Dá para piorar?

Massacre expõe problemas do governo queniano

O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2015 | 02h03

Daisy Onyango, de 20 anos, passou 12 horas escondida enquanto homens armados que tinham invadido a Universidade de Garissa, no nordeste do Quênia, iam de um dormitório estudantil a outro assassinando seus colegas. De uma janela, Ango via soldados quenianos. Por que, se perguntava, eles não vinham socorrê-la?

Era dia 2 de abril. Quando anoiteceu, as tropas finalmente invadiram as instalações. Em poucos minutos, deram cabo dos algozes dos estudantes. Formado, ao que tudo indica, por um comando de quatro indivíduos, os assassinos eram membros do Al-Shabab, grupo de islamistas fanáticos que tenta tomar o poder na Somália e tem atacado no Quênia, depois que Nairóbi enviou tropas à Somália.

Situada na fronteira, Garissa é uma pequena cidade numa região miserável, ocupada majoritariamente por indivíduos de etnia somali. A maioria dos estudantes vem, como a jovem Onyango, de outras partes do país.

Ao longo do dia, ela e outros escutaram terroristas fazendo provocações e rindo, enquanto torturavam e matavam colegas dizendo-lhes que a missão do Al-Shabab era "matar e ser morto". Aparentemente sem pressa, eles conjecturavam em voz alta sobre o local onde soldados quenianos estariam.

Enquanto isso, testavam o conhecimento que os estudantes tinham do Alcorão, eliminando os que erravam as respostas. Alguns tiveram gargantas cortadas. Outros foram mortos a tiros. Segundo relatos, houve também decapitações.

As alunas saíram dos esconderijos quando os terroristas lhes garantiram que o Alcorão proibia assassinato de mulheres. Algumas, antes de serem mortas, foram obrigadas a ligar para os pais e dizer que o governo queniano, cuja ação teria resultado na morte de somalis e muçulmanos, era o responsável pelo que estava acontecendo com elas.

No fim do dia, havia 142 estudantes mortos. A eles se somavam seis outras vítimas, entre policiais e soldados, e os quatro terroristas. Excluindo-se o atentado a bomba contra a Embaixada Americana em Nairóbi, em 1998, quando morreram 213, foi o ataque mais sangrento no país desde a independência, em 1963.

O presidente Uhuru Kenyatta decretou três dias de luto e jurou vingar-se. Sua primeira medida foi ordenar o bombardeio de dois campos de treinamento que o Al-Shabab mantém em território somali, junto à fronteira. Cinco somalis foram presos por suspeita de envolvimento com o atentado.

O presidente do Banco Central do Quênia suspendeu a licença para remessas em dinheiro de 13 companhias somalis e, segundo o jornal queniano Daily Nation, congelou as contas de 86 indivíduos e entidades "suspeitas de financiar atividades terroristas no país".

Ataques islâmicos têm aumentado desde 2011, quando o Quênia enviou tropas à Somália para combater o Al-Shabab, que em 2012 declarou filiação à Al-Qaeda e controla áreas no centro e no sul do país. Desde então, o grupo já matou mais de 400 pessoas no Quênia.

Em setembro de 2013, um atentado ao shopping center de luxo Westgate, em Nairóbi, fez 67 vítimas. Em junho do ano passado, foram 60 mortos na cidade de Mpeketoni, perto da ilha de Lamu. Em novembro e dezembro, o grupo matou 36 funcionários de uma pedreira e mais 26 pessoas em um ônibus.

Essas atrocidades foram realizadas perto da cidade de Mandera, no extremo nordeste. Em todas as ocasiões, os militantes do Al-Shabab pouparam muçulmanos e mataram os demais.

As críticas à demora e à incompetência do governo no atentado em Garissa não tardaram. Um porta-voz do Ministério do Interior disse que não foi "tão ruim" quanto a desastrosa reação ao atentado ao Westgate, quando forças de segurança levaram quatro dias para dominar quatro terroristas - e ainda saquearam o shopping.

A imprensa, porém, chegou a Garissa muito antes da General Service Unit, unidade supostamente de elite que levou sete horas para atravessar - por terra e ar - os 360 quilômetros que separam Nairóbi da cidade. Ao que parece, a polícia e as forças do Exército aquarteladas em uma base perto de Garissa não tinham condições de enfrentar os jihadistas. Além disso, apesar das advertências de que a universidade poderia sofrer um atentado, apenas dois vigilantes haviam sido deslocados para proteger os estudantes.

Na véspera do ataque, o presidente Kenyatta havia feito críticas duras aos governos ocidentais por desaconselhar seus cidadãos a visitar partes do Quênia, mencionando especificamente a cidade de Garissa. Depois do atentado ao Westgate, Kenyatta relutou em demitir ministros e generais da área de segurança, ainda que por fim algumas cabeças tenham rolado. Desta vez, espera-se que ele tome atitudes bem mais enérgicas.

Uma preocupação em especial é que o apelo da violência islamista já não se restringe aos bolsões extremistas existentes entre os mais de dois milhões de somalis que vivem no Quênia, tendo se espalhado também por grupos descontentes da comunidade muçulmana do país, sobretudo no litoral, que atrai muitos turistas. O atentado de Garissa foi executado na véspera do aniversário do assassinato de um importante clérigo de Mombaça, principal cidade portuária do país. Conhecido como Makaburi, o religioso defendia a jihad.

Muitos muçulmanos jovens que vivem no litoral temem ser alvo da ação repressiva que as autoridades certamente lançarão em resposta à carnificina de Garissa. Nos últimos anos, esses jovens têm acusado as unidades de combate ao terrorismo do governo de práticas que envolvem assassinatos extrajudiciais, desaparecimentos de pessoas e prisões arbitrárias.

Em áreas pobres, como Garissa, as acusações se estendem aos quenianos do interior, incluindo membros da tribo Kikuyu, a mais rica do país e da qual faz parte o próprio Kenyatta. Essas pessoas estariam adquirindo grandes porções de terra com finalidades especulativas. Acredita-se que, partindo de Lamu em direção a futuros campos de petróleo no noroeste do Quênia e no sul do Sudão, uma ferrovia e um oleoduto passariam perto de Garissa.

O governo do presidente Kenyatta já enfrenta fortes críticas em todo o país em virtude da descoberta de um esquema de corrupção de grandes proporções que beneficiava integrantes da elite no poder. Se o presidente não conseguir ser mais efetivo desta vez no combate ao Al-Shabab e a seus aliados nativos, a insatisfação popular pode sair de controle.

© 2015 THE ECONOMIST

NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM

WWW.ECONOMIST.COM.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.