Dados dos EUA sobre Irã não são confiáveis

CIA não consegue obter informações precisas sobre o programa nuclear do país

JOBY WARRICK, GREG MILLER, WASHINGTON POST / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2012 | 03h03

Há mais de três anos a CIA enviou um drone para inspecionar o Irã. O avião penetrou mais de 950 quilômetros dentro do país, capturou imagens de uma instalação nuclear secreta em Qom e retornou. Enquanto isso, analistas da CIA procuraram sinais de que o avião tinha sido detectado pelas defesas aéreas de Teerã.

"Não encontramos a mínima alteração", disse um ex-oficial da inteligência. Os drones Stealth da CIA esquadrinharam dezenas de locais pelo Irã, sobrevoando centenas de instalações suspeitas até que, em dezembro, uma versão do avião caiu em território iraniano.

As inspeções são parte do que os americanos descrevem como um reforço da inteligência direcionada para o programa nuclear do Irã, que vem aumentando desde o governo de George W. Bush. Essas novas medidas abrangem escutas, a formação de uma força-tarefa de analistas em imagens de satélites e uma rede ampliada de espiões.

No momento em que se retoma o debate sobre necessidade de um ataque militar para refrear o Irã, a coleta de informações da inteligência tem reforçado a opinião da Casa Branca de que será preciso um alerta antecipado de qualquer atividade iraniana para montar uma bomba.

"No geral, o nosso acesso aumentou de maneira significativa", disse uma ex-autoridade americana que tem participado das discussões. A ampliação dos trabalhos no campo da inteligência coincidiu com uma campanha secreta da CIA para sabotar o programa nuclear iraniano e permitiu reforçar as sanções econômicas para tentar aplacar a determinação do Irã.

O governo americano citou novos informes de inteligência ao se declarar contra um ataque preventivo de Israel contra as instalações nucleares iranianas. As autoridades israelenses têm insistido numa resposta agressiva, afirmando que o país está se aproximando do que é chamada "zona de imunidade", em que o Irã poderá rapidamente se transformar em um potência nuclear.

A Casa Branca argumenta que os iranianos não estão decididos a produzir a bomba e levarão no mínimo um ano para sua fabricação se iniciassem um programa intensivo agora. "Mesmo no pior caso, há tempo para o presidente executar as opções", disse um oficial do alto escalão.

A inteligência ampliada também fortalece a posição do governo para negociar antes de conversações marcadas para sexta-feira. Os EUA e cinco outros países - Rússia, China, Grã-Bretanha, França e Alemanha - deverão pressionar o Irã para que aceite restrições a seu programa nuclear. Uma exigência importante, segundo diplomatas ocidentais, é que o país suspenda a produção de urânio enriquecido. Em troca, o Irã seria autorizado a manter um programa de energia nuclear para fins comerciais sob supervisão internacional. No entanto, não está claro se o país concordará com as restrições.

Avanços. A CIA não quis comentar a natureza das suas operações contra o Irã. Funcionários familiarizados com o assunto reconhecem que houve alguns contratempos e alguns aspectos permanecem obscuros, incluindo cálculos feitos pelos clérigos e políticos do país.

Teerã garante que seu programa é pacífico, mas especialistas não acreditam. "Eles foram pegos de surpresa no passado e agora fazem o máximo possível para ocultar os avanços", disse Olli Heinonen, inspetor nuclear da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Embora as agências de espionagem tenham tido sucesso ultimamente, disse ele, "elas estão atirando contra um alvo movediço".

Uma dessas operações contra o Irã foi divulgada no ano passado, quando um drone, que partiu de uma pista no Afeganistão, caiu em território iraniano. Triunfantemente, as autoridades em Teerã reivindicaram a derrubada do drone e divulgaram fotos que mostravam o avião aparentemente inteiro. Segundo os EUA, o drone caiu em razão de uma falha técnica.

Apesar do contratempo, os americanos disseram que alguns voos de inspeção continuam e os danos à espionagem foram limitados. Isto porque os drones são uma pequena parte de uma campanha de espionagem mais ampla, que envolve interceptação de comunicações eletrônicas e imagens de satélite.

Os esforços da CIA continuaram sob a direção de Leon Panetta, que firmou parcerias com serviços de inteligência aliados na região e capazes de recrutar espiões para missões dentro do Irã. Mas a agência teve problemas. Shahram Amiri, um desertor iraniano e cientista que trabalhava no programa nuclear, recebeu US$ 5 milhões e foi transferido para Tucson. Em 2010, porém, ele abandonou o país e voltou para Teerã, dando às autoridades iranianas uma vitória de propaganda e informações sobre o que a CIA quer saber.

Evidências. "O dano real foi para a imagem", disse um ex-funcionário da CIA, referindo-se ao retorno de Amiri para o Irã. Os esforços de espionagem ampliados confirmam a opinião unânime da comunidade da inteligência dos EUA, de que Teerã ainda não decidiu fabricar uma ogiva nuclear. "Não é a ausência de evidências, mas a evidência de uma ausência", disse um ex-agente da inteligência. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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