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EUA devem aproveitar evento para revelar meta atualizada de redução das emissões de poluentes e incentivar a cooperação com outras nações Charlie Riedel/AP

Cúpula do clima é oportunidade para os países enfrentarem a mudança climática; leia a análise

EUA devem aproveitar evento para revelar meta atualizada de redução das emissões de poluentes e incentivar a cooperação com outras nações

Clayton Vinicius Pegoraro de Araujo*, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 05h00

O presidente Joe Biden será o anfitrião de uma cúpula sobre o clima nesta quinta e sexta-feira, durante a qual os EUA deverão revelar uma meta atualizada de redução das emissões de poluentes e incentivar a cooperação com outras nações para combater a crise climática.

O presidente convidou 40 líderes mundiais para a cúpula virtual e espera chegar a acordos com alguns dos maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo. 

Via de regra, uma cúpula é uma oportunidade para os países reunirem esforços para enfrentar a mudança climática, e esta acontece após a administração Trump tirar o país do acordo climático de Paris e desmantelar regulamentações ambientais. Espera-se que Biden revele a nova meta ambiental e prometa investimentos financeiros para ajudar países menos favorecidos. 

Existe uma pressão de grupos e empresas ligados às questões ambientais para que se estabeleça uma meta de redução de emissões até 2030, o que ajudaria, segundo especialistas, a limitar o aumento da temperatura global a não mais do que 1,5 graus Celsius abaixo dos níveis pré-industriais.

É fato que a mudança climática está impactando cada vez mais a vida das pessoas, as economias e  transformando os ecossistemas. Portanto é necessária uma ação urgente e, acima de tudo,  cooperativa entre os países.

Outro ponto importante é o papel da OCDE, que além de apoiar as negociações climáticas internacionais durante muitos anos, também tem aumentado seus esforços para ajudar os países a cumprir seus compromissos e contribuições nacionais e internacionais sobre o clima. O trabalho concentra-se nas dimensões ambiental, econômica, financeira e social, que são críticas para a criação de caminhos de desenvolvimento com baixas emissões poluidoras.

Foram editados pela OCDE vários relatórios com projeções globais e as consequências econômicas da poluição ao ar livre na ausência de outras ações políticas além daquelas já em vigor. As projeções refletem os custos da  poluição atmosférica ao ar livre, dentro de uma perspectiva colocada até o ano de 2050 com os desafios ambientais e a escassez de recursos para a economia e usam, igualmente, uma abordagem que liga a atividade econômica às emissões de poluentes atmosféricos, concentrações e seus impactos biofísicos sobre a economia. 

Dentro deste panorama ambiental internacional que se coloca, não se pode deixar de citar o  objetivo de proteger  a camada de ozônio. Em outubro de 2016, durante a 28ª Reunião do Protocolo de Montreal sobre Substâncias que Esgotam a Camada de Ozônio em Kigali/Ruanda, mais de 170 países concordaram em alterar o Protocolo. A Emenda de Kigali, como ficou conhecida, visou a redução gradual dos hidrofluorocarbonetos (HFC) através da mitigação de sua produção e consumo. Com a Emenda Kigali, o Protocolo de Montreal será um instrumento ainda mais poderoso contra o aquecimento global. 

Neste momento existe uma pressão sobre o Congresso brasileiro para que autorize este ato de ratificação da Emenda Kigale e consequente seguimento de suas determinações que, sem dúvida, será um importante passo com objetivo de uma redução de mais de 80% no consumo de HFC até 2047 no mundo, com substanciais impactos para evitar o aumento de temperatura global.

Aparentemente, diante de várias denúncias enfrentadas pelo atual ministro do Meio Ambiente brasileiro, a comunidade internacional não enxerga com bons olhos a política ambiental que, atualmente, se faz por aqui. Não só pelas pressões com relação à Emenda de Kigali, mas também com relação ao “festejado” acordo comercial entre Mercosul e União Europeia que, se concretizado, trará um potencial ganho para todos envolvidos.

*É professor do Programa de Mestrado Profissional em Economia e Mercados da Universidade Presbiteriana Mackenzie

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Conversão repentina do governo Bolsonaro é vista com ceticismo; leia o cenário

Os doadores estão relutantes, uma vez que o Brasil, sob Jair Bolsonaro, vem destruindo o sistema de proteção ambiental, minando os direitos indígenas e defendendo as indústrias que impulsionam a destruição da floresta

Manuela Andreoni & Ernesto Londoño / The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 05h00

Enquanto Joe Biden reúne a comunidade internacional na cúpula do clima, o Brasil promete acabar com o desmatamento ilegal até 2030. Há um porém: Jair Bolsonaro quer bilhões de dólares para a iniciativa. Os doadores estão relutantes, uma vez que o Brasil, sob Jair Bolsonaro, vem destruindo o sistema de proteção ambiental, minando os direitos indígenas e defendendo as indústrias que impulsionam a destruição da floresta. “Ele quer dinheiro novo sem restrições reais”, disse Marcio Astrini, que dirige o Observatório do Clima, organização de proteção ambiental no Brasil. “Este não é um governo confiável.” 

Por dois anos, Bolsonaro pareceu não se incomodar com sua reputação de vilão ambiental. Sob sua supervisão, o desmatamento na Amazônia atingiu o nível mais alto em mais de uma década. A destruição impulsionada por madeireiros provocou indignação global em 2019, quando enormes incêndios consumiram a floresta.

Donald Trump fez vista grossa. Mas, desde que a Casa Branca mudou de mãos, os Estados Unidos começaram a pressionar o Brasil para conter o desmatamento. Assim que Joe Biden assumiu, funcionários de seu governo começaram a se reunir com o ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles, para buscar pontos comuns antes da reunião climática. As reuniões a portas fechadas foram vistas com apreensão pelos ambientalistas, que desconfiam do Brasil. As negociações provocaram campanhas para pedir que os americanos não confiem no governo brasileiro.

A demanda por dinheiro adiantado foi recebida com ceticismo por diplomatas, que argumentam que o único déficit real do Brasil é de vontade política. Suely Araújo, ex-diretora do Ibama, disse que o Brasil já tem acesso a centenas de milhões de dólares do Fundo Amazônia que poderiam ser gastos em esforços de conservação. “A cara de pau do governo em pedir recursos no exterior é gritante”, disse Suely. “Por que ele não usa o dinheiro que já está aí?”

Muitos governos desconfiam do Brasil. O Orçamento que Bolsonaro apresentou ao Congresso inclui o menor nível de recursos para agências ambientais em duas décadas. Além disso, Bolsonaro apoia um projeto de lei que daria anistia aos grileiros, medida que abriria uma área da Amazônia do tamanho da Flórida para a exploração. Outra iniciativa tramitando no Congresso brasileiro facilitaria operações de mineração em territórios indígenas. Por isso, especialistas dizem que há poucos motivos para acreditar na conversão ambiental de Bolsonaro. 

*SÃO JORNALISTAS

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Bolsonaro precisará cumprir promessas para receber apoio financeiro de outros países, diz embaixador

'Não virá um tostão sem comprovação de resultado', afirma Rubens Barbosa

Entrevista com

Rubens Barbosa, embaixador

Bianca Gomes, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 15h00

Apesar de ter reiterado as posições defensivas do ministro Ricardo Salles e seu discurso equivocado sobre as conquistas ambientais brasileiras, o presidente Jair Bolsonaro apresentou nesta quinta-feira, 22, na Cúpula do Clima 2021, uma série de propostas para ajustar a política ambiental do País. E agora está publicamente comprometido com elas, disse o embaixador e diretor-presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice)Rubens Barbosa. "Não virá um tostão sem comprovação de resultado", disse o embaixador em entrevista ao Estadão. "Sobretudo na questão do desmatamento, da queimada e do garimpo, pois são atos ilegais que estão sendo cometidos no País." 

Como o sr. avalia o discurso do presidente Jair Bolsonaro?

Eu achei o discurso positivo. Primeiro, porque agora ele (Bolsonaro) está publicamente comprometido, sobretudo com relação ao fortalecimento de órgãos ambientais e combate ao desmatamento ilegal. Antes, ele não estava comprometido, muito pelo contrário. Agora precisará fazer todas as modificações que prometeu a esses países e apresentar os resultados, pois, sem esses resultados, ninguém vai dar nenhum apoio financeiro ao Brasil.

Acredita que o discurso do presidente na cúpula convenceu Joe Biden e os demais líderes? 

O presidente repetiu as posições defensivas do Ricardo Salles e o discurso das conquistas ambientais brasileiras. É uma retórica, todos os presidentes têm. Apesar de ter reiterado a retórica defensiva e dessas conquistas ambientais, Bolsonaro apresentou algumas propostas para preservação da Amazônia e para ajustar a política ambiental do País. 

O discurso é um primeiro passo para mudar a imagem do Brasil em âmbito internacional?

A credibilidade e a imagem do Brasil só vão mudar quando o Brasil apresentar resultados concretos. Como Bolsonaro tem um gap de credibilidade, ele vai ter de demonstrar aquilo que prometeu. Se o orçamento for aprovado e ele não repassar aos órgãos ambientais, todos vão cobrar, principalmente os ambientalistas. Acho que precisamos esperar antes de criticar. O prazo de Bolsonaro é curto, já que teremos eleições no ano que vem. Mas para receber qualquer recurso estrangeiro, ele vai precisar demostrar o que prometeu. 

O que achou do presidente condicionar a preservação ao repasse estrangeiro?

É uma posição do (Ricardo) Salles. Mas não virá um tostão sem comprovação de resultado. Não haverá nenhum recurso de empresas ou governo para o Brasil sem que esses compromissos comecem a ser executados, sobretudo na questão do desmatamento, da queimada e do garimpo, pois são atos ilegais que estão sendo cometidos no País

Sentiu falta de algum ponto no discurso?

Acho que não deveria ter feito a vinculação com recursos financeiros de outros países, deviam fazer a partir dos resultados. E achei que foi positivo a referência às comunidades indígenas, que ele nunca havia mencionado, e agora é possível cobrar esse ponto. Bolsonaro deu um roteiro para a sociedade brasileira cobrar dele providências para a Amazônia.

O que o sr. achou do discurso de Joe Biden? 

Biden não tem controle sobre o que cada um dos presidentes fala. Mas ele teve liderança para marcar reunião, convidar as pessoas. E todos apareceram. Ele colocou a agenda do meio ambiente, da mudança de clima e da Amazônia na agenda global. É preciso ver também que Biden tem um interesse não só ambiental com essa agenda, mas comercial e econômica. Ele colocou o meio ambiente no centro da política econômica, externa e de defesa americana. Quer, agora, recuperar o tempo perdido em relação à China, que está muito na frente em termos de produção de equipamentos para o meio ambiente. O objetivo é ambiental, mas também político, de recuperar o tempo perdido por Trump e colocar os Estados Unidos na vanguarda da agenda ambiental, e comercial, de recuperar o espaço perdido para a China.

Qual o significado da cúpula? 

A cúpula foi muito importante para colocar os Estados Unidos de volta ao centro dos acontecimentos em relação ao meio ambiente. A cúpula ainda dá uma força para a preparação adequada das diferentes conferências internacionais que vão haver neste ano, como a cop26 e outras reuniões do g20 e g7. E essa cúpula inicial dá força, visibilidade e coloca alguns países como o Brasil e a Indonésia, que têm florestas tropicais, em uma posição de ter que apresentar resultados. É uma oportunidade para o Brasil começar a mudar sua retórica e a política em relação aos ilícitos da Amazônia. 

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Bolsonaro, na defensiva, tenta 'greenwashing'; leia análise

Diante do novo interlocutor, o presidente brasileiro fez uma fala acovardada e absolutamente destoante em relação ao que realmente pensa e coloca em prática diariamente

João Paulo R. Capobianco*, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 14h00

O presidente Jair Bolsonaro mudou o tom. Sua fala na Cúpula de Líderes sobre o Clima foi completamente diferente do discurso radical e absolutamente incoerente, carregado de contradições e dados inverídicos, que fez na abertura da 75ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), há apenas oito meses atrás. De lá para cá, houve apenas uma mudança: Donald Trump foi substituído por Joe Biden

Diante do novo interlocutor, o presidente brasileiro fez uma fala acovardada e absolutamente destoante em relação ao que realmente pensa e coloca em prática diariamente, por meio das ações de seu ministro do Meio Ambiente. No entanto, mesmo buscando ser mais ponderado, não conseguiu deixar de ser Bolsonaro. Primeiro, tentou mediar com sua base radical trazendo as velhas e ultrapassadas afirmações de que o Brasil tem baixa contribuição histórica nas emissões, emite “apenas” 3% e que as responsabilidades de reduzi-las são comuns, porém diferenciadas. Segundo, faltou com a verdade ao omitir que figuramos entre os maiores emissores e que aumentou em 9,5% a liberação de gases de efeito estufa no primeiro ano de seu governo, fazendo o País retroceder ao patamar próximo a 2006. 

Sem ter o que apresentar, visto que não há nenhuma iniciativa concreta em curso no Brasil para reverter a aceleração do desmatamento da Amazônia e Cerrado, principal fonte de nossas emissões, se apoderou de conquistas e compromissos de governos anteriores. Essa foi, talvez, a maior surpresa. Ao invés de desancar seus antecessores como sempre faz, reconheceu os feitos dos últimos 15 anos na redução das derrubadas que, segundo afirmou, evitam que bilhões de toneladas de gases estufa fossem despejados na atmosfera. Resultado que ele tem feito de tudo para anular.

Surpreendeu ao elogiar a NDC brasileira, destacando que ela contém compromissos absolutos, mas só apresentou os relativos, ou seja, redução em relação a 2005 de 37% e 40% das emissões nos anos de 2025 e 2030, respectivamente. Desta forma, descaradamente omitiu que reduziu as metas absolutas ao reapresentar a NDC no final do ano passado, elevando o teto de emissões líquidas de 1,3 GtCO2e para 1,8 GtCO2e em 2025 e de 1,2 GtCO2e para 1,6 GtCO2e em 2030.

Mesmo sendo quase impossível acreditar em uma mudança concreta, que sinalize uma inflexão nas políticas públicas do atual governo brasileiro, a pressão sobre Bolsonaro é um dos resultados mais importantes da Cúpula de Biden.

*É VICE-PRESIDENTE DO INSTITUTO DEMOCRACIA E SUSTENTABILIDADE.

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Imagem Eliane Cantanhêde
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Eliane Cantanhêde
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Cantanhêde: Bolsonaro apagou os dois últimos anos da política ambiental e, portanto, o próprio gover

Presidente brasileiro, em discurso na cúpula do clima convocada por Joe Biden, teve de recorrer a vitórias e avanços de governos anteriores

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 12h43

Ao ler seu discurso na cúpula do clima, um dos movimentos internacionais mais importantes em muitos anos, talvez décadas, o presidente Jair Bolsonaro enterrou o seu discurso anterior na ONU e apagou os dois últimos anos de política ambiental do Brasil. Ou seja, ele apagou o seu próprio governo.

Ao destacar a vanguarda brasileira na questão climática, Bolsonaro silenciou sobre seu governo e teve de recorrer às vitórias e avanços conquistados pelo País em décadas, ou seja, foi obrigado a reconhecer o sucesso dos governos anteriores nessa área. Só faltou enaltecer, nominalmente, Marina Silva, Isabella Teixeira...

Do seu próprio governo, e da gestão do ministro Ricardo Salles, não havia nada a dizer. Ou melhor, seria temerário falar sobre a demissão do respeitado cientista Ricardo Galvão do INPE, ou sobre o desmanche de Ibama e ICMBio, ou sobre os índices nefastos do desmatamento, ou sobre a o descumprimento - por determinação direta do presidente - da legislação ambiental – uma das mais prestigiadas do mundo.

E o que Bolsonaro poderia falar sobre as comunidades indígenas, depois de ter colocado o Brasil em alerta e chocado o mundo com seus projetos para escancarar as reservas à mineração, ao turismo, ao agronegócio, a tudo, enfim. É por essas, e outras, que o Brasil empilha mais de uma dúzia de manifestos, internos e internacionais, contra a desastrosa política ambiental da era Bolsonaro.

O ponto objetivamente mais importante do discurso do presidente brasileiro foi a antecipação da neutralidade climática em dez anos, de 2060 para 2050, mas o grande problema do discurso, ou do próprio Bolsonaro, é de credibilidade. Quem acredita em suas intenções e seus compromissos, particularmente na área de meio ambiente?

Ele também se comprometeu com a meta do desmatamento em 2030 e com dobrar as verbas para a fiscalização. Como assim? Depois de demitir nomes chaves do Ibama e do ICMBio? De cortar sem dó nem piedade suas verbas? De acenar com uma “Força Tática” de militares da reserva para tomar o lugar os técnicos dos dois órgãos?

Para Bolsonaro, como já admitia seu ex-chanceler, Ernesto Araújo, a defesa do meio ambiente não passa de instrumento do comunismo internacional, logo, as ONGS e os órgãos do setor estão entupidos de esquerdistas. Todas as ações do seu governo refletem exatamente isso.

Do ponto de vista político, o destaque no discurso de Bolsonaro foi sua inflexão, ao dar o dito pelo não dito, o feito pelo não feito, para sair do negacionismo absurdo e da ideologia incompreensível e cair na real. É um efeito evidente do cerco dos fundos de investimento, dos banqueiros, dos grandes empresários, dos economistas, dos ex-ministros da Economia e ex-presidentes do BC, do agronegócio, do Partido Democrata dos EUA, dos artistas nacionais e internacionais.... Ufa!

Para Entender

O que é o encontro convocado por Joe Biden

Reunião de líderes mundiais quer estabelecer novos compromissos para a redução das emissões de carbono e nasceu do interesse americano de se recolocar como protagonista no cenário internacional após os anos Trump

Mas o principal alvo de Bolsonaro foram os Estados Unidos. Dando nome aos bois, ele estava se dirigindo a Joe Biden, que mostra ao mundo a que veio, abre novos horizontes nas relações multilaterais e põe no centro do debate internacional uma questão de vida ou morte: como salvar o planeta.

Com a cúpula do clima, Biden enterra definitivamente a era Donald Trump. Bolsonaro precisa virar outro Bolsonaro para sobreviver e retirar o Brasil da condição de pária internacional. A estratégia é dar um salto triplo carpado na sua política ambiental e desmontar o tripé do desastre: saúde, política externa e meio ambiente.

A tática é a de sempre: esconder-se, mudar o discurso e deixar Ricardo Salles na linha de tiro, até cair ingloriamente. Como ocorreu com o diplomata Ernesto Araújo e o general Eduardo Pazzuelo. Só falta combinar com os adversários. Nesse caso, não são apenas os russos.

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Em cúpula do clima 2021, Biden demonstra liderança e Bolsonaro, inércia; leia análise

O Presidente dos EUA, Joe Biden, fez a aposta certa e a que melhor define o curso do futuro: cuidar do meio ambiente e inaugurar uma nova ordem geopolítica mundial focada nas mudanças climáticas

Hussein Kalout, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 12h19
Atualizado 22 de abril de 2021 | 14h12

Após o hiato das grandes concertações multilaterais durante o mandarinato de Donald Trump, os EUA voltam a liderar e retornam dominando o palco internacional naquilo que será o mais importante assunto de hoje e das próximas gerações. O Brasil, por sua vez, que tinha tudo para desempenhar um papel chave seja por ser o detentor da maior floresta tropical do planeta ou até pelo capital diplomático acumulado desde a Conferência da ONU Rio-1992, estreou, na Era Biden, com status de pária ambiental e descapitalizado politicamente e moralmente.

O discurso do presidente americano foi objetivo e endereçou o tema em consonância com o seu discurso de campanha, convocando os países a se aterem aos seus compromissos de proteção do meio ambiente, especialmente, na redução do desmatamento, da emissão de gases na atmosfera e no emprego da tecnologia como vetor fundamental para o desenvolvimento sustentável. As metas assumidas pelo presidente americano de reduzir em cerca de 50% a emissão de poluentes na atmosfera até 2030 e alcançar a neutralidade nas emissões até 2050 era, enfim, o esperado.  Biden mostra que os EUA estão jogando o jogo das mudanças climáticas para valer.

Já o discurso do presidente brasileiro foi baseado em um emaranhado de argumentos demonstrando que o governo segue em sua costumeira toada de se colocar na defensiva de lançar promessas sem direção. O discurso do presidente brasileiro trouxe à baila os avanços logrados pelo Brasil ao longo das últimas décadas e com as metas de governos passados – e cuja contribuição de seu governo é negativa. As conquistas brasileiras na área ambiental refluíram nos últimos dois anos sob Bolsonaro. À par da verborragia burocrática empregada no discurso, resta saber se o inquilino do Planalto e o seu ministro de meio ambiente acreditam em uma única palavra do que foi dito na leitura do discurso presidencial.

O presidente brasileiro ainda não percebeu que a Amazônia se tornou maior do que o Brasil nas discussões ambientais. Trata-se de um perigo estratégico incomensurável para o interesse nacional. Perdida em narrativas esquálidas e descontroladas, a política ambiental brasileira põe em risco os interesses econômicos, comerciais, geração de emprego e, especialmente, a proteção dos povos tradicionais da região amazônica.

A promessa do presidente Bolsonaro de zerar o desmatamento ilegal até 2030 é um compromisso inexequível dada a realidade e a prática política verificada em seu governo. A inércia brasileira e o desmonte otológico da capacidade operacional e do aparato de inteligência ambiental após décadas de avanço, tornam vulnerável quaisquer promessas.

O discurso de Bolsonaro dá mostras de que ainda não saímos da distopia onde a "boiada" segue dando as cartas. As pretensões lançadas pelo governo brasileiro não têm como serem cumpridas enquanto não se restaurar o papel do Ibama e do ICMBio como órgãos vitais de proteção e de combate à devastação da floresta. A política ambiental do governo Bolsonaro (ou falta dela, na verdade) subtraiu do Brasil a sua principal arma no tabuleiro climático mundial: a condição de liderar! Observando os discursos das autoridades americanas, fica nítida a discrepância de comprometimento. Fica claro que o presidente Biden lançou uma nova equação sobre as mudanças climáticas e que será amparada por um novo código de regras no jogo ambiental internacional.

Não dá para pensar o mundo hoje sem o meio ambiente como pilar vital na relação entre os países. É inegável que as florestas desempenham um papel fundamental para as questões climáticas globais. As florestas ajudam a controlar o ciclo hidrológico, fundamental para a agricultura, e armazenam quantidade considerável de carbono. O desmatamento gera desequilíbrio, fazendo com que a floresta acabe liberando mais carbono do que absorve, o que agrava o aquecimento global. A luta contra o desmatamento, portanto, tem interesse para o futuro do próprio planeta. O desafio é superar a velha economia predatória sem que isso implique em perda de renda, empregos ou aumento da pobreza. Além disso, já está comprovado que a floresta tenha muito mais valor de pé do que derrubada. Para isso, é preciso conectar a floresta com a chamada Quarta Revolução Industrial – e nessa etapa a tecnologia passa a ter um papel preponderante.

Fica difícil acreditar na validade das promessas do governo Bolsonaro para o meio ambiente. Enquanto existir a diplomacia da boiada, a capacidade do país de ser visto como uma potência climática e como país construtor de uma nova ordem internacional ambiental e sustentável é absolutamente irreal.

Com ação, liderança e metas concretas, Joe Biden consolida o papel dos EUA como baluartes na construção de uma nova doutrina geopolítica que governará o futuro das mudanças climáticas no mundo. Já o discurso do presidente Bolsonaro não teve, infelizmente, a força e a capacidade de tirar o Brasil da condição de vilão mundial do meio ambiente. 

* HUSSEIN KALOUT, é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2017-2018)

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Bolsonaro segue script para cúpula do clima e aproveita para passar o pires; leia a análise

No mundo político é clara a divisão entre discurso e ações. Ainda que as promessas de Bolsonaro em relação à diminuição do desmatamento sejam otimistas, a atuação do atual governo não segue a mesma linha

Célia Froufe / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 11h48

O presidente Jair Bolsonaro falou o previsto durante a Cúpula de Líderes sobre o Clima, capitaneada pelo americano Joe Biden. Nos três minutos de pronunciamento a que tinha direito - assim como os demais 40 chefes de Estado e de governo e outras autoridades - ele repetiu de forma sucinta a carta enviada há alguns dias ao governo dos Estados Unidos. Convenceu? A resposta quase certeira é a de que não ou pelo menos não aos 100% dos demais líderes e audiência. Aproveitando a vitrine, passou o pires, defendendo que as ações feitas pelo Brasil devem ser remuneradas.

No mundo político é muito clara a divisão entre discurso e ações práticas. E, ainda que as promessas de Bolsonaro em relação à diminuição do desmatamento sejam otimistas, a atuação do atual governo não necessariamente segue a mesma linha. De qualquer forma, a participação do presidente brasileiro era aguardada.

Primeiro, porque a Amazônia é “o” símbolo de tudo o que envolve sustentabilidade no Planeta Terra. Depois, porque sua presença no evento virtual foi tratada quase que como uma surpresa, dada a convicção do governo doméstico de que, ao contrário do que gritam representantes de vários setores em todo o mundo, o trabalho ambiental local é bem feito.

 Após anunciar que pretende cortar a emissão de carbono do país pela metade até o fim desta década, Biden avisou que a pretensão da cúpula era a de que cada país dissesse o que pode fazer para proteger o meio ambiente.

Décimo oitavo líder estrangeiro a se pronunciar no evento, Bolsonaro ressaltou que Brasil é um dos poucos países a adotarem metas de redução de emissões e enfatizou que determinou a obtenção da neutralidade climática no País até 2050. Aproveitou a oportunidade para “passar o pires” e reforçar que os serviços ambientais brasileiros prestados ao bioma do planeta devem ser remunerados.

 Biden já não estava presente quando o brasileiro falou. Ele se retirou do local quando o presidente da Argentina, Alberto Fernández, o 15º líder estrangeiro a se pronunciar, iniciou o seu discurso.

A criação da cúpula sobre o clima pelo governo americano extrapola as preocupações específicas sobre o tema. Tem um sentido geopolítico de mostrar que a maior potência econômica e bélica do mundo ainda ocupa este lugar e, pelo fato de ter angariado tantos líderes, comprova a deferência que gera no globo.

Principalmente depois que o país ficou “marginalizado” nas questões sobre o clima com a postura mais negacionista do ex-presidente Donald Trump sobre o aquecimento global. A volta dos EUA para a “linha de frente” das discussões sobre o clima foi, inclusive, um dos pontos destacados durante a fala do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. Da mesma forma, a chanceler alemã Angela Merkel comemorou o retorno dos Estados Unidos ao debate.

Com a Cop26, na Escócia, transferida de 2020 para 2021 por causa da pandemia, a criação do evento americano foi uma forma de a nova administração da Casa Branca marcar posição nesse tema. A liderança inegável do país ganhou mais uma sobrevida com a pandemia de coronavírus.

Ainda que mais cedo ou mais tarde a China deva passar ao posto de número 1 do mundo, o crescimento sem precedentes que a atividade local deve ter este ano manterá a economia do país como a mais pujante por mais algum tempo. E justamente por entender o papel atual e futuro da China, Xi Jinping foi o primeiro líder estrangeiro a se pronunciar e, como fez desde o Fórum Econômico Mundial de Davos, ainda em 2017, defendeu o multilateralismo. Mas passou o seu recado: as nações desenvolvidas devem elevar metas para o clima e ajudar países emergentes.

Cooperação, união, foco para mudar o futuro e rapidez nas ações foram palavras que se repetiram nos mais diversos discursos de líderes ao redor do mundo. Delas, Bolsonaro também engrossou o coro nesse sentido. A grande preocupação do mundo com a gestão brasileira, no entanto, é a de que o País não faça o suficiente e nem ouça com atenção a ciência.

Biden disse em seu discurso que o resultado apurado pela ciência sobre o clima até agora é inegável: “Realmente não temos escolha, temos que fazer isso agora.” E o primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, acrescentou: “Temos que agir agora, para não nos arrependermos depois”.

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