Alexey Druzhinin/Sputnik/AFP
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Cúpula mostrou o papel de Putin na geopolítica global; leia análise

Participação do presidente russo era aguardada em virtude do afastamento pelo qual Rússia e Estados Unidos vinham enfrentando desde o governo de Barack Obama

Roberto Uebel*, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2021 | 05h00

A Cúpula de Líderes sobre o Clima realizada na semana passada foi a primeira oportunidade do presidente americano, Joe Biden, apresentar para o mundo a agenda que deverá dar a tônica de sua política externa nos próximos anos: as preocupações ambientais e climáticas. 

As mudanças climáticas estão na pauta internacional há, no mínimo, 30 anos. Os eventos mais importantes neste sentido foram realizados na última década -- a Rio+20 (2012) e a assinatura do Acordo de Paris (2015). Porém, a emergência de governos antiglobalização e críticos das pautas ambientais, como o recém-findado de Donald Trump, esvaziou o debate entre as lideranças globais, o que foi agravado pela pandemia da covid-19, que desviou o foco da política internacional e seus atores.

A cúpula organizada por Biden contou com a participação de mais de 40 líderes mundiais, dentre eles, os governantes das maiores potências econômicas – e as mais poluidoras –, como Rússia, Índia, China, países da União Europeia, Reino Unido e o Brasil, além da presença do secretário-geral da ONU. No caso brasileiro, 24 governadores enviaram uma carta ao presidente americano pontuando suas preocupações com relação à inação do governo federal na pauta ambiental e propuseram um canal de diálogo direto com Washington. Esta atitude se consolida como mais um elemento da diplomacia subnacional, que vem ganhando força no Brasil desde o começo da pandemia.

Outro destaque da cúpula foi a participação de Xi Jinping e de Vladimir Putin, líderes da China e Rússia, cujos países foram e têm sido alvo de críticas por parte do governo norte-americano, gerando inclusive animosidades geopolíticas nos últimos anos. Ambos se comprometeram a reduzir as emissões de carbono e de gases causadores do efeito estufa, bem como a adotarem energias limpas em suas economias.

A participação de Putin era aguardada em virtude do afastamento pelo qual Rússia e Estados Unidos vinham enfrentando desde o governo de Barack Obama e pela expectativa de como Biden se relacionará com os líderes das demais potências mundiais. Ou seja, a conferência organizada pelo governo americano não tinha como objetivo apenas a discussão climática e ambiental, mas também buscava preparar o terreno para uma aproximação calculada, de acordo com o modus operandi de Moscou e Pequim.

Em sua exposição sobre o comprometimento da Rússia com a redução de carbono e adoção de energias limpas, Putin continuou o seu discurso do dia anterior sobre o estado da nação, proferido anualmente ao Parlamento russo, e que neste ano enfatizou a meta de reduzir as emissões até o ano de 2050, um prazo distante daquele proposto por Biden e pela ONU, de 2030, e que abre margem para que a Rússia siga em um processo lento e gradual. Apesar disso, o destaque foi o tom diplomático adotado pelo presidente russo e pela preocupação que levantou sobre a emissão de metano, cujos maiores emissores são a Rússia e os Estados Unidos.

O discurso de Putin apresenta uma visão de globalização pragmática (ou contida), que começa a dar os seus primeiros passos neste momento em que a pandemia, embora continue na prioridade dos governos nacionais, é freada gradualmente pela vacinação. Não devemos esperar uma conciliação ou uma proximidade de tempos passados entre Moscou e Washington, se é que existiu. Porém, a depender do discurso de Putin, há indícios de que a política externa russa de fato está preocupada com as questões globais - nos moldes russos, evidentemente. Entretanto, qualquer movimento de provocação por parte da potência americana terá resposta equivalente, como de costume.

Portanto, a cúpula organizada por Joe Biden serviu para mensurarmos a temperatura das Relações Internacionais após um ano de uma pandemia que trouxe impactos significativos para a geopolítica mundial, e o estágio em que a agenda climática se encontra. Foi possível ver um comprometimento contundente dos líderes da Índia, China, Rússia, Reino Unido e países da União Europeia, e uma preocupação com relação às promessas brasileiras.

Se Biden estava fadado a cumprir um 'governo Obama 3', a sua cúpula sobre o clima foi um interessante evento para prospectarmos o futuro das relações internacionais e os próximos movimentos das grandes potências, sobretudo da Rússia e China. Se todos irão cumprir com as suas promessas, restará aguardarmos e fiscalizarmos até 2030. Ou, no caso russo, 2050. 

*Roberto Uebel é professor de Relações Internacionais da ESPM Porto Alegre

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