Da obsessão doentia de Fritzl ao pesadelo sombrio de Elisabeth

Pano embebido em éter foi ponto de partida de tragédia incestuosa; condenação à prisão perpétua, o capítulo final

Kate Connolly, THE GUARDIAN, SANKT-POELTEN, ÁUSTRIA, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2009 | 00h00

Parecia um pedido inocente: "Você poderia me ajudar a instalar uma porta no batente?" Elisabeth Fritzl seguiu o pai, Josef, nas profundezas do porão que ele levara meses para construir no jardim, debaixo da casa da família, na cidade austríaca de Amstetten.Era um dia quente de agosto de 1984, o mês em que o cantor Prince lançou seu sucesso Purple Rain, o ônibus espacial Discovery subiu pela primeira vez ao espaço, e o país africano Alto Volta mudou o nome para Burkina-Faso.Elisabeth desceu as escadas do porão e ajudou a colocar a porta que selaria as poeirentas paredes de sua criação subterrânea. Quando se virou para subir, um pano embebido em éter tampou sua boca e o mundo escureceu. Talvez para sempre.Foi o início tremendamente cruel de uma história inacreditavelmente cruel. Elisabeth não tinha como saber que estava ajudando o próprio pai a concluir a última fase do plano que ele montara para emparedá-la ali como sua escrava sexual.Fritzl projetou durante anos o que na realidade era um calabouço e recebeu a autorização da prefeitura para construir seu complicado porão ainda na década de 70. Naquela época, não era difícil obter a aprovação para construções subterrâneas. Era o ápice da Guerra Fria e, afinal, o norte da Áustria encontrava-se na fronteira com a Cortina de Ferro. Os bunkers contra as bombas atômicas eram considerados um complemento mais normal e necessário numa casa austríaca do que uma estufa ou uma ampliação da cozinha seriam em qualquer país do Ocidente - a Câmara Municipal da cidade concedeu-lhe até uma verba para cobrir parte do custo da construção. Os vizinhos ficaram observando intrigados quando o engenheiro eletricista contratou uma pessoa para cavar durante meses no terreno da casa localizada na Ybbsstrasse, número 40, da agradável cidadezinha. Eles observaram quando foram retiradas quantidades enormes de terra da parte de baixo da casa para dar espaço aos cômodos que Fritzl pretendia construir.Planejador cuidadoso, pensou em cada detalhe: encomendou nas empresas de construção para as quais havia trabalhado a compra do material para o concreto e o aço necessários. De início, construiu dois acessos - uma porta pesada munida de dobradiças e outra de metal reforçada com concreto, acionada por controle remoto.Era preciso abrir ao todo oito portas para chegar ao porão. A última porta antes da escuridão de túmulo do porão foi a que Elisabeth, sem saber, ajudou o pai a instalar.Fritzl não teve dificuldade em imaginar o plano. Elisabeth ameaçara fugir de casa várias vezes - soube-se depois que o pai abusara da filha desde que ela tinha 11 anos. Em algumas ocasiões, ela foi levada de volta pela polícia ou pelo pai. Certo dia, chegou à cidade grande, Viena, com uma amiga. Portanto, quando ela desapareceu de um dia para o outro, e o pai contou aos amigos e à família que ela havia fugido mais uma vez para entrar numa seita, todos acreditaram.Na realidade, Elisabeth estava vivendo sob o jardim onde o pai e os parentes costumavam fazer churrascos durante o verão. Anos mais tarde, quando ampliou as acomodações do subterrâneo, Fritzl construiu uma piscina em cima dele, para que a quantidade de terra que teve de cavar não chamasse a atenção. A VIDA NO SUBTERRÂNEONos 24 anos seguintes, o horror foi uma constante na vida de Elisabeth - o frio, a umidade, os ratos, que ela algumas vezes teve de pegar com as próprias mãos, a água que escorria pelas paredes em quantidades tão grandes que tinha de usar toalhas para estancá-la. O verão era a pior época do ano, pois transformava o local em uma insuportável sauna.Durante aqueles anos, Mikhail Gorbachev implementou a perestroika, o reator nuclear de Chernobyl explodiu, o Muro de Berlim caiu. Houve ainda o massacre da Praça Tienanmen e o de Ruanda. Nelson Mandela foi solto e Diana, a princesa de Gales, morreu. O euro foi adotado e um tsunami devastou a Ásia. Sem falar nos avanços tecnológicos - do telefone celular à internet.Para todas as pessoas, o mundo continuava girando, enquanto o de Elisabeth permanecia parado, estagnado. No começo, Fritzl amarrou seus braços e depois os prendeu nas costas da jovem com uma corrente de ferro, que fixou a barras de metal atrás da cama. Ela só podia se movimentar até meio metro de cada lado da cama. Depois de dois dias, ele lhe permitiu maior liberdade de movimento, prendendo a corrente na sua cintura. Após cerca de seis a nove meses de prisão, retirou a corrente de metal porque "atrapalhava sua atividade sexual com a filha", segundo a acusação feita no tribunal.Às vezes, ele a espancava e a estuprava várias vezes ao dia, desde o segundo dia de seu cárcere até sua libertação, em abril de 2008. No decorrer de quase um quarto de século, ele a violentou pelo menos 3 mil vezes. O resultado disso foi o nascimento de sete filhos, que muitas vezes assistiam aos abusos enquanto iam crescendo. Três dessas crianças permaneceriam no subterrâneo, sem jamais ver a luz do dia, até que foram retiradas de lá, em abril.Três apareceram misteriosamente no quintal de Fritzl e da mulher, Rosemarie, em Amstetten, a oeste de Viena - abandonadas, recém-nascidas, conforme alegava Fritzl aos vizinhos, por Elisabeth, que as entregara a ele e a Rosemarie para que as criassem. E tudo isso sem que Rosemarie ou as autoridades suspeitassem de nada.Fritzl ditava para Elisabeth cartas endereçadas a Rosemarie, e às vezes viajava quilômetros de carro para colocá-las no correio. Nelas, Elisabeth explicava que estava bem, mas que não podia cuidar dos filhos. Ela se desesperou por ter de se separar das crianças, embora se alegrasse porque, "lá em cima", teriam uma vida melhor do que os que ficavam para morrer aos poucos debaixo da casa.DEFESAUm dos filhos, um dos gêmeos chamado Michael, nasceu em 1996 e teve apenas 66 horas de vida. Morreu nos braços da mãe, com graves problemas respiratórios.Fritzl reconheceu que posteriormente queimou o corpo da criança em um incinerador - o que foi decisivo para que fosse condenado à pena perpétua -, mas, até admiti-lo na semana passada durante o julgamento, sempre negou ter sido o responsável pelo crime de negligência. Até quarta-feira, Fritzl também negou ter escravizado a filha. Seu advogado, Rudolf Mayer, tentou explicar a decisão de Fritzl de aprisionar a filha e obrigá-la a submeter-se a todos os seus caprichos como "o ato de um pai devotado". A defesa explicou como tudo começou, alegando que Elisabeth era uma menina rebelde. Fritzl só queria protegê-la. Drogas, bebidas e más companhias ameaçavam arrastá-la para uma vida desregrada.O advogado tentou retratá-lo como um homem preocupado com as duas famílias, com as quais gastava tempo e dinheiro. Segundo ele, Fritzl levou livros escolares, um aquário e até uma árvore de Natal ao porão - e também um canário. Por uma macabra ironia, Fritzl disse que o fato de o canário ter sobrevivido é uma prova de que o ar do porão não era totalmente ruim.Durante o período de cativeiro, ele ameaçou repetidamente Elisabeth dizendo: "Se você não obedecer, vai sofrer muito mais e não vai sair viva daqui."Espancava-a repetidamente, agredia-a com pontapés. Também a submetia a abusos sexuais humilhantes, obrigando-a a representar cenas de violentos filmes pornográficos. Ela passou os primeiros cinco anos totalmente só. O pai mal falava com ela.PARTOS E ESCURIDÃODepois vieram as crianças, que para ela foram um horror. Mas, por outro lado, lhe proporcionaram a tão desejada companhia e um objetivo para viver depois de anos durante os quais pensou em se suicidar.Os nascimentos sucederam-se ao longo de 12 anos, sem qualquer ajuda médica. Para prepará-la para esses momentos, o pai deu-lhe desinfetante, um par de tesouras sujas e um livro de 1960 sobre partos.Fritzl ameaçava frequentemente Elisabeth e as crianças. A acusação afirma: "Ele disse que havia instalado um sistema que fazia com que as portas provocassem choques elétricos se tentassem abri-las, e prometeu soltar veneno dentro do porão se tentassem escapar."Ele castigava Elisabeth desligando a luz do porão durante dias a fio para que ficasse sozinha na escuridão total. Ela chorou quando o freezer que o pai instalou no subterrâneo para estocar alimentos enquanto viajava de férias descongelou e começou a vazar água pelo chão do porão já horrivelmente úmido. A LIBERTAÇÃOSeu calvário chegou ao fim em abril, quando Kerstin, sua filha de 19 anos, ficou gravemente doente. Fritzl, que nunca havia sido misericordioso, a levou de carro para o hospital. Os médicos desconfiaram ao ver aquela criatura mortalmente pálida, com dentes péssimos, entre a vida e a morte.A imprensa divulgou apelos para que a mãe aparecesse e fornecesse as informações para que fosse possível salvar a vida da jovem. Elisabeth e seus dois filhos viram os apelos pela TV instalada no porão. Ela implorou ao pai que a deixasse sair. Sentindo as forças desaparecerem, a capacidade de manter duas famílias muito reduzida com a idade e o coração cada vez mais fraco, Fritzl finalmente cedeu. No hospital, contou que a família apareceu de repente na casa dele, depois de fugir da seita com a qual vivia.Mas, dessa vez, os médicos e a polícia não acreditaram na sua história. No hospital, Elisabeth foi levada às pressas para um quarto longe do pai, onde a polícia ameaçou prendê-la pelos maus-tratos sofridos pela filha, da qual, aparentemente, ela não cuidara.Elisabeth contou uma história completamente diferente da que eles esperavam ouvir, com a condição de que prometessem que nunca mais na vida teria de olhar para o pai. TRADUÇÃO DE ANNA MARIA CAPOVILLA

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