Da frustração adolescente à Jihad

Algo estalou. Eu tinha 13 anos, sonhava com livros e garotas e nada mais – um saudável rapaz holandês de ascendência marroquina que vivia a vida com leveza. Então, alguma coisa estalou e fez com que eu me sentisse diferente dos demais. Um dia, na aula de história, a fatwa contra Salman Rushdie se tornou o assunto. Nosso professor falou em liberdade de expressão; eu falei dos insultos ao Profeta Maomé. Fez-se um silêncio constrangedor. Do que esse tal de Abdelkader está falando? Fat- o quê?

ABDELKADER BENALI, THE NEW YORK TIMES*, O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2015 | 17h00

Mas nosso professor, Sr. Fok, me compreendeu. Ele disse que a fatwa não fazia sentido. Como alguém poderia se ofender com uma obra de ficção? Como o exercício das capacidades da imaginação poderia resultar numa sentença de morte?

Lembro-me de levantar, erguendo a voz enquanto tentava argumentar em defesa da santidade do Profeta aos meus olhos e aos de minha comunidade. E quanto mais o Sr. Fok respondia com uma análise fria e racional, mais eu ficava furioso. Será que ele não percebia que a questão ia muito além da razão e do bom senso? Não percebia que caçoar do Profeta era um crime moral?

Meus colegas olharam para mim como se fosse um louco. Mas ali estava eu, de pé, gritando. Nunca tinha sentido tamanha fúria antes. Não era por causa de um romance, era por causa de mim. De nós. Quis vingança. O Sr. Fok apenas me olhou, surpreendido com minha irascibilidade e um pouco perturbado, me dispensou da aula.

Pela primeira vez em minha vida senti o significado de ser muçulmano. Não queria me sentir daquela maneira. Preferia me misturar, parecer tão normal quanto os demais meninos de minha sala. Depois que a frustração e a raiva perderam força, senti vergonha – por ter decepcionado minha religião, decepcionado minha família, decepcionado a mim mesmo. Vergonha por uma raiva que eu não compreendia.

Cresci numa família marroquina relativamente tradicional. Cumpríamos o Ramadã, mas meu pai raramente ia à mesquita. Havia dois livros em casa, o Alcorão e a lista telefônica. Jamais folheávamos nenhum deles.

Não falamos muitos a respeito da fatwa, mas era impossível ignorá-la. Os muçulmanos protestavam nas ruas de Roterdã. Foi a primeira vez que nos sentimos vistos como parte de uma comunidade que tinha perguntas a responder: de que lado você está? Por que está ofendido? De onde vem essa raiva? Será que o islã pode coexistir com os valores ocidentais?

O mundo não parou de me lembrar que eu era muçulmano. Meu nome, meu passado, minha pele, minha família e os eventos que se desenrolavam no mundo só levaram a um autoquestionamento cada vez mais profundo.

O islã me disse que Deus é um e o Profeta é seu mensageiro. Viva de acordo com os cinco pilares e tudo ficará bem. Mas estávamos vivendo num país não muçulmano. E eu não era holandês, nem secular. Tive de encontrar uma maneira de conciliar meu contexto pessoal religioso com um mundo secular. Senti-me um órfão.

E resolver esse dilema é muito mais difícil numa sociedade secular que parece ter deixado completamente de se debater com essas questões. No fim, não encontrei as respostas em escrituras sagradas. Eu as encontrei na literatura.

Li A Metamorfose, de Kafka, e A Peste, de Camus. Lembrei de meus dias de juventude e de vociferar contra Versos Satânicos. Lembrei de me esgueirar por uma livraria e ver pilhas de exemplares do livro, pronto para ser lido, mas meu inglês era insuficiente para tanto. O livro me afastou; a curiosidade permaneceu.

Quando tinha 17 anos, encontrei Versos Satânicos guardado numa prateleira distante de uma biblioteca escolar. Apanhei o livro, comecei a lê-lo e fiquei encantado. Ali estava um jovem se debatendo com a própria fé num mundo sem fé – um filho imigrante de um lar profundamente religioso lançado num mundo onde tudo é adotado e nada é sagrado. Aquilo confirmou algo que eu já sentia nas profundezas do meu íntimo: uma sociedade livre e aberta é uma ameaça para os religiosos. Sua religião será alvo de ridicularização – às vezes até de supressão – e isso provocará raiva.

E agora está ocorrendo novamente. A ascensão de extremistas que atraem jovens muçulmanos no Ocidente com visões de uma utopia islâmica está provocando náusea entre os muçulmanos europeus. Meninos e meninas deixam suas famílias para serem convertidos em máquinas de matar. Estão partindo não de Bagdá, mas de Bruxelas e Haia. Insistimos que esse não pode ser nosso islã e, se o islã for isso, não o queremos. Mas sei com base em minha experiência pessoal que o poder de atração do extremismo pode ser muito forte quando crescemos num mundo em que a mídia e todos ao nosso redor parecem ridicularizar e insultar nossa cultura.

E os governos europeus não ajudam a combater o extremismo, pois cedem à islamofobia estimulada pelos populistas de direita. O que vejo é uma falta de coragem para aceitar os muçulmanos europeus como genuinamente europeus – como cidadãos iguais aos demais.

Um dos primeiros a serem mortos pelos terroristas em Paris era um de nós: Mustapha Ourrad, redator do Charlie Hebdo nascido na Argélia. Depois eles mataram outro muçulmano: o policial Ahmed Merabet. Os assassinos não tiveram piedade deles. Em nome do islã, mataram muçulmanos. E sempre que um muçulmano europeu vê a imagem dos últimos momentos de Merabet, é a si mesmo que ele vê deitado no chão frio. Indefeso. E a pergunta seguinte será: o que direi amanhã no trabalho ou na escola?

Aquilo que ocorreu na semana retrasada não é uma questão de falta de humor, nem uma dificuldade em entender a arte da caricatura. Não se trata de odiar o Ocidente. O problema é a raiva que entrou por um rumo errado.

O que nos torna humanos e nos faz criativos é nossa capacidade de duvidar. Mas, sozinha, a dúvida pode se converter em raiva e fundamentalismo.

Como disse o autor francês Michel Houellebecq numa entrevista: “As pessoas não conseguem viver sem Deus. A vida se torna insuportável”. Os terroristas encontraram seu Deus numa sociedade sem Deus. O Charlie Hebdo ridicularizou o Deus deles ao dizer que este não passaria de uma charge. Eles voltaram para resgatar seu Deus e deixaram um rastro de 12 mortos. Tornaram-se presas de um delírio poderoso.

Foi o mesmo delírio que senti quando adolescente: a ideia de que ao atacar o mensageiro, a raiva vai desaparecer e seremos vitoriosos. Mas a única maneira de conquistar o próprio sentimento de raiva é compreender onde jazem suas raízes. Para mim, a possibilidade de duvidar, de não tomar partido e de sentir empatia diante de personagens e pessoas com quem discordo foi libertadora. Hoje continuo fiel ao meu passado islâmico, mas sem o dogma, a repressão e a adesão rigorosa aos rituais.

Desde o 11 de Setembro, muitos muçulmanos europeus também duvidaram de seu próprio pertencimento. Seu lugar é a Paris de Voltaire ou a Meca de Maomé? Essa é a pergunta errada.

Os muçulmanos são tão europeus quanto os ciganos, os gays, intelectuais, agricultores e operários de fábricas. Estamos na Europa há séculos, e os políticos e a imprensa precisam parar de agir como se tivéssemos chegado ontem. Estamos aqui para ficar. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

* É ESCRITOR E AUTOR DO LIVRO ‘WEDDING BY THE SEA’

Tudo o que sabemos sobre:
jihadismoterrorismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.