REUTERS/Rodi Said/Files
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Curdos sírios querem declarar região federal no norte do país

Proposta do Partido Democrático da União está em sintonia com o proposto em Genebra pela ONU e deve ser confirmada até o fim do dia; governo de Bashar Assad e Turquia são contra a iniciativa

O Estado de S. Paulo

16 de março de 2016 | 10h05

BEIRUTE - O Partido Democrático da União (PYD), poderoso grupo político curdo na Síria, afirmou nesta quarta-feira, 16, que planeja declarar uma região federal no norte do país, um modelo que espera ser aplicado em todo o país conforme proposta divulgada pela ONU uma dia antes. O governo de Bashar Assad e a Turquia, porém, já se mostraram contrários à ideia.

A declaração deverá ser feita no final de uma conferência curda que está sendo realizada nesta quarta-feira na cidade de Rmeilan, na Província de Hassakeh. A reunião ocorre ao mesmo tempo que negociações de paz entre as forças da Síria e rebeldes apoiados pela Arábia Saudita se desenvolvem em Genebra, juntamente com um enviado da ONU, sobre as formas de resolver a guerra civil no país que completou cinco anos nesta semana.

O PYD e seu braço militar - as Unidades de Proteção do Povo (YPG) - não foram convidados para as negociações em Genebra, apesar da insistência da Rússia, porque Ancara os qualifica como grupos terroristas. Nawaf Khalil, porta-voz do PYD, disse que seu partido não está fazendo lobby para que a região independente seja apenas curda, mas sim uma área que inclua também representação turco-otamana e árabe.

Os curdos são a minoria étnica na Síria com maior representação, com 23 milhões de pessoas - cerca de 10% da população do país segundo dados de antes do início da guerra. Eles estão concentrados na empobrecida Província de Hassakeh, espremida entre as fronteiras da Turquia e do Iraque.

No últimos anos, porém, eles têm fortalecido seu território no norte da Síria, conquistando áreas enquanto lutam para expulsar combatentes islâmicos aliados à rebelião anti-Assad e declarando a sua própria administração civil nas zonas sob o seu controle.

Reação. Uma região federal poderia ser um primeiro passo para a criação de uma região autônoma semelhante à que os curdos têm na fronteira do Iraque, onde seu território é praticamente um país separado. No entanto, tanto o governo sírio quanto a oposição, pelo menos em teoria, rejeitam qualquer forma de divisão do país.

De acordo com funcionários do Ministério de Relações Exteriores da Turquia, o país rejeita qualquer movimento que possa comprometer a unidade nacional da Síria e considera o ponto da "integridade territorial" do país vizinho um ponto "essencial" das negociações.

"O povo sírio deve decidir sobre a estrutura administrativa e executiva do país em linha com uma nova Constituição que será formulada durante um processo de transição política", disse o diplomata turco em condição de anonimato. "Movimentos unilaterais não tem nenhum validade."

Riad Naasan Agha, membro da oposição síria apoiada pela Arábia Saudita, também afirmou que uma questão dessa magnitude deve ser decidida por meio de "instituições sírias", como eleições, por exemplo. "O que alguém (ou algum grupo) declara por conta própria, sem relação com a vontade do povo sírio, é inaceitável", afirmou Agha.

De acordo com o embaixador sírio na ONU, Bashar Ja'afari, que lidera a equipe de negociação do governo em Genebra, as conversas tem como objetivo justamente discutir a unidade do país e formas de manter sua integração. "Apostas na criação qualquer tipo de divisão entre os sírios serão um fracasso total", ponderou o embaixador. / AP

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