Curdos ocupam terras abandonadas na Síria

Região nordeste do país está sob o domínio provisório de grupos armados da minoria; Turquia mobiliza tropas e existe risco de conflito

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2012 | 03h06

Em meio à guerra civil da Síria, que opõe rebeldes e forças leais ao ditador Bashar Assad, milícias curdas assumiram o controle de facto de áreas do nordeste do país, um território abandonado pelas forças armadas. A região sob o domínio dos ativistas se situa nas imediações de Kobani, Derik e Efrin, junto às fronteiras com a Turquia e o Iraque, onde grupos nacionalistas esperam estabelecer uma região autônoma.

Preocupado com as ambições da minoria, o Exército turco reposicionou tropas na região. Informações extraoficiais, não confirmadas por Damasco, dão conta de que a tomada total de controle do nordeste sírio teve início em 19 de julho, quando se intensificou a rebelião em Alepo, a maior cidade do norte do país.

Enquanto no noroeste insurgentes ligados ao Exército Sírio Livre (ESL) assumiram a hegemonia em vilarejos, rodovias e postos de fronteira, no nordeste as milícias curdas tomaram as rédeas, aproveitando o vácuo deixado pelas tropas de Assad.

De acordo com agências de notícias curdas, Forças de Defesa Popular (YPG), as brigadas nacionalistas armadas subordinadas ao Partido da União Democrática (PYD), vêm sendo estruturadas em toda a região, ao mesmo tempo em que escolas estariam adaptando seus currículos e incluindo a língua local.

A situação ainda é instável. Segundo Ghaleb Semo, militante curdo do movimento pacifista, o controle sobre regiões do nordeste da Síria é real, mas pode não ser sustentável. "Não existe um território livre, e sim um território abandonado. O regime sírio ainda poderia exercer o poder, mas não o exerce neste momento", explicou ao Estado.

Um dos fatores que aumenta a instabilidade são as divergências internas do movimento curdo. O Conselho Nacional Curdo, movimento não armado, apoia os rebeldes do Conselho Nacional Sírio, órgão presidido pelo sírio de origem curda Abdel Basset Sayda. Já o Conselho dos Povos do Oeste do Curdistão, ligado ao PYD, prefere a evitar o conflito contra Bashar Assad, com quem teria firmado acordo de colaboração em 2011.

Armados, seus milicianos fazem a "segurança" da região, evitando a tomada de controle pelo ESL e liberando as forças do regime para atuar em outras frentes. "O regime de Damasco não quer provocar os curdos deslocando seu Exército nessa zona porque não quer abrir um novo fronte no país", diz Bachar Issa, ativista curdo que vive em Paris.

Além de produzir um foco a mais de instabilidade na Síria, a crescente autonomia dos curdos na Síria preocupa o governo da Turquia. Em 11 de julho, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, assinou um acordo de não agressão com o Conselho Nacional Curdo. Mas os milicianos armados do Conselho dos Povos e do PYD não participaram do entendimento. "Um grupo terrorista está estabelecendo campos no norte da Síria", advertiu Erdogan, cujo governo combate desde 1984 milícias armadas do Partido Trabalhista Curdo (PKK), a versão do PYD que luta na Turquia.

Nesta semana, segundo a agência de notícias Firat, tropas turcas - que realizam manobras militares desde o início de agosto na fronteira - teriam invadido o território da Síria em busca de ativistas curdos abrigados na cidade de Cerablos, na região de Kobani.

Dentro da Turquia, os problemas também estariam se agravando: há 20 dias, militantes curdos armados teriam assumido o controle de rodovias da região de Hakkari, próximo à fronteira com o Iraque e o Irã, outros países cujos territórios estão no chamado Curdistão, área reivindicada pelos curdos.

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