Custo da guerra afegã divide governo americano

Civis querem cortar gastos e priorizar outros desafios de segurança nacional, enquanto militares pedem mais dinheiro para reconstruir infraestrutura e montar Exército afegão

Rajiv Chandrasekaran, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2011 | 00h00

De todas estatísticas que a equipe de segurança nacional do presidente Barack Obama considerará ao discutir o tamanho das reduções de tropas no Afeganistão, o número mais influente não será quantos insurgentes foram mortos ou a quantidade de território arrancado do Taleban. Será o custo da guerra.

Os militares americanos estão a caminho de gastar US$ 113 bilhões em suas operações no Afeganistão neste ano e pedem outros US$ 107 bilhões para o próximo. Para muitos consultores do presidente, esse preço é alto demais levando em conta o rombo orçamentário. Dúvidas sobre a necessidade de reconstruir o país após a morte de Osama bin Laden só pioram o cenário. "O ponto em que estamos é insustentável", disse um funcionário de alto escalão do governo que pediu anonimato.

Nas próximas semanas, quando o gabinete do presidente avaliar as opções de retirada apresentadas pelo general David Petraeus, "não será como se cada um deles tivesse etiquetas de preço ao seu lado", disse a autoridade. "Mas isso certamente moldará a maneira pela qual a maioria dos civis analisa a questão."

O custo terá na decisão final um impacto maior do que teve durante o debate na Casa Branca sobre o reforço de tropas no Afeganistão em 2009. O aumento das pressões fiscais, combinado com a morte de Bin Laden, pode mudar o equilíbrio de poder na Casa Branca. "O dinheiro é o novo bicho-papão", disse outro funcionário do governo.

Autoridades civis e militares concordam que o custo da missão afegã é aterrador. A soma por homem em serviço no Afeganistão, cerca de US$ 1 milhão por ano, é maior do que era no Iraque, porque o combustível e outros suprimentos têm de ser transportados por caminhão para uma país sem saída para o mar. As bases, por sua vez, têm de ser construídas do zero.

O esforço liderado pelos americanos para criar um novo Exército afegão já consumiu mais de US$ 28 bilhões. E o Pentágono quer US$ 12,8 bilhões para o ano fiscal de 2012 para continuar treinando e equipando soldados afegãos.

Para funcionários civis, isso significa menos recursos para outros desafios de segurança nacional. No ano passado, os EUA gastaram US$ 1,3 bilhão em operações de reconstrução militares e civis em um distrito da Província de Helmand, quase o mesmo tanto que é enviado como ajuda militar ao Egito.

Autoridades civis acham que os comandantes militares resistirão aos apelos por cortes. Os líderes militares sustentam que o reforço de 30 mil soldados e o aumento do esforço de reconstrução civil resultaram numa reviravolta dramática, criando a possibilidade de um país razoavelmente estável.

Eles afirmam que uma retirada rápida das forças tornaria esse objetivo inalcançável, por recuar de territórios conquistados do Taleban e colocar em risco os esforços para desenvolver forças de segurança afegãs e a construção de instituições governamentais. Oficiais militares também argumentam que o objetivo de um acordo negociado com o Taleban estará sob risco se houver menos soldados para pressionar os insurgentes. "Estamos num ponto crítico da guerra", disse uma autoridade militar. "Se enviarmos a mensagem de que estamos aliviando, quais os incentivos que o Taleban terá para fazer um acordo conosco?"

Os civis argumentam que as vitórias recentes contra o Taleban e a Al-Qaeda foram resultado de uma estratégia de contraterrorismo e não consequência da dispendiosa missão de contrainsurgência. Reduzir as forças convencionais, segundo eles, não alterará a disposição dos insurgentes em negociar.

"Nossa missão é quebrar e desmontar a Al-Qaeda. A morte de Bin Laden nos mostra que se pode fazer isso com um pequeno número de caras altamente treinados", disse outra autoridade. "Não é preciso Exército e batalhões de marines em dezenas de distritos."

A preocupação com os custos da guerra coloca novas pressões sobre Obama. Na semana passada, a Câmara rejeitou uma emenda que pedia a retirada acelerada do Afeganistão e um cronograma fixo para entregar as operações militares a Cabul. A votação, 215 a 204, foi bem mais apertada do que os 260 a 162, no ano passado, sobre a mesma questão.

No Senado, membros influentes disseram que o custo da guerra merece uma reavaliação da estratégia no Afeganistão. "É insustentável continuar gastando US$ 10 bilhões por mês numa operação militar sem fim à vista", disse o senador John Kerry, presidente da Comissão de Relações Exteriores.

Alguns candidatos presidenciais republicanos também estão começando a pensar melhor sobre o escopo da guerra. Entre os que questionaram o custo está o ex-governador de Utah, Jon Huntsman, que disse ao programa ABC News que o país "precisa avaliar com muito cuidado sua presença no Afeganistão".

Um indício da visão da Casa Branca sobre os custos ocorreu este mês, quando o Conselho de Segurança Nacional rejeitou um pedido militar para expandir as forças de segurança no Afeganistão em 73 mil pessoas.

Preocupado com o custo de manutenção da força - estimado em US$ 6 bilhões a US$ 8 bilhões por ano -, o conselho autorizou o reforço de apenas 47 mil homens - elevando o total de combatentes para 352 mil. "Estamos construindo um Exército que eles jamais terão capacidade de pagar, o que significa que teremos de pagá-lo durante muitos anos", disse outra autoridade.

Para oficiais militares, reduzir as tropas pode não diminuir os custos proporcionalmente, por causa da necessidade de sustentar bases e outras infraestruturas. A intenção deveria ser reduzir as forças americanas em muitas áreas, não retirá-las inteiramente, para facilitar uma transição organizada para os afegãos. "Tirar mais soldados do que seria prudente pode não render as economias que todos desejam", disse um militar.

A redução de tropas começa em julho, mas engenheiros militares e fornecedores continuam expandindo bases por todo o sul do Afeganistão. Em Camp Leatherneck, o principal posto avançado dos marines em Helmand, trabalhadores terminaram recentemente a construção de uma segunda pista capaz de receber o maior jato de carga da Força Aérea.

As dotações suplementares, que incluíram bilhões de dólares para construção e equipamentos, "foram como crack" para os militares, disse um oficial no Afeganistão. "Ficamos viciados em construir." Agir com muito vigor para controlar esses gastos, porém, pode expor a Casa Branca a acusações de que ela está privando os soldados de suprimentos necessários. Por isso, o governo concluiu que a única maneira prática de reduzir custos é reduzir as tropas. "A contagem de cabeças é a única variante que podemos controlar", disse uma autoridade civil envolvida na guerra. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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