Cúpula priorizou o debate errado

O encontro dos 12 presidentes dos países que formam a Unasul deixou de fora da pauta temas sensíveis - as compras de equipamentos militares por todos os governos da região, por exemplo - para priorizar uma discussão acadêmica sobre a ameaça representada pelo uso partilhado por forças americanas e colombianas de instalações militares. A decisão é soberana e só implica esclarecimento do presidente Álvaro Uribe por concessão diplomática, alertaram durante a semana especialistas distribuídos por centros tão diversos como o Instituto Elcano, de Madri, e o Núcleo de Estudos Internacionais, de Pequim. Na verdade é mais que isso. Não há razão para temer a presença de tropas dos Estados Unidos na proporção que o acordo contempla, cerca de 600 militares e perto de 400 consultores civis. A questão delicada, e não debatida em Bariloche, é o uso intenso de sofisticados aviões de inteligência. Os grandes jatos são dotados de recursos eletrônicos capazes de localizar refinarias produtoras de cocaína no meio da selva e instaladas quatro metros debaixo da terra. Também podem usar sua capacidade para acompanhar o deslocamento de grupos guerrilheiros. Ou cumprir missões estratégicas com outros objetivos. Os aviões de transporte C-17 decolam da pista de Palanquero e cobrem distâncias superiores a 3 mil quilômetros. Em relação ao Brasil representam ameaça? Apenas para quem acredita que haja no Pentágono um plano de lançamento de paraquedistas sobre Brasília - que seria atingida assim, facilmente, sem que houvesse nenhuma reação. No capítulo dos gastos com equipamentos de defesa, da ordem de US$ 51 bilhões em contratos de prazos variados firmados por sete países da região em 2008, faltou dizer que, embora não haja uma corrida armamentista clássica na América do Sul, há, sim, um abrangente movimento de reequipamento das Forças Armadas. Os Estados que compõem a Unasul jamais trataram do assunto. Só os compromissos de longo prazo previstos pelo Ministério da Defesa do Brasil apontam para investimentos que podem chegar a US$ 200 bilhões, segundo análise da organização independente brasileira CeTRIS, o Centro de Estudos de Segurança. O Plano Colômbia, que formaliza a cooperação entre Washington e Bogotá desde 2000 na luta contra o narcotráfico e a guerrilha, já custou entre US$ 5 bilhões e US$ 7 bilhões. Uribe, falando ontem à tarde a jornalistas espanhóis, reafirmou que o acordo bilateral foi assinado pelo então presidente, Andrés Pastrana, em consequência da omissão dos governos dos países vizinhos, que ignoraram o crescimento da violência e não ofereceram ajuda ou apoio prático. As bases americanas são, a rigor, consequência da inércia.

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