Damasco, a mentira

Somos inundados por todo lado de imagens de Damasco e da segunda maior cidade da Síria, Alepo - casas semidestruídas, céus cobertos de fumaça negra, gritos de terror, o ruído das sirenes, o sangue. Mas, por trás dessa cortina, o que sabemos do verdadeiro teatro no qual se desenrola a tragédia que dilacera o corpo ofegante sírio?

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2012 | 03h02

Os dirigentes de Damasco mostram, há um ano, tanta frieza, insensibilidade e mentiras que não sabemos mais se as imagens que nos chegam do infeliz país são reais ou falsas, concretas ou imaginárias. Damasco tornou-se a tenebrosa miragem dos tempos atuais.

No dia 18, um atentado em um complexo do regime, no centro da capital, matou quatro funcionários de alto escalão das forças de segurança de Bashar Assad. A ditadura apontou imediatamente os responsáveis: os revolucionários do Exército Sírio Livre (ESL), ou os velhos especialistas do terror islâmico, o pessoal da Al-Qaeda, infiltrados nas fileiras dos insurgentes, como não se cansa de reiterar ad nauseam - e com razão - a máquina de propaganda do regime Assad.

A imprensa mundial pareceu concordar com a versão oficial da história. Mas, após oito dias, as pessoas expressam certo ceticismo.

Trabalho interno? Pelas calçadas de Damasco circula uma tese alternativa: e se a bomba foi colocada não pelos rebeldes ou pela Al-Qaeda, mas pelo próprio regime? Assad teria assassinado quatro dos seus colaboradores do mais alto escalão? Por quê?

Porque, respondem vozes de Damasco, esses chefes da segurança se preparavam para desertar e a unirem-se aos insurgentes.

Dois deles - o vice-ministro da Defesa e cunhado de Assad, Assef Shawkat, e o general Hassan Tourkmani - deveriam desempenhar um papel-chave na transição política e na Síria pós-Assad. O ditador, ciente do perigo que representaria para o seu regime a deserção dos quatro chefes das forças de segurança, teria se adiantado. Massacrou-os e pôs o crime na conta dos revolucionários do Exército Sírio Livre ou na da Al-Qaeda.

Esses boatos correm pelas calçadas da cidade mártir da Síria, Damasco. Mas devemos levá-los realmente a sério? Difícil dizer. São apenas boatos. Se os informamos, é para traçar o retrato dessa cidade à deriva na História, na qual tudo é mentira, a ponto de a realidade e o imaginário trocarem de lugar e construírem, juntos, o mundo irreal dos 17 meses da crise síria.

O escolhido. Curiosamente, um homem que foi durante muito tempo um assessor muito próximo de Assad, hoje exilado, que se desloca continuamente entre Dubai e o Canadá, faz do seu antigo patrão e amigo uma descrição que acentua ainda mais a irrealidade que o espetáculo das loucuras de Damasco nos inunda a todo dia.

Ayman Abdel Nour, que teve de fugir da Síria em 2007, declara: "O regime Assad está prestes a devastar Damasco para salvar sua cabeça... Assad é um homem profundamente desequilibrado, que acha que os manifestantes são todos joguetes do Catar. Ele acha que foi escolhido por Deus para conduzir a Síria. Essa deriva começou nos anos 2000, enquanto as elites militares e religiosas do país o endeusavam. E acabará como Kadafi. Um homem escolhido por Deus não pode fugir". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.