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Cura ou presente de grego?

Quando o governo de Dilma Rousseff lançou o programa Mais Médicos, anunciou-o como uma resposta rápida e eficaz à precária saúde pública nacional. Os médicos nacionais reclamaram, mas o povo aprovaria a solução pronta entrega para um problema crônico nacional.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2014 | 02h01

Hoje, após a fuga da médica Ramona Rodríguez do programa, seu pedido de refúgio e a tempestade política que levantou, os doutores do Planalto bem que poderiam se perguntar se o remédio é mais nocivo que a doença.

Por mais que se pareça um caso isolado - e mesmo que a vasta maioria dos colegas de Ramona prossiga na missão - a deserção cria embaraços para o Planalto e o País.

Se Brasília a mandar embora, pode virar para-raio internacional, alvo certo do lobby de direitos humanos, já inconformado com a condescendência brasileira com regimes tiranos. E justamente no momento em que o governo desfila suas credenciais de paladino da liberdade, disposto a peitar a espionagem de Washington.

Se acolher a médica, é problema em dobro. Assim, o governo Dilma compra briga com Raúl Castro, seu mais novo melhor amigo no hemisfério. Ainda pisca o olho para os quase 6 mil outros cubanos em solo brasileiro. Pode ser que nada aconteça. Com a patrulha castrista e o contrato leonino, haja coragem para qualquer cubano furar a cortina de cana.

Longe do Grande Hermano da ilha, no entanto, todos enxergam a fresta que Ramona abriu.

Surpresa, não foi. Com mais de 40 mil médicos espalhados por quase 70 países, o regime de Havana já sofreu baixas. Dos 4,5 mil cubanos admitidos como refugiados nos EUA no ano passado, quase 4 mil eram médicos. Destes, 3 mil passaram pela Venezuela, fazendo do país bolivariano a maior válvula de escape para fugitivos profissionais cubanos.

Em Havana, a luta continua. Seu programa de Internacionalismo Médico Cubano é o orgulho da ilha. Desde 1963, o regime já "exportou" 140 mil médicos, sempre escalados para as regiões mais pobres.

Para os mais entusiasmados, são anjos de jaleco. Competentes, disciplinados e conhecedores das mazelas dos cafundós, já trataram 130 milhões de pacientes em mais de 130 países, e salvaram 1,9 milhão de vidas, segundo estudo do cientista político Michael Erisman, da Universidade de Indiana.

Para Cuba, são um bom negócio, como o caso de Ramona desnudou. Na contabilidade companheira, Havana embolsa US$ 3 para cada um que paga aos integrantes do Mais Médicos. No venezuelano Barrio Adentro, a pechincha é melhor: US$300 para o doutor, US$ 6 mil para a ditadura.

Para onde vai o saldo, ninguém fala. Nem em Havana, muito menos em Brasília. Já Ramona, não titubeou. "Vai para o governo cubano", desabafou. "Me sinto enganada."

Washington está de plantão. Desde 2006, atrai o talento cubano com um programa de anistia talhado para médicos. É a guerra fria do bisturi e já convenceu mais de oito mil cubanos a pular a barricada. Cuba sente a fuga de cérebros, até mesmo no bolso.

O governo Dilma arrisca deflagrar a versão nacional do programa gringo. Encomendou à canetada milhares de médicos da ilha, imaginando sanar um problema de saúde pública brasileira e abrandar o ronco das ruas. Com a conta torta do programa, levou uma médica a se rebelar e pleitear guarida no Brasil, inaugurando, sem querer, uma nova rota de fuga, verde e amarela.

MAC MARGOLIS É COLUNISTA DO 'ESTADO', CORRESPONDENTE DO SITE THE DAILY BEAST E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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