AFP PHOTO / SAFIN HAMED
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Curdos iraquianos votam hoje por independência

Em iniciativa sem muitas perspectivas de sucesso e vista com ressalvas na região, etnia tenta ficar mais perto de Estado autônomo

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2017 | 05h00

Os curdos iraquianos tentam hoje enviar uma mensagem de autodeterminação ao votarem em um referendo de independência rechaçado dentro e fora do Iraque e sem muitas perspectivas de sucesso. Autoridades regionais asseguram que uma vitória do sim não significaria de imediato uma declaração de independência, mas uma pressão sobre Bagdá para assegurar repasse financeiro e uma maneira de manter sua relevância para o Ocidente.

Para alguns analistas, o momento para o Curdistão do Iraque buscar a independência é “terrível”, como qualificou a diretora do Instituto de Estudos Nacionais Estratégicos da Universidade Nacional de Defesa dos EUA (Washington), Denise Natali. Mas para os curdos, a hora é mais que oportuna.

Seus combatentes, conhecidos como peshmergas, vêm de uma campanha vitoriosa que praticamente expulsou o Estado Islâmico (EI) de importantes regiões iraquianas, em solo, com o apoio dos bombardeios da coalizão internacional liderada pelos EUA. Eles foram cruciais para virar o jogo contra os terroristas, que aplicaram uma grande derrota às forças iraquianas em 2014.

Mas nessa campanha, segundo Denise, muitas áreas não curdas foram confiscadas, e o governo regional estaria agora, com o referendo, tentando assegurar que elas permaneçam sob seu poder. Essa atitude já se reflete em combates entre milícias e grupos não curdos tentando reaver territórios.

“Agora que a campanha contra o EI está em declínio, os curdos sentem que não são mais politicamente relevantes. Essa seria uma maneira de Barzani se manter em evidência, chamar a atenção do Ocidente e mostrar que seu povo continua importante, apesar de todos os outros problemas na região (Oriente Médio)”, afirmou Denise, ao Estado, se referindo ao presidente do Curdistão iraquiano Massoud Barzani. “Mas os curdos não têm a casa em ordem”, contrapõe a especialista americana, que viveu por anos na região.

Dificuldades

Os problemas dessa comunidade - que integra a maior minoria do Oriente Médio sem um Estado próprio - não são poucos. Além de fortes divisões políticas - nem todos os partidos apoiam o referendo -, a dificuldade financeira se agrava, como ressalta o sociólogo curdo (da Turquia) Azat Gundogan, professor visitante da Universidade Estadual da Flórida. A dívida da região estaria em torno de US$ 20 bilhões.

Para ele, a iniciativa do presidente Barzani teria, na verdade, a intenção de pressionar o governo iraquiano a renegociar com a região, ainda que o sim não vença. “As pessoas só querem ser reconhecidas. Estamos falando de pessoas que têm sido deliberadamente isoladas por quatro nações na região e, mesmo assim, têm sido capazes de sobreviver em meio a tanta hostilidade”, afirma. “Não importa se terão sucesso ou fracassarão, mas eles têm direito de ter sua própria nação.”

Mas para isso, não contam com o apoio internacional. Dos EUA ao Irã, incluindo a ONU, todos manifestaram seu desagravo com a iniciativa. “Essa é uma ação muito descuidada estrategicamente, com prováveis consequências para a região”, reitera Denise. 

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