Jim Huylebroek/NYT
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Da liberdade duradoura ao fracasso estratégico; leia artigo

Política externa norte-americana não logrou consolidar um governo afegão, criar lideranças políticas na região e instituir uma força de segurança local capaz de promover a estabilidade

Ana Regina Falkembach Simão, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2021 | 05h00

Após vinte anos da espetaculosa ocupação estadunidense no Afeganistão, resta a marca da derrota, da fragilidade, dos equívocos estratégicos e de um melancólico retorno a outubro de 2001. Após os atentados de 11 de setembro, o presidente republicano George W. Bush declarou sua guerra ao terrorismo, com foco em um Afeganistão então comandado pelo grupo armado Taleban, um regime fundamentalista que impunha à sociedade afegã uma série de violências e restrições, sobretudo em relação às mulheres. Num histórico outubro de 2001, os Estados Unidos lançaram a Operação Liberdade Duradoura contra o Taleban, que desde 1996 controlava o país, empurrando os extremistas para a fronteira do Afeganistão. 

Na época, liderado por Mohammed Omar, o Taleban controlava cerca de 90% do Afeganistão. Não era admitido como governo pela ONU, em que pese o reconhecimento por parte de Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Paquistão. Finalmente, o Taleban seria apeado do poder pelo Governo Bush, com apoio da Aliança do Norte, uma organização afegã que tinha como objetivo combater o grupo extremista. Mas, como podemos observar claramente hoje, o Taleban – embora oficialmente fora do comando do país desde 2001 – não perdeu efetivamente seu poder, sobretudo nas regiões fronteiriças do sul e sudeste, tradicionalmente dominadas pelo seu grupo étnico, o Pashtun. 

A saída dos Estados Unidos ao longo dos 20 anos de ocupação sempre foi pauta de seus presidentes. Ao ser empossado em 2009, Obama tinha uma economia em crise, três mil soldados mortos na ocupação do Iraque e um desafio na política externa para o Afeganistão, pois já se contabilizavam seis anos de guerra e reconstrução. O país já havia realizado eleições e a situação das mulheres experimentou uma melhora, mas tudo isso ainda era muito frágil e as forças de segurança afegãs ainda não demonstravam preparo para a defesa diante da presença latente do Taleban.

Isso fez com que os EUA fossem postergando a saída do Afeganistão, ainda que em 2011 o governo Obama tenha logrado sucesso em localizar e matar Bin Laden – o que poderia ter sido o capítulo final desta história. Em que pese seu simbolismo, a morte de Bin Laden mostrou-se menos efetiva do que se imaginou: ao final da gestão Obama ainda havia 10 mil soldados estadunidenses na região e o Taleban continuava a existir e constituir uma ameaça. 

Ao assumir a presidência em 2017, Donald Trump tinha sobre a mesa o mesmo tema, ao qual se referia – conjuntamente com a invasão do Iraque – como as “Guerras Eternas”. Em fevereiro de 2020, os governos dos EUA e do Afeganistão anunciaram um plano de retirada completa das tropas norte-americanas e das forças da Otan. O aperto de mãos entre o diplomata norte-americano Zalmay Khalilzad e o líder político Taleban, Abdul Ghani Baradar, selou o pacto. Os EUA retirariam suas tropas e o grupo extremista se comprometeria em não apoiar grupos terroristas, o que por si só já constitui uma incoerência em termos.  

As cenas de pânico em Cabul, repetidamente mostradas na mídia, atestam os fracassos em série da política externa norte-americana nestes últimos 20 anos, que não logrou consolidar um governo afegão, criar lideranças políticas na região, instituir uma força de segurança local capaz de promover a estabilidade, mesmo depois de investir 1 trilhão de dólares em treinamento e equipamentos militares (ou 2,2 trilhões, segundo estudo da Universidade de Brown, contando gastos indiretos). Como uma estátua que não pode ser derrubada, o Afeganistão atesta um acumulado histórico de equívocos da política externa norte-americana, que parece não compreender a complexidade geopolítica daquela região. 

* É coordenadora da graduação em Relações Internacionais da ESPM Porto Alegre

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