Nicholas Kamm/AFP
Nicholas Kamm/AFP

Cúpula sobre democracia e política

Houve uma dose de arbitrariedade geopolítica na lista de convidados elaborada por Biden

Lourival Sant'Anna*, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2021 | 05h00

A cúpula da democracia promovida por Joe Biden marca a estratégia do presidente americano de arregimentar apoio ao redor do mundo na disputa com a China e a Rússia. Nos últimos dez anos, o poderio militar e econômico dos EUA perdeu peso relativo no mundo. 

A Casa Branca pressiona para que os países escolham de que lado estão: da China e da Rússia, o campo das autocracias, ou do mundo livre. O objetivo é diminuir o espaço para a ambiguidade, não tanto na esfera econômica, já que é impossível dar as costas para o mercado e a manufatura chineses, mas na geopolítica.

Sob o domínio de Donald Trump, o Partido Republicano é uma força iliberal, no sentido político-institucional da palavra. O então presidente não aceitou a derrota nas urnas, pressionou – sem sucesso – secretários estaduais republicanos a fraudar a contagem dos votos e insuflou seus seguidores a invadir o Congresso para impedir a certificação da eleição de Biden. Estados governados por republicanos têm aprovado leis que dificultam o acesso às urnas por eleitores pobres, negros e latinos.

Portanto, essa é uma batalha que Biden trava tanto dentro de seu país quanto no mundo. É claro que ela tem um aspecto não só ideológico, de defesa da liberdade, mas também político, de disputa de poder – seja com Trump e os republicanos, seja com a China, Rússia e aliados.

A maioria dos países convidados para a cúpula – precisamente 77 dos 111 — atende aos requisitos de democracias livres, por exemplo, segundo o relatório anual da Freedom House, centro de estudos especializado no tema, com sede em Washington. Outros 31 são considerados parcialmente livres e 3 (Angola, República Democrática do Congo e Iraque), não livres.

De maneira que houve uma dose de arbitrariedade geopolítica na lista de convidados. O melhor exemplo disso é a inclusão da Polônia e a exclusão da Hungria. Ambos têm os mesmos problemas: governos populistas de extrema direita que capturaram o Judiciário, perseguem minorias e hostilizam os opositores com uma agressividade que vai além do jogo democrático. Mas a Polônia é importante na contenção da Rússia.

Houve ganhos, porém, como a exclusão das monarquias absolutistas do Golfo Pérsico, tradicionais aliadas dos EUA. O desafio é construir a partir dessa cúpula incentivos suficientes para desviar o curso daqueles que rumam para o autoritarismo, e tornar os valores democráticos um amálgama forte o suficiente para que os países formem uma frente que empurre os violadores de direitos humanos para a condição de párias internacionais.

* É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

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