Curso para criar blogs é arma da nova geração

Curso para criar blogs é arma da nova geração

Tecnologia torna mais difícil a censura sobre dissidentes, que ensinam como postar ideias na internet

Ruth Costas, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

"Cuba não mudou muito. O que mudaram foram as tecnologias de comunicação." A frase é do marido da conhecida blogueira Yoani Sánchez, o jornalista e blogueiro cubano Reinaldo Escobar, que tinha 11 anos quando a Revolução derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista, em 1959.

Juntos, os dois coordenaram o primeiro curso da ilha de difusão de conhecimentos técnicos e teóricos para a criação de blogs, que terminou na semana passada, com a formação de 30 novos profissionais da web.

O curso foi montado de forma improvisada na sala da residência do casal, com recursos que Yoani ganhou de um prêmio conseguido no México por causa do trabalho com seu blog, o Generación Y. O objetivo, disse Yoani ao Estado, é "fazer os cubanos se acostumarem novamente a expressar o que pensam e o que sentem, após tanto tempo de controle."

A blogosfera cubana tem chamado a atenção. Dentro da ilha ? onde apenas 13% da população tem acesso à internet segundo dados oficiais ? a rede ainda tem alcance restrito, mas pouco a pouco está começando a ganhar repercussão. "Já começo a ser reconhecida na rua e vejo que quanto mais o governo tenta bloquear o acesso a nossas páginas em Cuba, mais cresce a curiosidade dos cubanos sobre seu conteúdo", explica Yoani. "Além disso, cada vez mais pessoas estão tomando coragem para fazer blogs e mostrar a cara."

Em 2007, havia apenas três ou quatro blogueiros em Cuba. Hoje, Orlando calcula que essa cifra esteja entre 50 e 80. E ela deve aumentar com a chamada Academia de Blogueiros, que em breve pretende lançar uma versão online e em junho abre novas turmas. As aulas vão desde ética no jornalismo e cultura cubana até técnicas de fotografia e vídeo para internet. E são gratuitas. Na primeira turma de blogueiros, o aluno mais jovem tinha 16 anos e o mais velho, 70.

"É claro que há muita gente com uma posição contestatória (em relação ao governo), mas a ideia é que haja variedade e total liberdade na escolha dos temas", diz Yoani. Um dos alunos do curso, exemplifica ela, está criando um blog esotérico.

"Também pedimos que aqui não seja distribuído material político. A nossa grande bandeira é a liberdade de expressão em Cuba. Queremos pluralidade."

Em Cuba só existem jornais, TVs e rádios oficiais. Na prática, portanto, os blogs representam a única imprensa livre do país. Floresceram porque a internet era o único espaço não regulamentado de Cuba. "Eles subestimaram o fenômeno", acredita Yoani.

Estratégia. Os blogueiros em geral escrevem suas mensagens em casa e, como pouquíssimos cubanos têm permissão para ter acesso à internet (em geral apenas autoridades, diplomatas e artistas afins ao governo), os textos são enviados para pessoas que estão fora do país para, só então, serem postados.

"Não proibiram nossa entrada nesses lugares porque seria muito drástico", diz Escobar. "A verdade é que a internet criou um tipo de tecnologia que para ser controlada demandaria muitos recursos e medidas muito mais duras. Não é fácil como proibir que se importem jornais e livros estrangeiros, por exemplo. Alia-se a isso o fato de que agora muitos cubanos têm celular (até 2008 eles não tinham permissão para comprar os aparelhos) e é difícil controlar como antes a circulação de ideias."

Há três anos os posts falavam de uma forma mais genérica sobre o dia a dia dos cubanos na ilha, agora eles trazem cada vez mais críticas diretas ao regime.

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