Cúpula do Itamaraty da era FHC discorda sobre ''nova'' diplomacia

Embaixadores de destaque nos anos 90 elogiam voto do Brasil na ONU, mas [br]divergem sobre dimensão da mudança na diplomacia

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2011 | 00h00

Críticos assíduos da política externa dos últimos oito anos, diplomatas brasileiros que tiveram papel de destaque no governo Fernando Henrique Cardoso saudaram o voto do Itamaraty no Conselho de Direitos Humanos (CDH) da ONU, em Genebra, pela designação de um relator especial para o Irã. Os embaixadores, porém, divergem ao avaliar o tamanho da mudança que estaria sendo conduzida pela presidente Dilma Rousseff.

Um lado do debate afirma que a questão está circunscrita ao campo dos direitos humanos. É essa a posição, por exemplo, de Luiz Felipe Lampreia, ex-chanceler de FHC.

"Trata-se de uma mudança ligada à figura da presidente. Por sua história pessoal, Dilma tem uma relação especial com a questão dos direitos humanos e isso tem implicações importantes para a política externa", argumenta Lampreia. Ele avalia ainda que o apoio do Brasil ao envio de um novo relator das Nações Unidas ao Irã foi "correto e representa uma mudança objetiva" em relação ao governo Lula.

Mas há diplomatas veteranos do governo tucano que tendem a ver uma mudança mais geral no Itamaraty. Eles interpretam o voto no CDH como apenas um de vários aspectos que devem afastar as diplomacias Dilma e Lula. "Há pelo menos três grandes áreas nas quais a presidente já demonstrou mudança: direitos humanos, relações com Irã e a aliança com os EUA", defende Rubens Barbosa, embaixador de FHC em Londres e Washington. Ele afirma que a transição é coerente com a posição apresentada por Dilma pouco após ser eleita, em entrevista ao Washington Post. "Mas estamos falando de uma transição gradual."

O embaixador Roberto Abdenur, secretário-geral do Itamaraty no governo Fernando Henrique, concorda. Para ele, o voto do Brasil no CDH não pode ser visto como um "fato isolado" e expressaria uma reavaliação do conjunto da política externa do governo Lula.

Chechênia e China. Para além do governo Lula, a história da política externa brasileira é pontuada por votações polêmicas em órgãos da ONU. Uma das mais famosas foi no governo Ernesto Geisel (1974-1979), quando o Brasil apoiou uma resolução na Assembleia-geral que qualificava o sionismo de "racismo" - na prática, censurando a razão de ser do Estado de Israel. Nos anos 90, o Brasil voltou atrás e apoiou uma nova resolução "corrigindo" a anterior.

Durante o governo FHC, o Itamaraty se recusou a apoiar uma condenação à Rússia, por massacres cometidos na Chechênia. O Brasil também silenciou em uma votação sobre a repressão da China contra dissidentes.

Com Lula, o Itamaraty passou a sistematicamente se opor a todo tipo de condenação. Nas palavras do ex-chanceler Celso Amorim, não caberia ao Brasil pôr "diploma de direitos humanos na parede dos outros".

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