Dalai-lama pede ajuda de Lula

Em entrevista ao ?Estado?, líder tibetano diz que o Brasil precisa falar com vigor sobre democracia com Pequim

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2009 | 00h00

O líder espiritual tibetano dalai-lama pede para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fale de "democracia e liberdade" com a cúpula chinesa. "O Brasil ganhou sua democracia, o que foi muito importante para o País. Agora, com o peso que o Brasil tem no mundo, precisa defender esse valor", disse o dalai-lama em entrevista ao Estado. "O presidente Lula precisa tocar no assunto com vigor quando tratar com a China", afirmou o líder tibetano no exílio. O dalai-lama, que ontem esteve em Genebra, fez duras críticas contra o governo de Pequim. "Para ser uma superpotência, a China não poderá contar apenas com os lucros. Só o dinheiro não garantirá uma boa imagem da China no mundo. Verdade e transparência serão essenciais. Isso será fundamental para a imagem da China no futuro", disse. "A realidade é que muitos países, até mesmo os EUA, têm uma relação muito próxima com a China. Mas, ao mesmo tempo, têm desconfianças em relação ao regime", declarou. "Todos os países que se apoiam na democracia para legitimar seus governos precisam defender os mesmos princípios em relação ao governo chinês." Ainda ontem, em uma entrevista coletiva, o dalai-lama acusou Pequim de estar "enganando o povo chinês". "Não há outra alternativa para a China a não ser a democracia. A política para as minorias fracassou, grande parte da corrupção hoje é cometida por membros do Partido Comunista, que não é mais de trabalhadores. É dos milionários influentes", afirmou. "Tanto o marxismo quanto o dinheiro fracassaram em trazer a paz na China. Eu mesmo, em 1954, me entusiasmei com o comunismo. E cheguei a pedir para entrar no Partido Comunista. Era jovem e meio revolucionário. Mas hoje a China é um país capitalista e totalitário", disse o dalai-lama. "Chegou a hora de o Partido Comunista aposentar-se, depois de 60 anos."TIBETEEle insiste que o Tibete não quer sua independência da China. "Queremos autonomia. A política externa e a defesa têm de ficar com Pequim. Mas queremos administrar a educação, a saúde e as questões religiosas." Segundo o dalai-lama, 4 mil pessoas ainda estão detidas por Pequim desde o ano passado, quando ocorreram violentos protestos no Tibete. "Esses protestos não nasceram da noite para o dia. Foi o ressentimento de gerações que explodiu.Há uma crise e precisamos admitir isso", afirmou."Se a situação não for resolvida, esse ressentimento aumentará. Precisamos encontrar uma solução realista e pacífica." Para ele, uma das saídas é a garantia de um maior desenvolvimento para a região. Outra estratégia é obter apoio dos intelectuais chineses. "A população está mais próxima de nós. Sabemos que até funcionários públicos levam minha foto em seus celulares", disse.

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