Dallas e seu papel na morte de JFK

Após 50 anos, cidade fez ontem pela primeira vez um evento oficial para marcar a data do assassinato do presidente

MANNY , FERNANDEZ, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2013 | 02h06

O dia estava nublado, frio e ventava muito ontem em meio a um forte esquema de segurança, à medida que as pessoas se concentravam na Praça Dealey para a cerimônia que marcou os 50 anos do assassinato do presidente John F. Kennedy.

Enquanto fotos de Kennedy eram exibidas nos telões, os trabalhadores preparavam o palco na praça do centro da cidade e ergueram um enorme retrato do presidente como pano de fundo. As ruas em torno foram cercadas, patrulhadas por policiais a pé ou em seus carros.

A cerimônia, que se desenrolou sob a janela de canto do sexto andar do antigo Texas School Book Depository (um almoxarifado de livros escolares), teve início às 11h30, quando os sinos das igrejas ressoaram por toda a cidade.

O historiador David McCullough leu trechos de discursos de Kennedy, jatos da unidade texana da organização não lucrativa Commemorative Air Force sobrevoaram o local na formação habitual em celebrações fúnebres e um minuto de silêncio foi respeitado às 12h30, horário em que, há 50 anos, o primeiro tiro foi disparado quando o presidente se dirigia para um almoço no Trade Mart de Dallas.

A cerimônia foi uma das inúmeras celebrações realizadas ontem em todo o país, desde um tributo musical na Biblioteca e Museu John Kennedy em Boston até uma missa na Catedral de São Mateus em Washington. O cinema Texas, onde Lee Harvey Oswald foi preso, exibiu parte do filme War is Hell, que estava em cartaz quando Oswald lá se escondeu.

Um dos convidados da cerimônia em Dallas, Robert Connor, de 57 anos, cursava o ensino médio na Escola Católica em Birmingham, Michigan, em 1963. "Quando a notícia foi dada pelo alto-falante todos ficaram estupefatos e as crianças começaram a chorar".

Connor hoje trabalha em uma empresa de papel em Dallas e vive no subúrbio próximo de Plano. Ficou surpreso ao saber que seu pedido, feito online, de dois ingressos para a cerimônia na Praça Dealey havia sido aceito. Na manhã ontem, ele e sua mulher, usando roupas de inverno, encontraram um espaço na grama no centro da praça na frente do telão que mostrava um noticiário antigo com um discurso de Kennedy.

"É como reviver as coisas. É como o 11 de Setembro. Não esquecemos o que ocorreu."

Os policiais revistaram cada um dos 5 mil convidados com ingressos para a cerimônia. As pessoas que não tinham entradas ou credenciais não podiam chegar perto do local.

Um grupo de pesquisadores e acadêmicos que criticou a Comissão Warren (que organiza o minuto de silêncio naquele gramado nesta data e a cada ano desde 1964) foi impedido de entrar na praça. Seus membros disseram que se reuniriam num local vizinho.

Dallas jamais lembrou o assassinato com uma cerimônia tão grande e tão cara.

Chefiado pelo prefeito Michael S. Rawlings, o comitê formado por 25 personalidades civis e religiosas arrecadou US$ 3 milhões em doações e passou meses planejando e organizando a cerimônia. O comitê distribuiu ingressos para o público usando um programa de loteria gerado por computador. Telões foram instalados em três pontos próximos da praça para as pessoas sem ingressos poderem assistir à cerimônia.

"Nunca fizemos algo nesta escala", disse Rawlings. "Acho correto dedicar um instante e dizer obrigado ao presidente Kennedy. Ele estava se dirigindo a um local, para um almoço, onde muitas autoridades locais o aguardavam para lhe agradecer e aplaudir, mas ele nunca chegou ao destino. Assim esta é a nossa maneira de fazer isto, 50 anos depois".

No passado a cidade evitou envolver-se em eventos lembrando o assassinato do presidente e nos anos 70 houve uma forte pressão para o prédio de tijolos vermelhos do almoxarifado de livros escolares ser demolido. Muitos consideram o prédio um monumento horrendo ao assassino, Lee Harvey Oswald.

"Havia uma crença geral de que, se fosse demolida aquela coisa maldita não precisaríamos mais falar sobre o caso, mas as mentes sensatas venceram", disse Hugh Aynesworth, de 82 anos, que cobriu o assassinato e os fatos que se seguiram para The Dallas Morning News.

A praça e o School Book Depository ficaram congelados no tempo por meio século, ao passo que a cidade e a linha do horizonte se transformaram rapidamente. Preservada no estado em que se encontrava em novembro de 1963 - a arquitetura da praça dos anos 40, a curva em Elm Street abaixo da cerca de madeira ao longo da pequena colina de grama - ela serviu como seu próprio memorial. Embora Dallas planejasse construir um monumento em honra a Kennedy, o presente mais duradouro da cidade foi a preservação dessa praça onde ela viveu seu dia mais tenebroso muito antes de a construção de monumentos em locais históricos trágicos tornar-se algo comum.

"As pessoas não acordam todo dia pensando no que ocorreu há 50 anos", disse Ron Kirk, o primeiro prefeito negro da cidade nos 90 e hoje membro do comitê organizador da cerimônia. "Mas, sabiamente, reconhecemos o fato de que aquilo que aconteceu faz parte da nossa história."

Poucas cidades nos EUA viveram sob o estigma que marcou Dallas por meio século. Rotulada de Cidade do Ódio após a morte de Kennedy, Dallas era o centro da direita, de extremistas contrários a Kennedy que atacavam figuras públicas que vinham à cidade mesmo antes da visita do presidente.

Nos primeiros dez anos após a morte de Kennedy, quando originários de Dallas viajavam pelo país ou pelo mundo, à simples menção da cidade em que viviam eram tratados com hostilidade.

James F. Chambers, editor do The Dallas Times Herald, foi lançado fora de um táxi, na neve, em Detroit, dois meses depois do assassinato, quando disse para o motorista que era de Dallas. Wes Wise, prefeito da cidade de 1971 a 1976, conversava com um grupo de prefeitos numa Conferência de prefeitos americanos em Chicago, em 1973, quando o assassinato de Kennedy veio à baila.

"Um dos membros do grupo olhou para mim e disse: 'como se sente como prefeito da cidade que matou o presidente?'", lembrou Wes Wise, hoje com 84 anos. "Disseram que cerrei o punho."

Wise foi um entre as milhares de autoridades locais, atuais e aposentadas selecionadas para participar da cerimônia na Praça Dealey.

Muitos o elogiam por ter ajudado a preservar o almoxarifado, que o condado adquiriu em 1977, e os andares superiores onde foi criado um museu em 1989.

Enquanto as equipes de operários preparavam o palco e colocavam um grande retrato de Kennedy no centro da Praça, era para uma janela de canto no sexto andar do prédio que muitas pessoas olhavam fixamente, apontando e fotografando, como que procurando uma sombra. Alguns olhavam em outra direção, para a cerca de madeira ao longo da colina gramada, onde muitos acreditam que um segundo atirador, ou talvez um terceiro, disparou contra Kennedy. "Foi onde o presidente perdeu a vida e onde a nação enlouqueceu", um indivíduo chamado Ben Landis rabiscou num dos paletes de madeira da cerca grafitada.

Muitas pessoas que participaram da cerimônia de ontem não eram nascidas quando Kennedy foi morto, eram muito crianças para lembrar ou viviam em outro lugar na época. Mas outras estavam na Praça Dealey ou no Trade Mart naquela tarde de 1963.

Wes Wise aguardava a chegada do presidente para o almoço quando um agente do Serviço Secreto dirigiu-se rapidamente até sua mesa e disse-lhe, com lágrimas nos olhos, que "o pior aconteceu". Aynesworth estava na confluência das ruas Elm e Houston quando ouviu três disparos e viu as pessoas correndo para se proteger ou baixando as crianças para protegê-las. "Você não esquece coisas como esta", disse ele. "Às vezes tenta enterrá-la, mas não consegue esquecer". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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