Nicolas Asfouri/AFP
Nicolas Asfouri/AFP

Da Ásia à África, China promove suas vacinas para fazer aliados

Promessas ajudam país a se projetar como potência responsável enquanto EUA se afastam da liderança global

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2020 | 03h00

PEQUIM - As Filipinas terão acesso rápido a uma vacina chinesa contra o coronavírus. As nações da América Latina e do Caribe receberão US$ 1 bilhão em empréstimos para comprar o medicamento. Bangladesh receberá mais de 100 mil doses gratuitas de uma empresa da China.

Pouco importa que o país provavelmente ainda esteja a meses de distância da produção em massa de uma vacina que seja segura para uso público. A China está usando a perspectiva da descoberta da droga em uma ofensiva de sedução, com o objetivo de reparar laços esgarçados e fazer amigos em regiões que o governo considera vitais para seus interesses.

Veja, por exemplo, a Indonésia, que há muito tempo tem medo de Pequim. O presidente chinês, Xi Jinping, garantiu ao colega Joko Widodo em uma ligação na semana passada: “A China leva a sério as preocupações e necessidades da Indonésia na cooperação das vacinas”.

Xi elogiou a cooperação dos dois países no desenvolvimento de uma vacina, caracterizando-a como “um novo marco brilhante” das relações, de acordo com um comunicado do Ministério das Relações Exteriores. “Juntas, China e Indonésia continuarão a se solidarizar contra a covid-19”, prometeu ele.

As promessas chinesas sobre a vacina, além das remessas preferenciais de máscaras e respiradores ao redor do mundo, ajudam o país a se projetar como um líder responsável, enquanto os Estados Unidos se afastam da liderança global. As medidas de Pequim também podem ajudar a China a rebater as acusações de que o Partido Comunista deveria ser responsabilizado por seus erros iniciais quando o coronavírus surgiu no país, em dezembro.

A capacidade de desenvolver e entregar vacinas aos países mais pobres também seria um poderoso sinal da ascensão da China como liderança científica em uma nova ordem global pós-pandemia.

“As pessoas estão bastante dispostas a tomar a vacina chinesa”, disse Ghazala Parveen, autoridade do Instituto Nacional de Saúde do Paquistão, onde duas fabricantes de vacinas chinesas estão realizando testes. “Na verdade, as pessoas estão nos pedindo para disponibilizar a vacina o mais rápido possível”.

Segundo algumas métricas, a China está liderando a corrida global por uma vacina contra a covid-19. Tem quatro candidatas na última fase de ensaios clínicos, mais do que qualquer outro país.

Os Estados Unidos têm três vacinas candidatas em estágio final de testes, com a Pfizer afirmando que pode solicitar a aprovação emergencial já em outubro e a Moderna dizendo que espera ter uma vacina até o final do ano. A AstraZeneca, empresa sueco-britânica que recebeu financiamento do governo dos Estados Unidos para desenvolver sua vacina, interrompeu a fase final de seus testes globais esta semana por causa de uma suspeita de reação adversa séria em uma participante.

A China aprovou pelo menos duas vacinas experimentais sob um programa de uso emergencial que começou em julho com soldados e funcionários de empresas estatais e se expandiu discretamente para incluir profissionais da saúde e da aviação. Suas fabricantes de vacinas construíram fábricas que podem produzir centenas de milhares de doses.

Xi declarou que a China transformaria as vacinas desenvolvidas no país em um bem público global, mas seu governo forneceu poucos detalhes.

A China há muito vê a contribuição para a saúde mundial como uma oportunidade de aumentar seu soft power.

“O governo definitivamente gostaria que a China tivesse sucesso na produção de uma boa vacina e que muitos países a desejassem”, disse Jennifer Huang Bouey, epidemiologista e especialista em China da RAND Corp. “É benéfico para sua diplomacia e para mudar a narrativa sobre a covid”.

Mas as empresas chinesas que foram conduzir testes clínicos no exterior geraram polêmica em meio ao temor de que os habitantes locais seriam tratados como cobaias. E, com tantas coisas sobre o coronavírus ainda desconhecidas, as vacinas podem chegar ao último estágio dos testes e acabar falhando.

Apesar da incerteza, Pequim promoveu suas vacinas com confiança e as usou para ajudar a amenizar os atritos.

Nas Filipinas, onde a China está disputando a influência com os Estados Unidos, o presidente Rodrigo Duterte em julho disse aos parlamentares que havia “feito um apelo” para Xi ajudar com as vacinas. Ele também disse que não confrontaria o governo chinês por causa de suas reivindicações sobre o Mar da China Meridional.

Um dia depois, Wang Wenbin, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, disse que o país estava disposto a dar às Filipinas acesso prioritário a uma vacina.

Os líderes chineses fizeram ofertas semelhantes a países da África, América Latina, Caribe, Oriente Médio e sul da Ásia – regiões onde Pequim tem procurado expandir sua influência.

“Prometemos que, assim que o desenvolvimento e a aplicação da vacina contra a covid-19 se concluírem na China, os países africanos estarão entre os primeiros a se beneficiar”, disse Xi em uma reunião com líderes africanos em junho. O chanceler chinês, Wang Yi, prometeu em julho que a China concederia US$ 1 bilhão em empréstimos para a compra de vacinas a países da América Latina e do Caribe, segundo o governo do México.

Apesar de toda a conversa sobre o fornecimento de vacinas como um bem público, a China parece determinada a fazê-lo apenas em seus próprios termos. O país anda reticente sobre ingressar na Covax, um mecanismo apoiado pela Organização Mundial da Saúde que visa ajudar os países a distribuir a vacina contra o coronavírus de forma equitativa. (O governo Trump rejeitou categoricamente a iniciativa).

“Na verdade, já cooperamos com alguns países”, disse Hua Chunying, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, a repórteres na semana passada. “A China sempre cumpre sua palavra”.

Se a China vencer a corrida pela vacina, deverá seu sucesso a alguns desses países, que desempenharam um papel indispensável ao fornecer cobaias humanas às fabricantes de vacinas chinesas.

As farmacêuticas chinesas levaram suas pesquisas para o exterior porque o surto no país está sob controle há meses.

Em Bangladesh, a Sinovac Biotech, fabricante de vacinas com sede em Pequim, está testando sua vacina em 4.200 profissionais de saúde em Dhaka, a capital. A empresa chinesa concordou em fornecer mais de 110 mil doses de vacina gratuitas para o país, de acordo com o Dr. John Clemens, diretor executivo do Centro Internacional de Pesquisa de Doenças Diarreicas de Bangladesh, que está ajudando a conduzir os testes.

Trata-se de uma pequena fração dos 170 milhões de habitantes de Bangladesh, um dos países mais pobres da Ásia. Apesar de sua participação nos testes clínicos chineses, os bengaleses temem que as vacinas resultantes possam ter um preço que estaria fora do alcance da maioria dos cidadãos do país.

“Se qualquer pessoa no mundo vier a ser privada de seu direito a uma vacina contra a covid-19 por causa de direitos de patente e lucratividade, esta seria a maior injustiça do século”, disse Sayedur Rahman, professor de farmacologia na Universidade Bangabandhu Sheikh Mujib em Dhaka.

O Ministério das Relações Exteriores em Pequim enfatizou que a China não buscará estabelecer um monopólio sobre o fornecimento das vacinas. Os relatórios da mídia estatal também rejeitaram as acusações de que a China está usando a vacina como ferramenta diplomática, enquanto acadêmicos apoiados pelo governo afirmam que o fornecimento de vacinas é um gesto altruísta.

“Certamente não haverá precondições”, disse Ruan Zongze, vice-presidente executivo do Instituto de Estudos Internacionais da China. “Como será um bem público global, adicionar quaisquer condições levantaria suspeitas da outra parte”.

Alguns países podem ter poucas alternativas à China.

A Indonésia iniciou a última fase de um ensaio clínico para Sinovac em 1.620 voluntários e assinou um acordo com a empresa chinesa para 50 milhões de doses concentradas de vacina contra a covid-19 que permitiria a uma fabricante de vacinas estatal indonésia, a PT Bio Farma, produzir doses localmente.

Alguns especialistas políticos na Indonésia se preocupam com a influência que a China exerceria sobre o país, mas reconhecem que a Indonésia tem pouca escolha.

“Devemos suspeitar ou devemos agradecer?”, perguntou Muhammad Zulfikar Rakhmat, pesquisador da Universitas Islam Indonesia que pesquisa a política externa da China na Indonésia. “Eu acho que os dois”. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.