Carolyn Kaster/AP/Arquivo
Carolyn Kaster/AP/Arquivo

Da cela da prisão, uma batalha que durou 27 anos

Mesmo atrás das grades, Mandela comanda a luta pela igualdade racial e negocia com o governo o fim do apartheid na África do Sul

O Estado de S. Paulo,

06 de dezembro de 2013 | 00h41

Nelson Mandela passou 27 anos e 6 meses em três prisões. De 1962 a 1979, ele foi o preso 466/64 na Seção B da cadeia de Robben Island. Assim como outros detentos, ele era submetido a uma rigorosa rotina de trabalhos forçados em uma pedreira, vivia em uma cela de 6 metros quadrados com uma janela de 30 centímetros. Dormia no chão até meados dos anos 70, quando a Cruz Vermelha convenceu o governo a colocar camas.

O cotidiano era devastador. "A vida na prisão caiu na rotina", lembraria Mandela em sua autobiografia. "Todo dia se parecia com o anterior. Toda semana era como a anterior. De tal maneira que os meses e os anos se misturavam."

A seu lado estiveram Govan Mbeki, ativista e pai do ex-presidente Thabo Mbeki, Tokyo Sexwale, líder do CNA e hoje um dos empresários mais bem sucedidos do país, Walter Sisulu, maior amigo de Mandela, o militante comunista Raymond Mhlaba e Jacob Zuma, atual presidente da África do Sul.

O governo temia produzir mártires na prisão e, gradualmente, diminuiu as restrições, relaxou a censura e a proibição de comunicação entre presos. Cada vez mais, os detentos se reuniam e a traçavam as estratégias da resistência negra.

Mbeki e Mhlaba acreditavam que a guerra de guerrilha poderia ser feita com bases dentro da África do Sul, como ocorreu em Cuba e na China. Mandela discordava e apostava nos modelos de Angola e Moçambique, que usavam bases em países vizinhos – alternativa viável para a luta armada sul-africana a partir de 1975, depois que ruiu o império português na África.

Na prisão, Mandela conseguiu uma importante concessão: estudar e graduar-se em Direito pela Universidade de Londres. Como detento "classe D" – a classificação mais baixa –, ele podia receber uma carta e uma visita a cada seis meses, desde que não falasse em cossa, zulu ou qualquer língua africana e ficasse separado por uma grossa janela de vidro.

Os presos tinham direito a ler apenas revistas femininas e de jardinagem – o ativista Mac Maharaj, no entanto, recebeu por muito tempo a revista Economist, até que as autoridades descobrissem que ela era um conhecido semanário de notícias.

Na biblioteca, eles tinham acesso a Marx, Tolstoi e Shakespeare. O preferido de Mandela era William Ernest Henley, cujo poema mais famoso, Invictus, ele recitava sempre que podia: "Sou o dono do meu destino, sou o capitão da minha alma."

No fim dos anos 70, Mandela passou a receber mais visitas – foram 15 só em 1978, mais da metade da mulher, Winnie. Em março de 1982, porém, sua história em Robben Island acabou. As autoridades ordenaram que ele fosse transferido para Pollsmoor, prisão de segurança máxima perto da Cidade do Cabo.

Comprada a Robben Island, a nova casa era um luxo: comida, espaço, celas, jornais, conforto, tudo era melhor. Pollsmoor era próxima de centros médicos, caso os presos precisassem de cuidados. Mandela acreditava que a transferência servia para dividir o CNA e reduzir a capacidade de organização do grupo.

No entanto, historiadores concordam que o governo já previa ter de negociar com o CNA e sabia das divisões dentro do grupo. O objetivo teria sido isolar a velha-guarda moderada, como Mandela, dos mais jovens e radicais, como Govan Mbeki, que tinha ligações com os comunistas.

De Pollsmoor, Mandela viu o regime dar sinais de desgaste. A África do Sul sobreviveu às sanções inócuas da ONU, nos anos 60. Para a premiê britânica, Margaret Thatcher, e para o secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, o governo racista era um aliado contra o comunismo. No entanto, após o Levante de Soweto, em 1976, tudo mudou.

Imagens de crianças negras sendo massacradas por policiais brancos correram o mundo. No ano seguinte, a ONU aprovou um embargo de armas. O país foi banido de competições esportivas internacionais. Em 1977, 11 multinacionais americanas se retiraram da África do Sul. Kissinger mudou de lado. Thatcher reuniu-se em Londres com o presidente Pieter Botha e mandou um recado: liberte Mandela.

Botha voltou para casa e teve uma conversa com o ministro da Justiça, Kobie Coetsee. Nos meses seguintes, os dois quebraram a cabeça para tirar o país do isolamento. A solução encontrada foi criar um comitê para negociar com Mandela.

Entre 1988 e 1989, foram 47 reuniões, interrompidas apenas quando Mandela teve de ser internado para retirar dos pulmões 2 litros de água, cuja análise determinou a tuberculose. Os médicos culparam a umidade da cela. Assim, em vez de voltar a Pollsmoor, ele foi transferido para um bangalô dentro da penitenciária de Victor Verster.

As autoridades liberaram as visitas e instalaram um minibar – embora Mandela não bebesse. De vez em quando, ele usava a piscina, mas sempre sob supervisão do guarda-costas, já que ele nunca soube nadar direito.

As negociações avançavam pouco. Mandela queria liberdade para presos políticos e uma democracia plena. Botha não estava pronto para libertar ninguém, queria garantias de que os brancos não seriam subjugados e exigia que o CNA abandonasse a luta armada.

Em agosto de 1989, Botha renunciou. Seu substituto foi o ministro da Educação, Frederik de Klerk, que não tinha nada de reformista. Era um pragmático que gostava de assumir riscos. Um deles foi aprofundar as negociações com Mandela, com quem se encontrou em dezembro do mesmo ano.

Mais tarde, ambos descreveram o primeiro encontro como "encorajador". Embora se tratassem com respeito, eles nunca tiveram empatia. De Klerk, porém, mudaria a história do país ao abrir a sessão do Parlamento, em fevereiro de 1990. Em discurso curto, ele anunciou a legalização das organizações clandestinas e a libertação de presos políticos. No dia 11 de fevereiro, 27 anos e 6 meses depois, Mandela era um homem livre.

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