Cúpula latino-americana apóia Cuba e pede aos EUA fim do embargo

Iniciativa de 18 países reforça viés antiamericano dos quatro eventos organizados pelo governo Lula na Bahia

Denise Chrispim Marin e Tânia Monteiro, enviadas especiais, Costa do Sauípe (BA), O Estadao de S.Paulo

17 de dezembro de 2008 | 00h00

A Cúpula da América Latina e Caribe (CALC), evento inédito coordenado pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva, divulgará hoje uma declaração especial de condenação ao embargo econômico imposto pelos EUA a Cuba, vigente desde fevereiro de 1962. Ontem, em brevíssima reunião, os líderes de 18 países latino-americanos que formam o Grupo do Rio decidiram pela inclusão de Cuba. Horas antes, o presidente cubano, Raúl Castro, havia lido um breve discurso na reunião do Mercosul, na condição de convidado especial da presidência brasileira do bloco. Embora tenham pouca repercussão prática, esses fatos somaram-se ao claro viés antiamericano dos quatro eventos de cúpula organizados e comandados desde ontem pelo Brasil, que tiveram como principal estrela o irmão de Fidel Castro. Nos encontros de ontem, Raúl Castro evitou tocar diretamente no conflito entre seu país e os EUA. Indiretamente, atingiu Washington ao condenar as políticas neoliberais e ao dizer que a crise internacional foi o resultado de uma "ordem econômica injusta e egoísta", supostamente contrária à adotada nos últimos 50 anos por Havana. NEGOCIAÇÃONa noite de segunda-feira, ao chegar ao balneário baiano, ele havia declarado à imprensa que esperava encontrar no futuro presidente americano, Barack Obama, disposição para uma conversa sobre o fim do embargo. "Se o senhor Obama quer discutir, discutiremos", afirmou. "É cada vez mais difícil manter Cuba isolada. Somos pequenos, mas demonstramos que não é possível nos dominar facilmente." Ainda ontem, em nova atitude de confrontação a Washington, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, informou que defenderá a inclusão de Cuba na Cúpula das Américas. Trata-se de um mecanismo criado em 1994, sob a liderança dos EUA, que deu substância legal para a negociação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e excluiu Cuba sob a alegação de que o país rompeu com a ordem democrática. AFINIDADEChávez não chegou a defender o retorno de Cuba à Organização dos Estados Americanos (OEA), do qual Havana está suspensa desde o início dos anos 60 pelo mesmo motivo, mas atacou a organização, qualificando-a de "ministério das colônias dos EUA". Raúl Castro descartou ontem a possibilidade de um retorno de Cuba à OEA, "com ou sem a presença dos Estados Unidos na organização".O movimento do Brasil em favor da inclusão de Cuba nos principais mecanismos regionais e de coordenação da América Latina e Caribe, sem influências ou tutelas externas, teve amplo respaldo. Os países que poderiam fazer oposição ou ponderação não foram representados nas reuniões por seus presidentes. Álvaro Uribe, da Colômbia, e Alan García, do Peru, desistiram de comparecer na última hora, por causa de inundações que afetam seus países. Assim, as cúpulas na Bahia estamparam a afinidade cada vez mais forte entre os governos de Brasil, Venezuela e Bolívia nas discussões sobre uma posição autônoma e independente da América Latina em relação aos EUA. "Sem intromissão do Norte, podemos resolver nossos problemas, apesar das diferenças", afirmou o boliviano Evo Morales. "Estamos começando a trilhar um caminho sem a tutela do império. Os EUA já não mandam mais aqui", disse Chávez. SAPATADAAo chegar atrasado na Costa do Sauípe, quando a reunião do Mercosul já havia terminado, Chávez não deixou passar o episódio do ataque a sapatadas de um jornalista iraquiano ao presidente dos EUA, George W. Bush, no domingo, em Bagdá. "Vamos pedir respeito ao novo governo dos EUA. Vejam os sapatos que jogaram em Bush. Os que eu trouxe são muito mais leves." AS CÚPULAS DE SAUÍPE Mercosul: Projeto de mercado comum iniciado em 1991 do qual participam Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. A Venezuela está em processo de adesão e Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru são associadosUnasul (União de Nações Sul-Americanas): Projeto de integração dos dois blocos do continente, Mercosul e Comunidade Andina de Nações, mais Chile, Guiana e Suriname. Panamá e México são observadores Grupo do Rio: Mecanismo latino-americano de consulta criado para mediar a crise política na América Central, nos anos 80. Ajudou na solução da guerra Peru-Equador e no conflito recente entre Equador e ColômbiaCúpula da América Latina e do Caribe: Projeto de integração latino-americana a partir dos blocos já existentes, desvinculado da interferência dos Estados Unidos. Em princípio, está aberto a todos os 33 países da região

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