Curdistão: o único sucesso da invasão

O Iraque hoje é uma terra de contrastes - principalmente entre escuro e mais escuro. Ao percorrer a região central de Bagdá recentemente, vi pouca coisa que pudesse realmente despertar alguma esperança de que as diferentes seitas iraquianas possam fazer um acordo para viver juntas. O único lugar em que encontrei um resquício de otimismo foi numa região onde os iraquianos não vivem juntos: o Curdistão.Imagine, por um momento, que uma das conseqüências da invasão do Iraque pelos Estados Unidos tivesse sido a criação de uma Universidade Americana do Iraque. Imagine se tivéssemos desencadeado um fluxo de investimentos, com a construção de hotéis, de um enorme centro de convenções, edifícios de escritórios, cibercafés, dois aeroportos internacionais e shopping centers. Imagine se tivéssemos aberto o caminho para uma explosão de jornais, a instalação de uma representação do Human Rights Watch e novas escolas. Imagine se tivéssemos criado uma ilha de decência no Iraque, com parques públicos onde as mulheres pudessem passear sem o véu islâmico e nenhum soldado americano morresse. Onde os americanos fossem populares e o islamismo, praticado de maneira tolerante e aberta. Imagine.Bem, agora pare de imaginar. Tudo isso está acontecendo no Curdistão, região no norte do Iraque, pátria de 4 milhões de curdos. Eu vi o que descrevi acima nas duas maiores cidades curdas, Irbil e Suleimaniya. A equipe do presidente americano, George W. Bush, simplesmente nunca falou a respeito para ninguém. O Curdistão não é uma democracia. Tem eleições parlamentares, mas o braço executivo da região ainda funciona mais no estilo da Família Soprano do que do seriado West Wing - mais como Cingapura do que Suíça. Ele é dominado por dois clãs rivais, os Talabanis e os Barzanis. A imprensa é livre e vibrante - desde que não insulte as lideranças locais. Mas a região está no caminho da democracia, criando gradativamente uma sociedade civil e uma classe média forte.Em 17 de outubro, a nova Universidade Americana do Iraque passará a oferecer cursos em Suleimaniya. "A diretoria queria inaugurar três campi - um no Curdistão, um em Bagdá e outro em Basra -, mas esta é a única parte do país onde uma universidade americana pode ser aberta e funcionar em segurança", afirmou Owen Cargol, reitor da instituição.O Iraque é um desastre sob vários aspectos, mas a invasão americana pelo menos fez nascer algo realmente impressionante no Curdistão. E da melhor forma: os Estados Unidos criaram as oportunidades e os curdos encarregaram-se do restante. Embora nos anos 90 os curdos tenham libertado sua região do Exército de Saddam Hussein, com o auxilio aéreo dos EUA, seu verdadeiro renascimento só foi possível graças à derrubada do ditador iraquiano, seu inimigo mortal.?AMIZADE UNILATERAL?"Os olhos de Saddam estavam sempre nesta região", disse Nechirvan Barzani, primeiro-ministro do governo regional curdo. "Quando foi deposto, nossas esperanças de um futuro melhor ressurgiram. Mesmo aqueles que tinham pouco dinheiro começaram a investir, abriram pequenas empresas ou compraram um carro, pois as incertezas acabaram. Temos de agradecer ao povo e ao governo americanos. Mas nossa amizade é unilateral. Amamos a América, mas não temos resposta. Eles não querem dar a impressão de que nos estão ajudando."Nosso tradutor, Hoshyar Omar, um estudante de 23 anos, acrescentou: "Meu pai foi enterrado vivo (pelos homens de Saddam) quando eu tinha 3 anos. Quero agradecer pessoalmente o presidente George W. Bush. Algumas de suas medidas podem ter sido ruins, mas libertar o Iraque foi a melhor decisão que ele tomou. Não tínhamos nada e construímos este Curdistão que o senhor está vendo."Por que o sucesso do Curdistão é o segredo mais guardado da América? Porque a equipe de Bush teme que os curdos se separem. Contudo, eles não têm nenhum interesse em romper com o Iraque agora. As fronteiras iraquianas os protegem contra a Turquia, o Irã e a Síria.A zona autônoma curda deveria ser o modelo americano para o Iraque. Bush e Condoleezza Rice têm alguma idéia melhor? No momento, os EUA estão aumentando seu número de soldados sem um rumo certo. A única esperança do Iraque é o federalismo radical - com sunitas, xiitas e curdos administrando, cada um, seus próprios negócios e Bagdá servindo como um caixa eletrônico, repartindo o dinheiro para os três. Vamos pôr isso em discussão agora.Meses depois da captura de Saddam, correu a história de que, ao ser indagado sobre se conseguiria estabilizar o Iraque novamente caso fosse libertado, o ex-ditador teria dito que bastaria apenas uma hora e dez minutos: "Uma hora para ir até a minha casa e tomar um banho. Dez minutos para reunificar o Iraque." Talvez um ditador conseguisse isso. A América não."Ninguém aqui pretende ser novamente governado pelo outro", disse Kosrat Ali, vice-presidente do Curdistão. "Se você usasse todas as forças americanas para ocupar todas as cidades e povoados iraquianos, talvez conseguisse centralizar o Iraque novamente. Essa seria a única maneira. Do contrário, já não há espaço para um governo centralizado no Iraque." *Thomas L. Friedman é colunista do jornal ?The New York Times?

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.