EFE/EPA/SARAH SILBIGER / POOL
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Cúpula entre Xi Jiping e Joe Biden produziu pouco mais do que palavras educadas; leia análise

Em um relacionamento frio e de desconfiança mútua, protelar a perspectiva de um conflito mais amplo entre duas superpotências é considerado um progresso

Steven Lee Myers e David E. Sanger, The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2021 | 12h00

O encontro virtual entre o presidente Joe Biden e o líder da China, Xi Jinping, não produziu nenhum avanço em um relacionamento que decaiu perigosamente. Mas essa não era a intenção.

Em vez disso, os dois líderes procuraram evitar que as muitas disputas entre os dois países se transformassem em um conflito mais amplo. Se eles conseguirem traduzir suas palavras em uma espécie de distensão, será um sucesso diplomático.

"Parece claro para mim que precisamos estabelecer algumas salvaguardas de bom senso", disse Biden a Xi no discurso de abertura, em uma conversa virtual com Biden direto da Sala Roosevelt na Casa Branca, e Xi Jinping no Salão Leste do Grande Salão do Povo, em Pequim.

Xi, por sua vez, chamou Biden de “meu velho amigo” e usou uma metáfora náutica, comparando os dois países a navios que devem navegar juntos pelo vento e pelas ondas do oceano, sem colidir. 

Ao final de três horas e meia de conversas, os dois nem mesmo elaboraram o tipo de declaração conjunta que costuma marcar cúpulas entre os Estados Unidos e a China ao longo das décadas. A última reunião de Xi com um presidente americano, Donald Trump, em 2019, também terminou sem nenhuma declaração conjunta, marcando a deterioração dos laços.

A reunião também não terminou com nenhum acordo para que autoridades de ambos os lados mantivessem conversas adicionais sobre questões nucleares estratégicas e conflitos no ciberespaço - como Biden fez em sua cúpula em junho passado com outro rival geopolítico briguento, o presidente Vladimir Putin da Rússia.

“Não esperávamos um avanço”, disse um alto funcionário do governo a repórteres logo após o término das negociações com Xi. "Não havia nenhum a ser feito".

Em vez disso, os dois lados emitiram suas próprias declarações, cada um enfatizando os pontos de contenda de longa data. Eram catálogos de queixas mútuas que ofereciam pouco espaço para concessões.

Biden levantou preocupações sobre os abusos dos direitos humanos em Xinjiang, Tibete e Hong Kong, e sobre o "comércio injusto e políticas econômicas" da China que prejudicam os trabalhadores americanos, disse o comunicado da Casa Branca. Xi Jinping, de acordo com a própria leitura da China, disse que o apoio americano a Taiwan era “brincar com fogo” e alertou explicitamente que o mundo corria o risco de escorregar de volta para os confrontos das superpotências de meio século atrás.

“Engajar-se na demarcação ideológica, divisão do campo, confronto em grupo, inevitavelmente trará desastre para o mundo”, disse Xi, uma referência clara a um pilar da estratégia do novo governo para desafiar a China ao se aliar a nações com ideias semelhantes que temem a China ou se opõem ao seu modelo autoritário. “As consequências da Guerra Fria não estão longe.”

Com essa referência, Xi Jinping mergulhou diretamente no debate agora em curso em Washington sobre se as duas potências estão caindo em algo semelhante à Guerra Fria, ou se os profundos vínculos econômicos, comerciais e tecnológicos entre a China e os EUA fazem qualquer comparação com a velha relação Estados Unidos-União Soviética impossível.

O tom da reunião foi um lembrete de que a China, talvez inevitavelmente, continua sendo o que Biden e seus principais assessores definiram como o “maior desafio geopolítico para os Estados Unidos em sua história”. Eles rejeitaram as comparações da Guerra Fria como excessivamente simplistas e, como disse o conselheiro de segurança nacional de Biden, Jake Sullivan, “Temos a opção de não fazer isso”.

“A China será um fator no sistema internacional no futuro previsível - isso está dado”, disse Sullivan na semana passada durante um discurso no Lowy Institute na Austrália. “E os Estados Unidos não vão a lugar nenhum, também está dado. Então teremos que aprender como lidar com essa realidade”.

Embora os dois líderes tenham falado por telefone duas vezes este ano, a conferência teve como objetivo replicar a discussão mais completa de questões em cúpulas anteriores entre os Estados Unidos e a China - algo que não foi possível porque a pandemia e as preocupações políticas impediram Xi de viajar desde janeiro de 2020.

A Casa Branca esperava realizar a reunião pessoalmente, possivelmente na reunião do Grupo dos 20 em Roma no mês passado, mas concluiu que era melhor se reunir remotamente do que permitir que as tensões aumentassem no próximo ano. Com certeza, Xi esta preocupado com as Olimpíadas de Inverno em Pequim em fevereiro e com o congresso do Partido Comunista em novembro do ano que vem, que deverá estender seu governo.

Biden sugeriu repetidamente que deveria ser possível para os Estados Unidos entrarem em vigorosa competição com a China e confrontá-la em relação a certas questões, sem o risco de confrontos - seja nas disputadas sobre os mares na costa da China ou nas sombras do ciberespaço.

Ele também queria realizar a reunião depois de começar a fortalecer a competitividade americana. Poucas horas antes de se encontrar com Xi, ele assinou o projeto de lei bipartidário de infraestrutura, que seus assessores citaram como um exemplo de reorientação para a competitividade internacional. Ele também assinou recentemente outra legislação que proíbe algumas das principais empresas chinesas de tecnologia, como a gigante das telecomunicações Huawei, de operar dentro dos Estados Unidos. 

O que é percebido como um movimento para fortalecer a economia em uma capital pode parecer agressivo na outra. “Os dois líderes estão insatisfeitos com o estado da relação e com o comportamento do outro país”, disse Danny Russel, ex-secretário de Estado assistente que participou de conversas com Xi durante o governo Obama. “Ambos também estão cientes do risco de um incidente entre nossos militares que pode rapidamente sair do controle.”

Nenhuma reunião poderia ter resolvido as enormes divisões que cresceram entre os dois países.

A guerra comercial iniciada por Trump permanece sem solução, com a China ainda devendo US$ 180 bilhões da promessa de comprar um total de US$ 380 bilhões em produtos americanos antes de 31 de dezembro. Problemas também surgiram ou pioraram: a avaliação do Pentágono de que a China está expandindo rapidamente seu arsenal nuclear estratégico e pode estar abandonando sua estratégia de décadas de manter um arsenal mínimo.

Funcionários do governo se recusaram a discutir o que foi dito sobre o desenvolvimento nuclear, além de uma vaga declaração de que Biden “ressaltou a importância de gerenciar riscos estratégicos”. 

Outros tópicos que os analistas pensaram que viriam não surgiram, de acordo com o alto funcionário do governo. Disputas sobre a concessão de vistos para diplomatas, jornalistas e outros, bem como um possível convite para participar dos Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim, em fevereiro.

Muitos também esperavam um esforço para criar um fórum de discussão de disputas, como os criados pelos presidentes Bush e Obama. Os dois lados concordaram em negociações entre autoridades de baixo escalão. Isso, e o tom dos líderes em suas declarações publicadas, aumentaram a esperança de que as tensões pudessem diminuir pelo menos um pouco.

“Todas as coisas certas foram ditas por ambos os lados para estabilizar uma relação marcada pela desconfiança mútua”, disse Rorry Daniels, especialista em segurança do Comitê Nacional de Política Externa Americana em Washington. “A questão no futuro é como cada lado ajustará a política para atender a essa mudança de direção”.

Depois do último telefonema de Biden com o líder chinês em setembro, o tom do relacionamento, pelo menos, melhorou consideravelmente.

O secretário de Estado Antony Blinken e seu homólogo chinês, Wang Yi, se encontraram em uma cúpula paralela na reunião do Grupo dos 20 e conversaram por telefone novamente no fim de semana passado. O enviado de Biden para as mudanças climáticas, John Kerry, e o de Xi, Xie Zhenhua, chegaram a um acordo surpreendente sobre o assunto nas negociações deste mês em Glasgow.

Xi, de acordo com a descrição chinesa das negociações, sugeriu que a cooperação em questões como mudança climática estava condicionada à estabilidade em todo o espectro do relacionamento - uma postura que diverge da visão de Biden.

“A China e os Estados Unidos estão entrando em um período de distensão, mas não sabemos quanto tempo isso vai durar e até que ponto”, disse Cheng Xiaohe, professor associado de estudos internacionais da Universidade Renmin em Pequim. “Temos muitas incertezas agora”. 

Mesmo com os dois líderes se encontrando virtualmente, outra reunião estava ocorrendo em Pequim, em homenagem aos pilotos americanos conhecidos como Tigres Voadores que ajudaram a China durante sua guerra contra o Japão em 1941 e 1942.

“A história dos Tigres Voadores sustenta a profunda amizade forjada pela vida e pelo sangue do povo chinês e americano”, disse Qin Gang, embaixador da China nos Estados Unidos, durante o evento. Reconhecendo as tensões na relação, ele acrescentou que os dois países “deveriam recordar a amizade amistosa temperada pela guerra”.

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