Mario Tama/Getty Images/AFP
Mario Tama/Getty Images/AFP

Dados confusos e incompletos atrapalham a resposta à pandemia nos EUA

Dados criticamente importantes a respeito de vacinações, infecções, hospitalizações e mortes estão dispersos por departamentos de saúde locais, com frequência desatualizados, são difíceis de agregar em nível nacional

Joel Achenbach e Yasmeen Abutaleb /Washington Post, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2021 | 15h00

WASHINGTON - O controvertido e confuso debate das semanas recentes a respeito das doses de reforço vacinal contra o coronavírus evidenciaram uma vulnerabilidade fundamental na capacidade dos Estados Unidos de responder a uma crise de saúde pública: dados bagunçados.

Quantas pessoas foram infectadas até agora? Ninguém sabe ao certo, em parte em razão de testagens insuficientes e relatórios incompletos. Quantas pessoas totalmente vacinadas foram infectadas mesmo assim? O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) decidiu acompanhar somente uma fração desses casos. Quando pessoas vacinadas precisam de doses de reforço? As autoridades americanas tentando responder a essas questões tiveram de se basear largamente em dados de outros países. 

Dados criticamente importantes a respeito de vacinações, infecções, hospitalizações e mortes estão dispersos por departamentos de saúde locais, com frequência desatualizados, são difíceis de agregar em nível nacional — e simplesmente não podem ser usados no combate a um patógeno altamente transmissível e sorrateiro.

“Estamos voando às cegas”, afirmou Ali Mokdad, epidemiologista do Instituto de Métricas e Avaliações de Saúde da Universidade de Washington, que trabalhou por décadas no CDC. “Com todo nosso dinheiro, todo nosso conhecimento, deixamos a peteca cair… Nós não temos dados em mãos. Não temos um bom sistema de monitoramento que nos mantenha informados.”

A carência de dados oportunos e abrangentes prejudicou a capacidade das mais graduadas autoridades de saúde do país e de especialistas em doenças infecciosas de chegar a um consenso a respeito da necessidade de doses-extra de vacina. Os especialistas analisaram dados conflitantes de Israel, Reuno Unido e EUA — e formularam uma desconcertante lista de recomendações. O debate pareceu confundir mais do que esclarecer a necessidade de uma dose adicional de vacina.

“Estamos usando dados de fontes completamente diferentes”, afirmou uma graduada autoridade de saúde, que falou sob condição de anonimato porque não está autorizada a discutir publicamente o assunto. “Estamos tentando montar esse quebra-cabeça para saber… qual é a eficácia da vacina? E existe essa ampla divergência, que não é conciliável.”

Dados são essenciais para uma resposta eficiente a uma pandemia — e a falta de dados tem atrapalhado a resposta dos EUA reiteradamente. A falta de testagens e também de relatórios padronizados de casos e mortes prejudicou a percepção das autoridades americanas a respeito do tamanho da crise quando o vírus começou a se espalhar. Dados insuficientes também resultaram em atrasos no envio de insumos a cidades mais atingidas. Autoridades estaduais e federais tomaram decisões a respeito de restrições a viagens e políticas de reabertura com base em noções incompletas do que estava acontecendo.

Muitas localidades foram obrigadas a interromper atividades antes de enfrentar surtos substanciais, afirmou ao Washington Post Scott Gottlieb, ex-comissário da FDA, a agência de vigilância sanitária dos EUA, e quando o vírus finalmente chegou, algumas comunidades resistiram em retomar as restrições.

“No início, o CDC não conseguia nos informar nem o número de pessoas hospitalizadas por covid”, afirmou Gottlieb.

Múltiplos fatores ocasionam esse déficit de dados. Primeiro de tudo: os EUA não possuem um sistema público e nacional de saúde, como Israel ou o Reino Unido, e durante uma pandemia, têm de se apoiar em uma estrutura de saúde vasta e descentralizada notoriamente mal financiada e cheia de brechas. Como resultado, não há maneira simples de rastrear infecções ou consequências em fatias amplas de população.

Outros obstáculos para reunir os dados podem ser sistemas computacionais que não se comunicam entre si e instituições médicas com interesses privados. Algumas redes hospitalares preferem se apoiar em dados próprios, afirmou Michael Kurilla, diretor da divisão de inovação clínica do Centro Nacional para Avanços em Ciências Translacionais, dos Institutos Nacionais da Saúde.

“Eles não querem necessariamente fornecer todos os dados porque os consideram uma potencial fonte de lucro”, afirmou Kurilla.

O CDC compila estatísticas nacionais coletando dados em cada Estado e localidade, mas essas jurisdições com frequência usam metodologias diferentes de contagem de testes, infecções e até mesmo de mortes. Os dados podem passar dias ou semanas sem ser submetidos ao CDC. Muitas jurisdições menores ainda compartilham dados por meio de antiquados equipamentos de fax.

“Ainda operamos em um sistema similar ao século 19”, afirmou Kurilla. “É muito difícil apontar o dedo precisamente ao culpado. Há sistemas em que os registros são feitos no papel, com informações enviadas por fax e sendo transcritas. Não há nenhuma maneira de digitalizar informações de maneira uniforme.”

O governo Biden colocou em prática recentemente um plano de prontidão que aspira “fundamentalmente transformar nossas capacidades de proteger o país”.  Um elemento seria a modernização da digitalização de dados sanitários, por meio de um software padronizado que permitiria a diferentes jurisdições compartilhar e analisar dados.

O problema dos dados é reconhecido por autoridades federais e especialistas independentes há muitos anos, afirmou o conselheiro científico de Biden, Eric Lander, em entrevista concedida na quarta-feira.

“Trata-se de uma questão que concerne os sistemas de saúde público e privado como um todo. Nos EUA, nossos sistemas de dados não são interoperáveis, não conversam entre si”, afirmou Lander.

A tarefa de colher e analisar dados é trabalhosa demais atualmente e prejudica avaliações de situação durante uma crise, afirmou ele.

“Se levamos semanas para depurar dados… isso significa que ficaremos para trás na guerra que estamos lutando. Não é assim que se enfrenta uma pandemia”, afirmou  Lander.

A solução para esse problema não virá da noite para o dia, mas não deverá tardar mais do que dois ou três anos, estimou ele. O financiamento insuficiente de departamentos públicos de saúde está na raiz do problema, afirmou ele. Fornecer aos organismos softwares acessíveis e padronizados para processar dados “será útil não apenas na próxima pandemia, será útil também para enfrentar o próximo surto gripe, o próximo surto de sarampo”.

O CDC está encarregado de dar sentido à colcha de retalhos de dados oficiais e emite regularmente relatórios a respeito de surtos. Mas críticos afirmam que o ritmo de trabalho do CDC é vagaroso demais, como se a agência fosse uma instituição acadêmica e não fosse responsável por respostas imediatas a crises. A reprimenda de longa data afirma que o CDC se baseia fortemente em em estudos retrospectivos e não compartilha esses resultados prontamente — nem mesmo com outras agências sanitárias. O CDC enfatiza tradicionalmente o rigor empírico em detrimento da velocidade, uma aspiração em conflito com as demandas de uma emergência sanitária em rápida evolução.

“Eles publicam relatórios de três meses atrás, e não dá para fazer isso durante uma pandemia em que as coisas se transformam tão rapidamente”, afirmou Walid Gellad, professor associado da Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh, que criticou a iniciativa inicial do governo de aplicar doses-extra de vacina em todos os adultos, qualificando a decisão como prematura.

“Em um período de três meses, tivemos uma enorme alta nos casos, depois, a maior baixa que já tínhamos visto e agora outra alta. Não dá para contar com dados desatualizados em uma emergência sanitária que muda tão rapidamente quanto a da covid”, afirmou ele.

Em resposta a questionamentos do Post, o CDC afirmou ter compartilhado resultados de numerosos estudos de eficácia vacinal ao longo dos dois meses recentes, que ajudaram a  no debate a respeito da necessidade de doses de reforço. A porta-voz do CDC Kristen Nordlund afirmou em um comunicado que esses estudos mostraram que as vacinas são eficazes na redução do risco de desenvolvimento de casos graves de covid, hospitalizações e mortes decorrentes da doença, mas que a imunidade em relação ao coronavírus pode baixar com o tempo e ser menos eficaz na proteção contra a variante delta. Ela acrescentou que a agência publicará todos os dados que possui a respeito de eficácia da vacina em um só lugar na quinta-feira.

“Mesmo vacinas altamente eficazes com frequência perdem a eficácia com o passar do tempo, e o acompanhamento disso pode demorar”, afirmou Nordlund. “Confiamos nos dados dos colegas israelenses e britânicos porque a epidemiologia dos surtos em seus países, sua experiência com a variante delta e o uso de doses-extra antecederam os acontecimentos nos EUA.”

Muitos no CDC reconhecem que a agência precisa trabalhar com mais rapidez. Em agosto, a diretora do CDC Rochelle Walensky anunciou planos de desenvolvimento de um novo centro de projeções e análises epidemiológicas para analisar dados em tempo real e prever com mais eficiência ameaças sanitárias, que deverá ser inaugurado no início do próximo ano.

Os dados do CDC tiveram pouca influência na decisão pelas doses de reforço, afirmaram em entrevista graduados funcionários do governo, em parte porque Israel vacinou sua população mais rapidamente do que os EUA e foi atingido pela variante delta semanas antes, produzindo um conjunto de dados que se estendeu por um período maior.

Autoridades do governo e especialistas independentes afirmam, porém, que o CDC deveria ter compartilhado suas próprias descobertas a respeito da eficácia da vacina mais rapidamente, em vez de esperar até que os resultados estivessem prontos para publicação, entre o fim do verão e o início do outono.

O CDC também foi criticado por sua decisão, na primavera, de parar de registrar todos os casos novos e, em vez disso, registrar apenas os que resultassem em hospitalização. A agência afirmou que seria capar de compilar dados mais precisos e completos de seus estudos que acompanham milhares de pessoas testadas regularmente e monitoradas em relação a novas infecções. Críticos da decisão afirmam que os formuladores de políticas precisam de tanta informação em tempo real quanto possível a respeito de novas variantes que possam causar surtos, mesmo que pequenos, mas alguns especialistas argumentam que esses estudos mais específicos apresentam resultados mais claros e confiáveis — e aplicam melhor os recursos da agência.

Mas mesmo os resultados desses estudos mais específicos são com frequência difíceis de se obter. Enquanto autoridades do governo debatiam, em julho e agosto, se os EUA precisariam aplicar doses de reforço, elas imploravam repetidamente ao CDC que compartilhasse suas conclusões, afirmaram várias fontes familiarizadas com essas conversas, que falaram sob a condição de anonimato por causa da confidencialidade das discussões. Como resultado, as autoridades se basearam inicialmente em dados de Israel e em estudos conduzidos pela Mayo Clinic, no Estado de Nova York, e pela Kaiser Permanente.

“Não há maneira de conectar nacionalmente neste gigantesco país quem foi vacinado com os resultados disso, este é o problema fundamental”, afirmou Gellad. “Sempre que temos de juntar um quebra-cabeça com muitos dados, muitos deles contraditórios, a coisa pode ficar confusa.” /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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