Da Tunísia, a faísca que incendeia as ruas

No berço da Primavera Árabe, cidadãos protestam por emprego e para definir os novos rumos do país

O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h09

É meio-dia de uma quarta-feira de inverno em Sidi Bouzid, capital da província de mesmo nome, 270 quilômetros ao sul de Túnis, a capital da Tunísia.

Ao lado da entrada da prefeitura, de frente para o lugar onde o vendedor de frutas Mohamed Bouazizi se imolou, há exatamente um ano hoje, desencadeando uma onda de revolta que se espalhou pelo mundo árabe, há uma tenda com três homens deitados. Eles fazem greve de fome.

A seu lado, uma mulher faz um protesto, assistido por cerca de 50 pessoas. Os três homens contam que estão sem comer há dez dias, tomando apenas água e açúcar (e fumando).

"Queremos emprego", diz Hafed Kodmi, de 28 anos, formado há 4 anos em engenharia mecânica; a seu lado, Mohamed Guachi, de 27 anos, formado em história há 6, e Fakei Jebli, de 27, que terminou o curso de filosofia há 5 anos. Os três dizem que nunca tiveram emprego, e desde que começaram seu protesto nenhuma autoridade veio conversar com eles.

"Nada mudou depois da revolução", reclama Kodmi. "Se não conseguir emprego, vou ficar até morrer."

"Vocês precisam se mexer, se manifestar, ou vão se arrepender", grita à pequena multidão Sameh Bouazizi, que tem o mesmo sobrenome que o famoso vendedor de frutas, mas não é seu parente.

Formada há 9 anos em direito, ela diz que nunca teve emprego. "O governo não nos dá nada de graça. Vocês querem acabar como Mohamed Bouazizi?", pergunta ela. E, então, começa a gritar: "Emprego!"

Sameh diz que ela e outros manifestantes tentaram várias vezes, sem sucesso, ser recebidos pelo prefeito de Sidi Bouzid, Nabil Nsiri, nomeado depois da revolução de janeiro pelo governo de transição; assim como Mohamed Bouazizi, que foi para a prefeitura reclamar porque os fiscais haviam confiscado sua mercadoria, mas ninguém quis ouvi-lo.

"As coisas pioraram depois da revolução, por causa dos problemas econômicos", afirma o vendedor de frutas Hassan Massoudi, de 41 anos, que diz que era amigo de Bouazizi: "Às vezes íamos tomar cerveja depois que ele rezava."

Segundo Massoudi, "antes as pessoas podiam comprar frutas, agora não podem mais". Ele conta que compra o quilo da maçã por 3,65 dinares (US$ 2,43) e o vende por 5 dinares (US$ 3,33). Na semana anterior, havia ganhado 40 dinares (US$ 26,66).

Dificuldades. "A vida das pessoas não mudou, continuam ganhando 200 dinares (US$ 133) por mês, mas agora temos liberdade, a Tunísia está igual aos EUA", compara, em Túnis, o professor de matemática Faleh Aouadhi, de 33 anos, que viveu 12 anos em Detroit.

"Antes, quando eu falava com meu pai pelo telefone e perguntava alguma coisa sobre o presidente, ele desligava, com medo de grampo", recorda.

O que não falta agora na Tunísia são manifestações. Nas últimas semanas, militantes seculares têm saído às ruas para reivindicar a modificação do Artigo 8.º da Constituição, que estipula que a Assembleia Constituinte pode transferir seus poderes legislativos ao primeiro-ministro. Eles exigem ainda maioria de dois terços para a aprovação de artigos da Constituição e maioria simples (50% mais 1) para destituir o governo.

A intenção dos seculares com essas medidas é limitar os poderes do partido islâmico moderado Ennahda, que venceu as eleições de outubro para a Assembleia Constituinte.

Protesto. Já os salafistas, islâmicos radicais, ocuparam há duas semanas o campus da Faculdade de Letras, Artes e Ciências Humanas de La Manouba, em protesto porque uma aluna foi impedida de entrar de niqab, a vestimenta preta que cobre todo o corpo, deixando só os olhos à mostra.

A faculdade alega que não tem como identificar a moça. Em reação à ocupação, professores e estudantes fizeram greve geral. O reitor da faculdade, Habib Kazdaghli, não permitiu a entrada da polícia, para preservar a "autonomia" da instituição.

Sob o governo provisório do primeiro-ministro Beji Caid Essebsi, que participara do gabinete antes da ascensão de Zine el-Abidine Ben Ali, a Tunísia vive uma efervescência pós-revolucionária, espécie de choques colaterais depois de um grande terremoto.

Punições. No dia 29, um tribunal militar emitiu a primeira condenação contra Ben Ali, exilado na Arábia Saudita. O ex-ditador, que ficou no poder 27 anos, até renunciar em 14 de janeiro em meio a uma convulsão social, foi sentenciado a 5 anos de prisão pela tortura de 17 militares acusados de tentativa de golpe em 1991.

Outros oito ex-integrantes do regime também foram condenados a penas de 3 a 5 anos, em regime fechado. A pena envolve também o pagamento de 50 mil dinares (US$ 33 mil) em indenização.

"A revolução está apenas começando", diz Chokri Belhedi, webdesigner de 24 anos, que participou dos protestos em Sidi Bouzid e recentemente ajudou a fundar a ONG Escola Cidadã, que vai fiscalizar os deputados constituintes eleitos em outubro, comparando seus compromissos durante a campanha com sua atuação na Assembleia. "Ainda temos muitos objetivos a conquistar. Mas estamos no caminho certo."

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