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Da América Latina à Ásia, políticos enfrentam a máquina devoradora 

Agora, os protagonistas são as pessoas na rua e os juízes nos tribunais 

Moisés Naím*, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2019 | 05h00

A maioria dos animais não come carne humana. No entanto, existem tigres, leões, leopardos, ursos e crocodilos que, depois de terem-na provado, a incorporam a sua dieta e caçam ativamente os humanos para comê-los. São os chamados de “devoradores de homens”. Depois de terem experimentado a carne humana, eles não podem parar de comê-la.

Algo semelhante está acontecendo com a política. Em alguns países, uma vez que o sistema político aprende a defenestrar o chefe de Estado, costuma fazê-lo periodicamente. Ele os elimina através de um sacrifício ritual que geralmente ocorre em tribunais, parlamentos e na mídia, bem como em praças e ruas. A inquietação social, o revanchismo, a polarização e a rejeição à política que hoje caracterizam muitas sociedades criam o terreno fértil que leva à deposição, ao encarceramento e, por vezes, até à morte dos seus presidentes. 

Como sabemos, esse obscuro, multifacetado e temível animal que devora políticos agora conta com as redes sociais como uma poderosa arma para encurralar, debilitar e eliminar suas presas. Sabemos também que a exasperação e frustração dos eleitores contra política não é nem artificial nem gratuita: a precariedade econômica, a desigualdade, a corrupção e o geralmente fraco desempenho dos governos são a causa final da incitação das máquinas que devoram políticos.

É óbvio que às vezes é saudável e desejável deixar que um chefe de Estado ruim saia antes do final de seu mandato. Isso tem de ser aplaudido, não censurado. O Brasil, por exemplo, deve muito aos juízes que enfrentaram alguns dos mais poderosos políticos e empresários e conseguiram mandá-los para a prisão. A prisão de Luiz Inácio Lula da Silva e de Marcelo Odebrecht são os dois eventos emblemáticos da cruzada anticorrupção que abalaram e ainda sacodem o Brasil. Centenas de milhares de brasileiros indignados com a corrupção reinante, saíram às ruas e criaram o clima que levou à saída da presidente Dilma Rousseff antes de terminar seu mandato. A fera política brasileira que, sem perceber, deu lugar ao agora presidente Jair Bolsonaro, poderia fazer o mesmo com ele.

Na América Central, até parece que o hábitat natural de um ex-presidente é a prisão. De acordo com o jornal mexicano El Universal, dos 42 presidentes que, entre 1990 e 2018, exerceram a presidência de Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá, 19 foram ou ainda estão presos.

O mesmo acontece no Peru, onde vive uma das mais insaciáveis feras que devoram políticos. Pedro Pablo Kuczynski foi forçado a renunciar à presidência em 2018 e, desde então, tem sido submetido a duros procedimentos judiciais. Recentemente, um tribunal ordenou sua prisão preventiva por três anos. 

O ex-presidente Ollanta Humala também foi preso, assim como sua mulher Nadine Heredia. Alejandro Toledo, que foi presidente de 2001 a 2006, é um fugitivo da justiça peruana e, desde 2017, as autoridades pediram sua extradição ao governo dos Estados Unidos. Sua mulher Eliane Karp tem um mandado de prisão e está fora do país. 

Keiko Fujimori, líder da oposição, foi sentenciada a três anos de prisão preventiva, enquanto seu pai, o ex-presidente Alberto Fujimori, de 80 anos, fora condenado a uma longa sentença. A prisão também teria sido o destino de Alan García, presidente duas vezes, se ele não tivesse cometido o suicídio há algumas semanas, dando um tiro na própria cabeça quando a polícia chegou a sua casa para prendê-lo.

Europa e Ásia

Este não é apenas um fenômeno latino-americano, é uma tendência mundial. A máquina de devorar políticos é muito ativa na Europa e a Itália é, talvez, seu exemplo mais extremo. Em Israel, os quatro últimos primeiros-ministros foram submetidos a investigações judiciais por acusações de corrupção.

A Ásia não fica muito atrás. Park Geun-hye, presidente da Coreia do Sul, acusada de corrupção, foi forçada a renunciar e cumpre sentença de 24 anos, que no seu caso equivale a prisão perpétua. Lee Myung-bak, um de seus antecessores acusados de corrupção, foi sentenciado a 15 anos, enquanto outro ex-presidente, Roh Moo-hyun, também envolvido em corrupção, cometeu suicídio. Na Tailândia, Malásia e Indonésia, há situações semelhantes.

Uma das surpresas de todas essas derrubadas é o reduzido papel exercido pelos militares. No passado, os generais eram os protagonistas. Já não são. Agora são as pessoas na rua e os magistrados nos tribunais. O problema é que, às vezes, a pressão da rua transborda para os juízes e os tribunais. E, em vez de fazer justiça, alimentam a fera que mata políticos. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT EM WASHINGTON 

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