ao Fundo Verde, apoiaremos a descarbonização aproveitando ao máximo a tecnologia de ponta japonesa."

Justin Trudeau (CANADÁ)

O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, defendeu um trabalho coordenado para o enfrentamento das mudanças climáticas. "Nosso sucesso trabalhando coordenadamente depende de encontrar o melhor caminho não só para ter um futuro mais sustentável, mas também para construir a base da prosperidade para todos."

Trudeau também anunciou que o Canadá tem o objetivo de reduzir as emissões de carbono de 40% a 45% até 2030, a partir do patamar de 2005. "Vamos seguir reforçando o nosso plano e tomando mais ações para chegar a ter emissões zero até 2050."

Angela Merkel (ALEMANHA)

A premiê alemã Angela Mekel iniciou seu pronunciamento na cúpula do clima destacando o retorno dos Estados Unidos ao debate climático, em referência ao período de ausência dos americanos durante o governo do ex-presidente Donald Trump. "Um prazer ver que os EUA estão de volta conosco nas políticas de clima, pois, é inegável que o mundo necessita de sua contribuição se queremos alcançar esses objetivos ambiciosos", afirmou.

Merkel afirmou que a Alemanha trabalha firmemente pela agenda ambiental, e lembrou do esforço da União Europeia, que estabeleceu como meta a emissão neutra de carbono até 2050.

Emmanuel Macron (FRANÇA)

O presidente francês, Emmanuel Macron, pediu união dos líderes mundiais na implementação de novas metas e um plano de ação claro que possa ser medido e verificado em 2030. "2030 é o novo 2050", disse Macron.

Líder de uma das principais nações europeias, Macron também afirmou que a União Europeia está comprometida com o desenvolvimento sustentável. "O investimento em energia solar e novas baterias será o núcleo das ações da união europeia nos próximos meses".

Vladimir Putin (RÚSSIA)

O presidente russo, Vladimir Putin, defendeu o compromisso do país com os acordos internacionais sobre o clima. Putin afirmou que "A Rússia trata seus compromissos internacionais com a maior responsabilidade", mencionando tratados como o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris. "Temos nos esforçado para criar legislações modernas que nos perminatam controlar as emissões de carbono e criar incentivos para reduzir essas emissões."

O mandatário russo também falou da necessidade de que todos os países adotem diretrizes sustentáveis igualmente. "O desenvolvimento não deve ser apenas verde, mas sustentável em todos os sentidos da palavra e se aplica a todos os países, sem exceção. isso deve estar de mão dada com a luta contra a pobreza. para concluir, quero reiterar que a Rússia está interessada na cooperação internacional para buscar mais soluções eficazes para as mudanças climáticas e outros desafios climáticos vitais".

Moon Jae-in (COREIA DO SUL)

A Coreia do Sul só deve anunciar seus novos compromissos de redução de gases estufa ante a Organização das Nações Unidas. Foi o que afirmou o presidente Moon Jae-in, em seu pronunciamento na abertura da cúpula do clima. "Nosso objetivo é chegar à neutralidade em 2050", afirmou

Jae-in afirmou que o país asiático chegou ao apogeu de emissões em 2018, mas que vem mantendo um esforço de redução desde então. "Em 2019 e 2020, baixamos em 10% as emissões em relação a 2018".

Matamela Cyral Ramaphosa (África do Sul)

O presidente sul-africano, Matamela Cyril Ramaphosa, demonstrou preocupação com os efeitos das mudanças climáticas nos países em desenvolvimento. Ramaphosa cobrou a ação das principais economias do mundo para apoiar as economias menores. "Os países mais desenvolvidos têm o dever de apoiar as economias em desenvolvimento para poder mitigar e adaptar-se ás mudanças climáticas"

Destacou a importância do multilateralismo", disse.

Ramaphosa também afirmou que a África do Sul vai acelerar as contribuições nacionais para a redução do carbono. "As emissões africanas vão começar a ser reduzidas a partir de 2025", disse. E completou: "Temos que trabalhar conjuntamente para conseguir alcançar uma sociedade com emissões zero".

Alberto Fernández (ARGENTINA)

O presidente argentino, Alberto Fernández, afirmou na cúpula do clima que a crise ecológica e a crise ambiental são "duas caras de um mesmo problema" e defendeu mudanças no sistema financeiro. "Aspiro que essa cúpula seja mais do que um novo caminho, pois essa é a hora histórica de sonhar juntos", disse.

Fernandez fez um chamamento para que a América Latina e o Caribe também busquem soluções para as mudanças climáticas e assumiu o compromisso de adotar medidas preventivas para erradicar o desmatamento ilegal, tipificando-o como crime ambiental.

Iván Duque (COLÔMBIA)

O presidente colombiano, Iván Duque, destacou que o enfrentamento às mudanças climáticas é o "principal desafio do nosso tempo". ele destacou que o país representa 0,6% das emissões de gases do efeito estufa a nível mundial, entretanto, "está entre os 20 países mais vulneráveis e mais ameaçados pelos efeitos das mudanças climáticas. Ante essa realidade, precisamos atuar com coragem e decisão e fazer isso agora", disse.

Ele afirmou que a Colômbia chegará na COP-26 com dois compromisso como nação: o primeiro, é de chegar ao ano de 2030 reduzindo em 51% as emissões de gases do efeito estufa. O segundo, é de alcançar a neutralidade na emissão de carbono até 2050. "Não posso deixar de mencionar a eminência de uma ética ambiental do século 21, em que possamos inspirar nossas crianças e jovens, para que absolutamente todos tenhamos consciência de como reduzir nossas emissões individuais de carbono", pregou.

Recep Tayyip Erdoğan (TURQUIA)

O presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, inciou seu discurso dizendo que "é uma obrigação moral" deixar o mundo em condições melhores para as gerações futuras, ele destacou o empenho do país na recupeação de bosques e plantio de árvores "para reduzir os impactos das mudanças climáticas".

No discurso, Erdoğan afirmou que todos os países precisam estar empenhados na pauta climática, mas que as responsabilidades entre eles são distintas. "As mudanças climáticas são um fenômeno mundial. Lamentavelmente, nem todos os países estão na mesma posição. Creio que devemos compartilhar a carga entre todos os países de forma igualitária e isso, obviamenete, vai melhorar a nossa luta contra as mudanças climáticas. Assim, até 2030 há uma responsabilidade comum, mas diferenciada, de acordo com as habilidades de cada país, e isso vai ser a base para termos um novo marco em relação às emissões de gases", disse.

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