Da guerra afegã ao crime no Norte da África

Apontado como autor do sequestro na Argélia, jihadista que enfrentou URSS hoje fatura com tráfico de cigarros

ARGEL, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2013 | 02h02

A história do argelino Mokhtar Belmokhtar - o misterioso radical islâmico que teria ordenado o ataque à refinaria de In Amenas, no deserto da Argélia, em retaliação aos ataques da França no Mali - pode ser contada pelos apelidos que ele ganhou ao longo dos anos.

Magro e sempre com um turbante preto, o jihadista é conhecido como "O Caolho" em razão do ferimento que lhe marca o rosto desde a luta contra os soviéticos no Afeganistão, nos anos 80. Não se sabe o que exatamente arrancou seu olho esquerdo, mas a cavidade fica à mostra. Nas montanhas afegãs, Belmokhtar teria conhecido bem as táticas e os comandantes da Al-Qaeda, incluindo Osama bin Laden. Ele supostamente deixou o Afeganistão no início de 1993 e passou a servir de ponte entre os líderes da rede global de terror e os militantes do Norte da África.

Dos espiões franceses, ele ganhou o apelido de "O Inalcançável". No início da década passada, operava secretamente sob a bandeira da Al-Qaeda do Magreb Islâmico. A inteligência da França tentou, sem sucesso, capturá-lo várias vezes. Depois, rompeu com o grupo e passou a chefiar duas organizações de combatentes: "Os que Assinam com Sangue" e as Brigadas Khaled Abu al-Abbas. Não está claro o tamanho dessas organizações.

Por último, seus conterrâneos argelinos passaram a chamá-lo de "Senhor Marlboro", em referência à sua principal atividade econômica: o tráfico de cigarros. Belmokhtar também lucrou com o sequestro de estrangeiros, sobretudo europeus, no Norte da África.

As motivações dos jihadistas do Magreb e do Sahel são motivo de amplo debate entre analistas. Alguns afirmam que, buscando criar um califado islâmico e impor a sharia (lei islâmica) na região, insurgentes como Belmokhtar recorrem ao crime - incluindo com coisas vetadas pelo Islã, como o cigarro - para arrecadar fundos. Outros especialistas invertem a lógica: os movimentos se tornaram organizações criminosas com espaço livre para prosperar e, para isso, usam a roupagem da jihad em busca de legitimidade.

Os resgates pagos a Belmokhtar por empresas e governos ocidentais nos últimos anos não são divulgados. Mas, segundo fontes de inteligência, teriam feito do veterano do Afeganistão um milionário em dólares e euros. Belmokhtar já foi condenado à revelia por um tribunal da Argélia, sob a acusação de ter matado e sequestrado argelinos e estrangeiros. / THE WASHINGTON POST

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