AP/Markus Schreiber
AP/Markus Schreiber

Da economia à diplomacia: os obstáculos para uma coalizão na Alemanha

Governo tripartite liderado pelos social-democratas ou pelos conservadores, em colaboração com os Verdes e os Liberais do FDP seriam as opções mais prováveis

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2021 | 10h00

BERLIM — Os partidos políticos alemães se propuseram a formar uma coalizão governamental "antes do Natal", depois que as eleições legislativas de domingo produziram resultados bastante equilibrados. 

Um governo com três partidos liderado pelos social-democratas (SPD), que terminaram em primeiro, ou pelos democratas cristãos (CDU), em colaboração com Os Verdes e os Liberais do FDP, seriam as opções mais prováveis. Mas cada uma das partes enfrenta "desafios programáticos bastante fortes", alerta Paul Maurice, especialista em estudos franco-alemães do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI).

A seguir, os temas que provavelmente estarão no centro das negociações:

Orçamento e dívida

A questão orçamentária será um dos principais obstáculos à formação da coalizão. O FDP é um forte defensor da ortodoxia orçamentária. O partido é hostil à modificação da regra constitucional que impõe um freio ao endividamento, impedindo o Estado de tomar emprestado mais de 0,35% do PIB a cada ano, posição que a CDU também defende. 

Os Verdes e, em menor medida, o SPD defendem maior flexibilidade. Os ambientalistas querem tirar esse freio para financiar os investimentos caros que a transição verde exige. 

A única esperança de se chegar a um acordo viria do "desejo" do FDP de entrar no governo para atuar como "corretivo" e impedir que as propostas mais progressistas dos Verdes e do SPD sejam implementadas, considera Paul Maurice.

Políticas sociais e impostos

O SPD fez do aumento do salário mínimo e das aposentadorias uma de suas promessas. Olaf Scholz, o atual ministro das Finança e candidato a chanceler, está sob grande pressão da ala esquerda de seu partido. 

Para reduzir as desigualdades, o partido defende também o aumento dos impostos para os mais ricos e quer reformar o imposto sobre a herança, que deixa de fora boa parte das transferências das empresas familiares, a espinha dorsal da economia alemã. Um objetivo compartilhado pelos Verdes. 

Mas isso é algo difícil para o FDP, que defende cortes de impostos para as empresas e as famílias, aceitar. Os social-democratas, com base nos seus resultados eleitorais, poderão "impor estas questões" aos seus futuros parceiros de coalizão, mas terão de fazer "alterações em benefício do FDP", estima Maurice.

Política externa

Os Verdes se manifestaram claramente contra o gasoduto Nord Stream 2, que conecta a Alemanha com a Rússia, enquanto o SPD apoiou o projeto aprovado no governo de Angela Merkel

O gasoduto já está terminado, mas ainda não entrou em funcionamento, e os ambientalistas reafirmaram na campanha eleitoral que são contra a sua exploração, acusando os social-democratas e conservadores de terem "prestado um péssimo serviço à Alemanha" ao apoiar "um projeto que só beneficia o presidente russo, Vladimir Putin".

Além de uma posição mais dura em relação à Rússia, os Verdes também defendem uma atitude mais intransigente com a China, enquanto as outras partes promovem o diálogo com este parceiro comercial essencial para a Alemanha.

Por outro lado, o partido ambientalista se opôs fortemente à compra de drones de combate para o Exército alemão, enquanto o SPD pede um "debate profundo" sobre o assunto. O FDP, por outro lado, é favorável a essa compra, como a CDU.

Para Entender

Entenda como fica a escolha do chanceler da Alemanha após as eleições

Na Alemanha, cargo de chefe de governo não é escolhido em eleição direta, mas por meio de uma votação na Bundestag, a Câmara baixa do Parlamento, depois que um partido ou coalizão conseguir as cadeiras necessárias para formar um governo.

Clima

Acelerar a transição energética está no centro da agenda dos Verdes. Os ambientalistas querem antecipar o prazo para a Alemanha deixar de usar usinas a carvão de 2038 para 2030. 

Muitos dos liberais do FDP são céticos em relação a essa medida, que favorece a competitividade da indústria alemã e a inovação. 

Os liberais pedem que a meta de se alcançar a neutralidade do carbono —  ou seja a compensação de todas as emissões —  seja transferida para 2050, cinco anos depois do planejado. Os Verdes querem adiantar esse prazo, para 2040. / AFP, REUTERS e AP

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