Da embaixada do Equador, Assange acusa EUA de realizar 'caça às bruxas'

Fim do silêncio. Há 2 meses na missão de Quito em Londres, fundador do WikiLeaks afirma que governo Obama ameaça 'arrastar o mundo ao abismo' da censura e agradece asilo concedido por Correa, líder da 'corajosa nação que tomou partido da Justiça'

LONDRES, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2012 | 03h02

Com um microfone na sacada da Embaixada do Equador em Londres, o fundador do site WikiLeaks, Julian Assange, rompeu ontem dois meses de silêncio acusando o governo americano de conduzir uma "caça às bruxas" contra seu grupo. Ainda segundo Assange, os EUA mantêm uma campanha "ao redor do mundo" contra "jornalistas que iluminam os segredos dos poderosos".

O WikiLeaks havia anunciado no sábado que o australiano de 41 anos faria um pronunciamento ontem pela manhã "diante" da embaixada, onde está abrigado desde junho. Centenas de manifestantes, jornalistas e policiais o aguardavam desde cedo. Mas, como corre o risco de ser preso e extraditado à Suécia - onde responde a duas acusações de crimes sexuais - se colocar os pés para fora da missão diplomática, Assange falou da sacada da mansão no bairro nobre de Knightsbridge.

O fundador do WikiLeaks agradeceu ao presidente equatoriano, Rafael Correa, pela concessão do asilo diplomático, anunciada por Quito na semana passada. "Agradeço a essa corajosa nação latino-americana que tomou partido da justiça", afirmou. Assange leu ainda uma lista de países da região - incluindo Brasil, Argentina e Venezuela - que conseguiram levar seu caso à Organização dos Estados Americanos (OEA), em uma reunião marcada para sexta-feira.

Em seu discurso de menos de dez minutos, o ativista citou violações aos direitos humanos e à liberdade de opinião ao redor do mundo - da banda punk russa Pussy Riot, condenada na semana passada a 2 anos de prisão, à detenção por quase 800 dias, sem julgamento, do soldado americano Bradley Manning, acusado de vazar centenas de milhares de documentos secretos ao WikiLeaks.

As denúncias de ONGs sobre violação da liberdade de imprensa na América Latina, incluindo casos recentes no Equador, não foram citadas pelo ativista.

'Rumo ao abismo'. Assange centrou suas críticas a Washington e a outros governos que supostamente tentam silenciar sua organização, como o da Suécia e o da Austrália.

"Peço ao presidente (Barack) Obama que faça a coisa certa. Os EUA devem renunciar à caça as bruxas contra o WikiLeaks. Os EUA devem acabar com a investigação do FBI (sobre o vazamento de documentos secretos). Os EUA devem se comprometer em parar de tentar processar nossa equipe ou nossos apoiadores", exortou.

Segundo Assange, ao recorrer à Justiça para tentar silenciar o WikiLeaks, os EUA ameaçam "arrastar todos nós a um obscuro e repressivo abismo no qual jornalistas vivem sob o temor de sofrerem processos".

O WikiLeaks afirma que a extradição de Assange para a Suécia seria o primeiro passo para o envio do ativista aos EUA, onde pode vir a ser acusado de espionagem. Se condenado pela Justiça americana como espião, o australiano poderia receber a pena de morte.

Até agora, porém, nenhum tribunal dos EUA abriu ação contra Assange. A Corte no Estado da Virgínia que julgará o caso do soldado Bradley Manning ainda estuda se há provas ligando a fonte militar americana ao fundador do WikiLeaks.

"Se Manning realmente fez as coisas das quais é acusado, ele é um herói, um exemplo para todos nós e um dos mais importantes presos políticos do mundo", afirmou ontem o ativista, que pediu a libertação de Manning.

A Casa Branca vem evitando comentar a crise diplomática entre a Grã-Bretanha e o Equador. Ontem o governo americano apenas afirmou que o destino de Assange está nas mãos dos governos sueco, britânico e australiano.

O fundador do WikiLeaks criticou duramente a ameaça da chancelaria britânica de retirar a imunidade diplomática da missão equatoriana para, em seguida, prendê-lo. Assange disse ter ouvido na semana passada, quando Quito anunciou o asilo diplomático, policiais britânicos subindo as escadas de emergência da embaixada. A Scotland Yard nega ter feito isso. / REUTERS

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