Cúpula sela liderança brasileira

Encontro coroa etapa em que governo Lula buscou expandir influência regional e ser reconhecido pelo Primeiro Mundo

Denise Chrispim Marin e Tânia Monteiro, Costa do Sauípe (BA), O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2008 | 00h00

A Cúpula da América Latina e do Caribe (CALC) foi o passo definitivo na estratégia de posicionar o Brasil como um líder regional. O encontro foi um recado para o governo americano - como ficou evidente na crítica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à histórica "subserviência" da região aos EUA, feita em seu discurso final. Antes disso, o viés antiamericano já havia ganhado corpo com a inclusão de Cuba no Grupo do Rio e as homenagens recorrentes ao presidente cubano, Raúl Castro. "Mesmo que nada tivesse acontecido aqui, essa reunião valeu a pena só pelo fato de o Grupo do Rio ter aprovado a volta de Cuba", afirmou Lula. A idéia de realizar - estrategicamente a um mês da posse do futuro presidente americano, Barack Obama - um encontro no qual Cuba pudesse receber um amplo respaldo da região e a América Latina sustentasse um discurso autônomo surgiu durante a visita de Lula a Havana, em janeiro.As consultas diplomáticas foram feitas no mês seguinte, por ordem de Lula. Mas o acerto final sobre a data da reunião da CALC e do Grupo do Rio foi feito em outubro. A idéia foi aproveitar a cúpula do Mercosul, que tradicionalmente ocorre em dezembro, e aproximar o encontro da data de confirmação do presidente americano eleito, que ocorreu no dia 15. O Itamaraty convidou o chanceler argentino, Jorge Taiana, para um encontro em Brasília com o chanceler Celso Amorim no dia 16 de outubro. O tema não foi adiantado. Taiana não pôde viajar, mas enviou um de seus principais colaboradores que, ao entrar no gabinete de Amorim, tomou um susto. Lá estavam os chanceleres Felipe Pérez-Roque, de Cuba, e Patrícia Espinosa, do México. A proposta já estava armada. Coube à Argentina apenas acatá-la. A Venezuela foi informada apenas dias depois, o que levou Chávez, na segunda sessão de debates da CALC, a advertir Lula que deveria ter-se inteirado desse encontro antes. O governo Lula trabalha neste momento para pressionar pelo fim do embargo imposto pelos EUA a Cuba desde 1962. O Brasil faz isso por interesse econômico-comercial e para convencer outros países que tem condições de agir como um interlocutor confiável e respeitável de conflitos internacionais. Para Cuba interessa ampliar suas relações estratégicas com outros países da América Latina para não se converter em um país dependente de Caracas. Ao México interessa manter uma posição mais autônoma em relação a Washington, voltando-se para a região. Paralelamente às gestões diplomáticas para a organização da CALC, o Itamaraty teve de lidar com os atritos com o Equador e a ameaça latente de novas rusgas com o Paraguai. No início de novembro, Amorim pediu a seu colega da Defesa, Nelson Jobim, a suspensão da Operação Pampa, na fronteira Sul e com o Paraguai. O Itamaraty temia que os exercícios militares fossem lidos, nesses países, como uma agressão à soberania. Jobim respondeu que não aceitava nenhuma mudança da operação. Ao contrário, a reforçou com mais homens e prestigiou os exercícios do Exército em um final de semana. BALANÇO Nos últimos anos, o Itamaraty consolidou a formação de um fórum exclusivo dos principais parceiros emergentes, o BRIC (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China), e a aproximação brasileira com o Sudeste Asiático. O presidente Lula se encarregou de estabelecer contatos bilaterais sólidos em viagens a 22 países diferentes - alguns dos quais mereceram duas visitas, como Cuba. E o chanceler Celso Amorim percorreu outras dezenas de países, entre os quais o Irã. Esses movimentos se somaram a um projeto de integração da América do Sul, a Unasul, e à aproximação da região com os países árabes e a África. Tudo num momento em que o governo de George W. Bush praticamente delegou ao Brasil e ao México a tarefa de "tutelar" a América Latina. MUNDO RICOTambém houve uma preocupação em reforçar a presença do Brasil em espaços reservados originalmente ao mundo rico. Embora Moscou tenha colocado obstáculos à participação do Brasil entre os emergentes que se reuniriam com o G-8 (os sete mais industrializados e a Rússia), em São Petersburgo, em 2006, Lula compareceu a esse encontro e também aos que se sucederam em Heilingedamm, em 2007, e Sapporo, neste ano. Mas o ápice da mobilidade do Brasil no Primeiro Mundo ocorreu neste ano, quando o G-20 foi escolhido como o mecanismo mais adequado para os debates sobre a crise econômica global. A escolha coincidiu com a presidência brasileira nesse fórum e permitiu a Lula reiterar, na reunião de cúpula de Washington, em novembro, sua mensagem de que o mundo em desenvolvimento terá de participar da montagem da nova arquitetura financeira mundial.

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