Cúpula do Mercosul não aponta saídas

OTratado de Assunção, que lançou as bases do Mercosul, fez dez anos em março deste ano, em meio possivelmente à maiorcrise do processo de integração entre os países do Cone Sul.De domingo a terça-feira desta semana, centenas de políticos,economistas, empresários e diplomatas reuniram-se em Buenos Aires na Cúpula Econômica do Mercosul, um evento promovidopelo Fórum Econômico Mundial, que organiza sua principal reunião todo janeiro, em Davos, na Suíça.Talvez uma síntese das polêmicas e desencontros de idéias sobre o Mercosul durante o encontro possa ser resumida em umafrase de Klaus Schwab, o presidente do Fórum Econômico Mundial: ?Integração não é fácil em momentos de crise?.A desvalorização do real em 1999, seus efeitos sobre a Argentina, a crise atual deste país, e seus reflexos no Brasil formamuma espécie de círculo infeliz de eventos, que desmontou boa parte do consenso político, diplomático, intelectual e empresarialque deu suporte ao avanço do Mercosul na última década.Como observou Ricardo Seitenfus, professor da Universidade Federalde Santa Maria, as raízes do Mercosul estão em uma iniciativa diplomática dos presidentes José Sarney e Raúl Alfonsin, nadécada de 80, quando assumiam nações recém-democratizadas.Os dois países acertaram as bases de um novo padrão de relacionamento que, nas palavras de Seitenfus, ?deixou para trás ofantasma da rivalidade?.Em um segundo momento, Brasil e Argentina foram presididos por Fernando Collor e Carlos Meném, ambosentusiasticamente comprometidos (depois de assumir, no caso do argentino) com a bandeira liberal do livre-comércio, e em umperíodo em que o projeto europeu de integração estava numa fase particularmente feliz.O resultado foi o Tratado de Assunção,que combinou a visão politicamente integracionista de um mercado comum ao estilo europeu com uma postura firmementeliberalizante em termos de comércio. Uruguai e Paraguai subiram no barco no Tratado de Assunção.Chile e Bolívia só setornariam sócios (e não participantes) anos depois.O secretário de Política Econômica da Argentina, Federico Sturzenegger, um dos principais membros da tropa de choque doministro da Economia, Domingo Cavallo, e, portanto, insuspeito de gostar do Mercosul, admite que a formação do bloco foidecisiva para a liberalização comercial de Brasil e Argentina.De níveis muito mais altos, as tarifas de importação baixaram paraalgo em torno de 14% ao longo da década de 90.Os surtos de crescimento dos dois maiores países do Mercosul na última década, mesmo entremeados de crisescrescentemente virulentas das economias emergentes, levaram a um grande salto no comércio intrabloco, apresentado comoargumento definitivo em prol da integração.Sturzenegger observa que o ?market-share? mútuo de Brasil e Argentina nasimportações do parceiro tiveram crescimento medíocre no período ? e ele considera este um indicador muito mais relevante dosucesso de um bloco comercial.De qualquer forma, depois da pancada da crise do Leste asiático em 1997, o carisma do Mercosul só fez murchar. Adesvalorização do real em 1999 exarcebou o problema de sobrevalorização cambial argentino, e empurrou o país para arecessão da qual não saiu até hoje.Era natural e previsível, portanto, que algum ressentimento fermentasse no país que detéma segunda economia do Mercosul.A chegada de Cavallo ao poder este ano, como ministro da Economia e salvador da Pátria, materializou e tornou visível paraos brasileiros a animosidade anti-Mercosul.Sob a capa ora da cautela política, ora da inflamação populista, ora de forma direta,ora indireta, Cavallo vem demarcando na estratégia internacional argentina o espaço dos que vêem o Mercosul e a associaçãocom o Brasil mais como problema do que como solução.No campo oposto, e fiel a uma visão geopolítica de longo prazo típica da diplomacia, está Adalberto Rodriguez Giavarini,ministro de Relações Exteriores e Comércio Internacional da Argentina.?Para se retomar a expansão e melhorar a marcaMercosul é preciso aprofundar (a integração), e é o que estamos fazendo?, disse Giavarini nesta terça-feira.Ele se apóia no reiterado posicionamento do presidente argentino, Fernando de la Rúa, em favor do Mercosul como plataformade negociação dos seus membros de acordos internacionais, seja no contexto da Área de Livre Comércio das Américas (Alca)ou com a União Européia (UE).?O presidente falou, os ministros calam?, disse Giavarini, numa referência indireta a Cavallo.Realisticamente, porém, tomando-se em conta a baixa popularidade de De la Rúa, o carisma de Cavallo e os tímidos sinais deque o plano econômico do novo ministro pode estar dando certo, é difícil dizer qual dos dois lados antagônicos que disputam asupremacia na política externa argentina prevalecerá a médio e longo prazo.Por outro lado, é difícil interpretar ao pé-da-letra a metralhadora giratória anti-Mercosul de Cavallo e seus colaboradores.Em ummomento, o Ministro ataca a tarifa externa comum (TEC), e em outro diz que a TEC não é o grande problema, mas sim a nãoconcretização de um verdadeiro mercado comum no Mercosul (com suas muitas exceções e regimes especiais).Poucos antesde tudo isto, Cavallo decidiu alçar as tarifas de importação argentinas a níveis pré-abertura, uma medida perfeitamentecompreensível do ponto-de-vista da gestão de curto e médio prazo da crise de perda de competitividade, mas que dificilmente seencaixa com a postura de vanguarda da liberalização que ele tenta representar dentro do Mercosul.O grande problema, na verdade, parece residir não nesta ou naquela característica ou falha do Mercosul ? todos os acordos deintegração são dura e dolorosamente negociados e aperfeiçoados ?, mas sim no inconformismo com a flutuação do real.O novoregime cambial brasileiro não só aumentou diretamente os problemas argentinos, como também, por contraste, deu nitidez aosdefeitos da conversibilidade (se o Brasil estivesse atravessando uma fase ruim e a Argentina crescendo, o inverso certamenteaconteceria).As divagações de Cavallo sobre uma futura moeda única do Mercosul ? diplomaticamente descartada por Armínio Fraga,presidente do Banco Central do Brasil, como situada no futuro ?além do horizonte? ? é uma forma de o ministro da Economiareconstruir em uma ótica otimista, quando o momento lhe convém, uma constatação crua e desgradável: a desvalorização doreal colocou a Argentina em cheque e abriu uma fenda no Mercosul.Ainda não foi desta vez, em Buenos Aires, que alguémapontou uma saída para o impasse.

Agencia Estado,

22 de maio de 2001 | 19h10

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